Temor

Graduação que se tornou uma incógnita

Estudantes da UFPel alegam ter matrículas canceladas sob alegação de falta de documentos que já teriam sido enviados

16 de Outubro de 2021 - 10h13 Corrigir A + A -
Iago é um dos alunos que enfrenta o cancelamento de matrícula e vê o sonho da formação em teatro em risco  (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Iago é um dos alunos que enfrenta o cancelamento de matrícula e vê o sonho da formação em teatro em risco (Foto: Carlos Queiroz - DP)

De acordo com relatos, as suspensões de vínculos começaram a ser informadas nesta semana (Foto: Carlos Queiroz - DP)

De acordo com relatos, as suspensões de vínculos começaram a ser informadas nesta semana (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Graduandos da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) têm visto o sonho do diploma por um fio. Estudantes que ingressaram através de cotas no segundo semestre deste ano afirmam estar sendo notificados sobre o cancelamento de suas matrículas. A alegação da instituição seria a falta de documentação necessária e a consequente ausência de atendimento aos critérios para ingresso nos cursos.

Aluna do curso de bacharelado em Ciências Biológicas, Alessandra Duarte, 22, está entre os que tiveram suas matrículas suspensas. Admitida sob utilização da Cota L2 - a qual abrange candidatos que cursaram todo o Ensino Médio em escolas públicas, com renda familiar bruta per capita igual ou inferior a 1,5 salário mínimo, autodeclarados pretos, pardos ou indígenas -, ela afirma ter enviado todos os documentos necessários para comprovação dos requisitos e que não havia sido informada sobre possíveis pendências antes do encerramento de seu vínculo com a universidade. No entanto, prestes a finalizar o primeiro semestre, teve seu registro cancelado nesta semana devido à falta de comprovação de renda. "Eu enviei toda a documentação necessária durante a matrícula e só faltou o RG, então eles dão o prazo para o envio. Eu mandei todos comprovantes de que eu não estava conseguindo agendar para fazer a identidade e eles me deram o prazo até o final de novembro", explica.

Apesar disso, o cancelamento da matrícula veio antes da oportunidade de envio do documento de identificação. A estudante recebeu e-mail no qual a UFPel afirma que não eram atendidos os critérios para ingresso na modalidade selecionada. "Minhas aulas começaram dia 9 de agosto, desde esse dia tive aula normal, prova, trabalho, chegou este mês e me enviaram um e-mail dizendo que eu perdi a minha vaga. Eles esperaram eu ter dois meses de aula para me desligarem, podiam ter dado essa informação bem no início das aulas. Estou tentando dar um jeito e está sendo difícil para mim", desabafa.

Caso não é isolado

Iago Rangeli, 27, estudante de Teatro, está passando por situação semelhante. Após cursar dois anos do Ensino Médio na Escola Coronel Pedro Osório e eliminar o último ano através do Enem, o estudante teve sua primeira oportunidade de entrar na UFPel em 2017, quando ingressou através da L1, mesma cota utilizada neste ano. Na oportunidade, a documentação de comprovação quanto a renda familiar igual ou inferior a 1,5 salário mínimo e de estudo totalmente cursado em escola pública não apresentou problemas, mas Rangeli precisou trancar o curso devido a um caso de doença na família.

Em 2021 Iago teve nova oportunidade de ir atrás de seu sonho, porém durou menos de um semestre. Na quarta-feira se viu impossibilitado de entrar na plataforma de aulas remotas porque o vínculo com a UFPel havia sido cancelado por não atender os critérios. "É uma tristeza muito grande. Nossa casa é alugada e para que ele pudesse fazer as aulas, eu conversei com a dona da casa, para fazer uma divisória para ele ter um espaço, tirando dinheiro de onde não tinha para ajudá-lo. Na quarta pela manhã ele tinha feito aula normal, mas quando cheguei à tarde ele estava em choque pela universidade trancar a matrícula, do nada", relata a mãe, Marlene.

A tentativa de resposta da universidade começou no mesmo dia, mas sem resultado. "Tentei conversar com a UFPel, perguntando se era erro sistêmico, porque eu tinha enviado toda a documentação e eles batem o pé dizendo que mesmo tendo enviado toda a documentação não significava que ela estava correta." Iago afirma que o único contato, após a matrícula realizada no final do mês de julho, aconteceu em 30 de agosto, com o pedido de um documento, que logo foi enviado. "Fica meu questionamento, como que nós começamos a fazer aula, como foi gerado o registro acadêmico, como que a gente começou todo um semestre? Nós entregamos trabalhos, 99% do semestre concluído e faltando um mês para terminar, eles estão cancelando uma vaga que entrei por cota e é meu direito", questiona.

Assim como Alessandra, o veto da matrícula de Iago se deu por suposta falta de comprovação ao quesito de baixa renda, além de, no caso dele, a falta de registro de ser oriundo de escola pública. "Eu recebo auxílio emergencial desde o início da pandemia, não tenho comprovação de renda, minha mãe também não tem carteira assinada e recebeu o auxílio. Eu não pedi nenhum benefício e não quero nada a mais, eu só quero meu direito de poder estudar, apenas isso e ele está sendo tirado", finaliza.

O que diz a universidade

Em nota, a Coordenação de Registros Acadêmicos da UFPel afirma que o processo de seleção para cotas socioeconômicas obedece a um edital específico, e que as pessoas que não concorrem são desligadas.

"O processo referido obedece a seguinte forma: a Coordenação de Registros Acadêmicos da Pró-Reitoria de Ensino (PRE) publica um edital de matrícula. Nesse edital de matrícula consta a exigência de que todo ingressante cotista (L1, L2, L9 e L10) têm, obrigatoriamente, que passar pelo edital que será posteriormente lançado pela Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE), responsável pela seleção socioeconômica. Dois dias após a matrícula feita pelo CRA, é aberto o edital da PRAE. Assim que é lançado o edital da PRAE, é enviado e-mail para o endereço eletrônico que o aluno cadastrou no sistema, avisando mais uma vez que eles obrigatoriamente têm que passar por avaliação socioeconômica. Assim, todos os alunos ingressantes são avisados que devem fazer essa inscrição. Após a inscrição no edital da PRAE, assim que sai a lista inicial dos homologados, mais uma vez a Pró-Reitoria envia um e-mail para a conferência dos estudantes. Depois disso, é divulgada a lista final. ", diz a nota.

A instituição também afirma que, junto à PRAE, não cabe mais recurso neste ano. Mas aponta que o aluno ainda tem o Conselho Coordenador do Ensino, da Pesquisa e da Extensão (Cocepe) como instância de recurso. O contato pode ser feito pelo e-mail scs@ufpel.edu.br.


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