Amor

Juizado da Infância qualifica processo de habilitação para adoção responsável

Medidas têm objetivo de evitar que os casos resultem em novos abandonos

10 de Novembro de 2019 - 08h31 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

História de amor começou a ser escrita em junho de 2018, quando uma professora de Pelotas decidiu adotar menina de Teresina, no Piauí (Foto: Carlos Queiroz - DP)

História de amor começou a ser escrita em junho de 2018, quando uma professora de Pelotas decidiu adotar menina de Teresina, no Piauí (Foto: Carlos Queiroz - DP)

O compromisso é para vida toda. Ou deveria ser. Parte dos processos de adoção realizados no país transforma-se em novos casos de abandono, durante os 90 dias do estágio de convivência. Crianças e adolescentes, que já carregam histórias de dor e de rejeição, acumulam mais uma razão para se sentir descartados. Na Comarca de Pelotas, até o momento, cinco episódios foram registrados em 2019. Para tentar barrar a formação de novos traumas, o Juizado da Infância e da Juventude estabeleceu outras duas exigências para fortalecer o conceito da adoção responsável.

Uma delas entrará em prática neste mês: é a participação em, pelo menos, três encontros do Grupo de Apoio à Adoção de Pelotas (Gaap). Uma oportunidade para troca de experiências. De um lado, o relato de quem decidiu ver a família crescer e lida com um misto de alegrias, descobertas e dificuldades. De outro, os ouvidos atentos de quem pretende fazer o mesmo. E o convite para o bate-papo se repete todos os meses. Basta querer acompanhar. A última reunião do ano ocorrerá neste domingo (10), no Parque da Baronesa, no bairro Areal (veja detalhes ao final da matéria).

O objetivo é apenas um: fazer com que o sonho de poder pronunciar as palavras pai e mãe não seja, mais uma vez, arrancado desses meninos e meninas. Crianças e jovens que veem o direito à convivência familiar violado, todos os dias. Não raro, há anos. Enquanto aguardam deixar os abrigos.

"O que ela trouxe pra minha família é muito maior do que eu trouxe pra vida dela"
Ao entrar no avião para um trajeto que só se encerraria no sul do Sul do Brasil, 16 horas depois, a pequena - então com oito anos de idade - conseguiu sorrir. Pela primeira vez, após uma semana. A imagem emblemática virou foto e até hoje é guardada como uma das mais belas recordações desta história que começou a ser escrita em junho de 2018. Antes de embarcar, enquanto era expedida a guarda provisória no Juizado em Teresina, no Piauí, a estudante entregou a mochila que havia recebido no abrigo. Preferia não trazer nada para Pelotas.

"Ela se despiu de tudo", conta a mãe, ao abrir a porta de casa ao Diário Popular. Simbolicamente, iniciava ali o recomeço de uma vida marcada por pelo menos três rupturas: com os pais biológicos, com as irmãs caçulas que haviam sido adotadas e com o casal que viajou até o Nordeste para acolher ela e um outro irmão e desistiu mesmo após o contato que já durava um mês, através de chamadas de vídeo, o quarto montado e até as roupas de inverno compradas. "Ficaram com eles por uma semana num hotel, mas aí como acharam que não seriam os filhos ideais, largaram no abrigo de novo, viraram as costas e foram embora", desabafa a professora, que virou ativista a favor da adoção. "Foi tudo muito forte pra ela".

Até hoje, as palavras Eu te amo precisam ser ressaltadas. A menina espoleta, que adora futebol e já escolheu o Inter como time do coração, ainda faz acompanhamento psicológico para superar o medo de ser abandonada. Ao conversar com o DP, a maior parte das perguntas - mesmo que leves - era respondida com um abraço apertado na mãe, que preferiu manter a identidade das duas preservada.

A descontração aumentou quando dois temas entraram em pauta: os bichos de pelúcia, que logo fizeram a ursa Larissa - presente da vovó - ser carregada para sala, e o gato Raj; o preferido do trio de felinos. Aos poucos, os sentimentos se abrandam. Nos primeiros encontros com os três irmãos biológicos, que também vivem no Rio Grande do Sul, três indagações eram disparadas: "Tá feliz? Te tratam bem? Tem comida?". Hoje, com o calor do aconchego materno e quase 20 centímetros mais alta do que quando chegou à Zona Sul, a já não tão pequena vê se concretizar o sonho alimentado, quando conseguiu sorrir ao se acomodar no avião: "Eu achei que eu ia ser feliz". Agora, é realidade. Para ambas.

"O que ela trouxe pra minha família é muito maior do que eu trouxe pra vida dela", resume a mãe. Os dias ganharam novo significado. Outra importância. Novas cores: as cores intensas de um amor adubado dia após dia.

2019 já teve 42 adoções na Comarca de Pelotas
Os números são positivos. Até a última semana, 42 casos de adoção se concretizaram na Comarca de Pelotas, em 2019; bem acima das 28 adoções de 2018. Neste ano, outro dado também pode ser comemorado: há 48 guardas provisórias concedidas entre os cinco municípios da área de abrangência do Foro. O desafio, entretanto, é estancar as situações que culminam em 'devoluções', como se crianças e adolescentes fossem mercadorias à espera de troca. Todos os episódios, entretanto, ocorreram durante o período de convivência, em que a guarda definitiva ainda não foi expedida.

A juíza da Infância e Juventude, Alessandra Couto de Oliveira, ressalta que em praticamente todos os casos, as famílias são excluídas do cadastro e ficam impossibilitadas de se candidatar a uma segunda adoção. Salvo em situações muito específicas em que a equipe técnica avalia ainda ser possível nova tentativa. "É muito triste que isto aconteça. Em geral, as pessoas relatam dificuldades em manejar com birras e mau comportamento, mas filho não se devolve", enfatiza a magistrada.

Outras duas medidas foram definidas e juntam-se ao curso preparatório instituído em 2015 para qualificar o processo de habilitação à adoção. Desde junho de 2019, as famílias que estão em estágio de convivência participam de encontro mensal para troca de experiências. A partir deste mês, os interessados em adotar também terão como pré-requisito a presença em três encontros do Grupo de Apoio.

Participe!
O último encontro do Grupo de Apoio à Adoção de Pelotas (Gaap) será realizado neste domingo (10) a partir das 15h, no Parque da Baronesa. As reuniões são abertas à comunidade em geral. Por isso, você também é convidado a pegar lanche, toalha, cadeira de praia e chimarrão e ir até lá participar de piquenique com as famílias que levantam alto a bandeira da adoção.

O recado é simples: "Depois de pegar na mão e entrar em casa é pra sempre", defende uma das integrantes do Gaap, Liana de Mattos Xavier. Por isso, a importância de se intensificar reflexões prévias.


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