Homenagem

Heróis que usam máscaras

Dia do Médico reforça a importância dos profissionais que estão na linha de frente da maior pandemia do século 21

18 de Outubro de 2020 - 10h39 Corrigir A + A -
Médica Bianca Orlando contou a realidade da UTI Covid do HE-UFPel (Foto: Divulgação - DP)

Médica Bianca Orlando contou a realidade da UTI Covid do HE-UFPel (Foto: Divulgação - DP)

Este domingo marca um dia especial para os profissionais da saúde. A pandemia apenas reforçou a importância daqueles que já possuíam uma grande responsabilidade em mãos e que são uma das principais esperanças contra a Covid-19. O Dia do Médico, comemorado neste dia 18 em homenagem a São Lucas, é uma homenagem àqueles que salvam vidas e que se veem diante de um cenário para o qual não estavam preparados e que não permite erros.

A data é a valorização dos profissionais que estão na linha de frente contra a Covid-19, que deixará legados duradouros na profissão. Os médicos já desempenhavam um papel fundamental no sistema de saúde antes da chegada do novo coronavírus. A doença intensificou os trabalhos e reforçou a importância desta atividade. "O papel do médico está mais forte do que nunca. Nossa responsabilidade não é apenas no tratamento, mas no acompanhamento também. Estamos trabalhando muito com saúde mental dos pacientes. A pandemia é grave, mas as outras doenças não pararam. Crianças cardiopatas seguem cardiopatas, as alérgicas ainda são alérgicas. É um trabalho que não pode parar", conta a professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Cristiane Hallal.

A médica intensivista Bianca Orlando, que atua na UTI Covid no Hospital-Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel), conta que a rotina está bastante agitada, com máquinas fornecendo o suporte vital e com a participação de equipes multidisciplinares trabalhando com os pacientes diagnosticados com coronavírus. "Com o avanço do vírus, a movimentação foi intensificada. A paramentação, a doença ainda em processo de conhecimento e os doentes em estado muito grave tornaram o nosso ambiente diferente e totalmente novo, mesmo para quem já estava adaptado a estes cenários", afirma.

Estas mudanças no cotidiano dos profissionais tornaram a UTI um ambiente solitário. As necessárias barreiras impostas pelo isolamento atingiram a vida pessoal dos profissionais. "É um desafio enquanto pessoa. Tivemos que aprender a nos comunicar efetivamente sem olhar nos olhos dos familiares, dar esperança aos pacientes com seus medos. Presenciamos muitas despedidas e choramos juntos as perdas. Ainda assim, trabalhar na linha de frente é algo que é muito gratificante. Estamos prontos para atender qualquer pessoa que precise", destaca.

Saúde mental dos profissionais neste cenário inédito

"Médico também adoece e os médicos estão adoecendo. É uma profissão linda, mas que tem seus desgastes. Os estudantes recém formados tiveram que antecipar a formatura para reforçar o front contra a Covid. O médico se viu frente a frente com uma doença que não temos como controlar, diferente do que lidávamos antes". Com este relato, Cristiane aponta que a saúde mental - assim como a física - dos médicos está sendo prejudicada. Os profissionais têm dado suporte uns aos outros para conseguirem trabalhar neste cenário totalmente atípico.

Ao longo da história, a humanidade já atravessou períodos de pandemia. A mais recente delas era a da Gripe Espanhola, no século passado. Entretanto, o cenário que se construiu neste ano foi totalmente inesperado pelos profissionais. As proporções que a doença alcançou surpreenderam os médicos. "Pandemias sempre existiram, talvez essa seja a de maior proporção. Mas, também deve ser a com mais recursos para ser combatida. Tivemos a H1N1 em 2009, porém não imaginávamos que o coronavírus tomasse esta proporção. E aqui estamos nós: há sete meses lidando diariamente com estas doenças", comenta Bianca.

O impacto do negacionismo

Enfrentar a pandemia não tem sido para ninguém, independente da profissão. Na área médica, as profissionais destacam o quanto o processo de negação dos efeitos da Covid-19 é desestimulante e prejudicial à recuperação deste quadro. "Às vezes, entristece. Às vezes, revolta e outras vezes desanima. Entrar numa UTI onde 20 pessoas estão ali com a mesma doença é assustador. Conheço pessoas que internaram e até hoje não estão plenamente recuperadas, podendo ficar com sequelas talvez definitivas. Sem falar da quantidade de pessoas que perderam esta batalha", afirma Bianca.

Esta sensação também é compartilhada por Cristiane. Ela afirma que nunca imaginou viver um quadro semelhante e que é doloroso acompanhar estas reações da sociedade. "Infelizmente, ainda tem muita gente não acreditando. A gente segue trabalhando, se afasta de casa para poder trabalhar e, enquanto fazemos isso, tem pessoas passeando na rua e no centro", aponta.


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