Especial

Lixo para uns, renda para outros

Da separação do resíduo para a coleta seletiva à geração de renda: a reciclagem promove uma linha de produção em Pelotas

18 de Agosto de 2019 - 13h50 Corrigir A + A -

JF_9839Em Pelotas ocorrem ciclos importantes de uma indústria com enorme relevância ambiental (Foto: Jô Folha)

Por causa da enorme quantidade de lixo produzida diariamente no mundo, a reciclagem se tornou uma atitude indispensável para a conservação do planeta. Com isso, o pequeno ato de dentro de casa passou a movimentar toda uma indústria, capaz de gerar emprego, renda e um futuro mais sustentável. É o caso de Júlio César Costa, que há 15 anos viu na indústria do lixo a chance de recomeçar a vida. Desempregado, foi para o antigo "lixão" da cidade tirar o sustendo, que hoje já garantiu, inclusive, a compra da casa própria.

Ao longo dos anos, o aterro sanitário desapareceu e outros agentes foram surgindo ao processo. Hoje, tudo começa com a técnica de enfermagem de 64 anos, Ilza Neves. A moradora de uma zona periférica de Pelotas, alerta: tudo é aproveitável. Ela separa o lixo desde que a coleta seletiva iniciou e conta que na hora da divisão, as caixas de leite e os potes de iogurte são lavados e embalados. A rotina da separação e a espera pelo caminhão, que passa na sua rua duas vezes por semana, ocorrem pelo gosto de contribuir com o meio ambiente. "Desperdiçamos muita coisa sem necessidade", afirma.

Sem se dar conta, ela, assim como milhares de pelotenses, contribuiu para fazer essa indústria girar. A próxima medida que Ilza quer adotar é reaproveitar a água da máquina de lavar roupas para utilizar na privada. Para isso, a técnica de enfermagem projeta armazenar a água já usada em outra caixa. Assim, ela será aplicada no sistema de descarga. "É menos um desperdício." Outro ponto destacado por quem se preocupa com o meio ambiente, é que o ato de reciclar gera renda e emprego para o município, através das cooperativas e de seus cooperados.

JF_0876"A minha vida melhorou muito", diz o cooperado Júlio César, há 15 anos no ramo (Foto: Jô Folha)

O processo
Em Pelotas, a coleta seletiva teve início nos anos 1990 e recebeu considerável ampliação nos anos 2000. Os resíduos coletados se dividem em papel, plástico, vidro e metal e são encaminhados para as cooperativas de catadores conveniadas ao Sanep. No momento, a coleta atende cerca de 80% da zona urbana do município, e chega à média de 138 toneladas de dejetos recicláveis por mês.

Seis cooperativas recebem os resíduos e são responsáveis pela triagem e comercialização do mesmo. O convênio com o órgão municipal garante despesas como água, luz e também insumos de trabalho, como óleo hidráulico e combustíveis. Além disso, cada cooperado recebe um auxílio de R$ 400,00 por mês. O objetivo da parceria é garantir estabilidade do serviço prestado e desenvolver um programa de apoio social e organização econômica entre as mais de cem famílias envolvidas.

Além dos resíduos arrecadados pela coleta seletiva, as cooperativas recebem os dejetos deixados nos ecopontos municipais. Atualmente, Pelotas conta com quatro ecopontos distribuídos nos bairros Areal, Fragata, Laranjal e Balsa, e tem a expectativa de inaugurar mais quatro até o final deste ano. Os pontos têm o objetivo de facilitar a vida do cidadão que deseja descartar corretamente o lixo e reeducar aquele que ainda faz da maneira incorreta.

JF_9840Trabalho intenso: separação de material é constante nas cooperativas (Foto: Jô Folha)

Reciclar para gerar renda
A Cooperativa de Trabalho dos Agentes Ambientais do Fraget (Cootafra) conta com 17 cooperados e vende cerca de dez toneladas de material quinzenalmente. Lá, tudo o que é vendido é dividido igualmente entre os servidores. "Assim gera renda para todos", afirma a presidente Fabiana Silveira. Segundo ela, o entendimento sobre reciclagem surgiu quando tornou-se uma cooperada. "Eu não conhecia nada, para mim era tudo misturado", confessou. Hoje, Fabiana entende a importância do seu trabalho para a sociedade e pede a todos que "contribuam com o planeta".

Depois do dejeto ser triado e embalado pelas cooperativas, ele é vendido para as empresas de reciclagem, que no Rio Grande do Sul estão localizadas, em sua maioria, em Porto Alegre. Acontece que as cooperativas não possuem toda a estrutura para realizar a entrega da mercadoria, como caminhão adequado para viagem, motorista e verba para o combustível. Com isso, elas precisam negociar o produto com um atravessador. Esse tem condições de transportar a mercadoria e realizar a venda final. Só que com isso, as cooperativas acabam comercializando os produtos a um preço menor.

Por esse motivo, o desejo dos cooperados da Cootafra é um dia ter condições financeiras e estruturais para promover a venda direta para a indústria de transformação. "Quando tivermos um caminhão adequado isso vai acontecer", ressaltou Fabiana.

Outra cooperativa pelotense é a de Catadores da Vila Castilhos (COOPCVC), que conta com 14 cooperados, e entre eles está o Júlio César Costa. Quando perdeu o emprego, ele então precisou recorrer às atividades de reciclagem. "Eu não tive outra opção", afirmou.

Junto com Costa, mais 400 mil pessoas, de acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), declaram que a atividade é a sua principal renda. E foi dessa maneira que o cooperado da COOPCVC conseguiu adquirir sua primeira casa própria. "A minha vida melhorou muito", contou. Hoje, com 53 anos, ele segue na atividade, e os principais objetivos são conquistar a aposentadoria e dar uma vida digna à filha de 12 anos.

Carlos queiroz 95156Moradora Ilza Neves faz sua parte e dá o recado: tudo é aproveitável (Foto: Carlos Queiroz)

Reflexos
O economista e coordenador do Escritório de Desenvolvimento Regional da Universidade Católica de Pelotas (EDR/ UCPel), Ezequiel Meggiato, informa que ainda não existem estudos sobre o impacto econômico da reciclagem na região, mas afirma que com certeza é positivo. "A atividade faz voltar uma parte da cadeia produtiva para a produção", explicou.

Segundo dados de um estudo realizado pela Associação Empresarial para Reciclagem (Cempre), o Brasil produz mais de 240 mil toneladas de lixo por dia. Desses, 45% são recicláveis. Porém, o país recicla apenas 2% do lixo urbano produzido. O pedido de Meggiato é que os governos invistam cada vez mais nessa indústria, e destaca que além da contribuição econômica, o ato cumpre um papel ecológico. "No fim, colabora para o saneamento básico e para a redução de doenças."


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