Saúde pública

Em vigília por respostas à suspeita de fraude nos exames de pré-câncer

Ato foi realizado no início da noite desta sexta-feira, quando se completa um ano da morte de Ieda de Ávila, 52

29 de Novembro de 2019 - 21h57 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Durante o manifesto, integrantes da Mobilização distribuíram material informativo à comunidade (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Durante o manifesto, integrantes da Mobilização distribuíram material informativo à comunidade (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Tainara de Ávila Lessa, 23, falou em nome dos dez filhos e dos 23 netos de Ieda (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Tainara de Ávila Lessa, 23, falou em nome dos dez filhos e dos 23 netos de Ieda (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Cartazes foram colados durante o trajeto, no Calçadão (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Cartazes foram colados durante o trajeto, no Calçadão (Foto: Carlos Queiroz - DP)

As dúvidas ainda ecoam alto. E a saudade aperta. Familiares, amigos e integrantes da Mobilização Pela Vida das Mulheres Pelotenses (MOB) foram às ruas no início da noite desta sexta-feira (29), em vigília para marcar um ano sem a dona de casa Ieda de Ávila, uma das três pacientes que morreram, vítimas dos exames de pré-câncer que teriam resultados falsos-negativos. Cartazes colados ao chão, caminhada e exigência por respostas sobre a suspeita de fraude.

O inquérito do Ministério Público (MP) segue em aberto. O trabalho do Instituto Geral de Perícias (IGP) se encerrou em 19 de novembro, mas o número de lâminas reanalisadas foi reduzido. Os prazos para entrega dos resultados dos citopatológicos - agora a cargo do Serviço Especializado de Ginecologia (SEG) S/S de Porto Alegre - ainda são descumpridos. Há muitos pontos à espera de esclarecimento.

"A gente quer justiça. A frustração é muito grande. A nossa mãe sempre se cuidou. Sempre fez os exames certinho e dava tudo normal. Temos lá guardado, dava negativo para malignidade", conta Tainara de Ávila Lessa, 23, em nome dos dez filhos e dos 23 netos que ela não poderá ver crescer. E lembra que foi justamente a descoberta do câncer de Ieda, em estágio mais avançado, que desencadeou a denúncia dos profissionais da Unidade Básica de Saúde (UBS) Bom Jesus sobre uma possível padronização dos exames.

Em documento entregue à prefeitura, em janeiro de 2016, médicos e enfermeiros apontavam que há dois anos os laudos dos citopatológicos - analisados pelo Serviço Especializado de Ginecologia (SEG) Ltda, de Pelotas - não indicavam alterações nem havia ressalvas de material mal coletado. Questiona-se, principalmente, a competência do laboratório contratado para análise das lâminas - alertava o material que acabou chegando à imprensa em julho de 2018. Não raro, havia descompasso entre os resultados e os exames ginecológicos nas pacientes; assegurava a equipe.

Um ano e quatro meses depois, as indagações permanecem. E o pior: a MOB reforça a cobrança por um mutirão que garanta a realização do papanicolau a todas as mulheres que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS), em idade preventiva.

Saiba mais
- Reanálises das lâminas
O IGP concluiu a perícia no dia 19 de novembro. Ao todo, o Laboratório de Patologia do Departamento Médico Legal de Porto Alegre recebeu três remessas de material de Pelotas, em um total de 420 lâminas; 320 da UBS Bom Jesus, referentes ao ano de 2017, e outras cem das UBSs Areal Leste, Obelisco, Dunas, Getúlio Vargas e Vila Municipal, escolhidas aleatoriamente, conforme metodologia científica.

Juntos, IGP e MP, decidiram que este total de lâminas seria suficiente para a amostragem estatística necessária - explicou o Instituto na tarde de ontem, através da assessoria de Imprensa, na capital. Em junho quando o DP publicou a série de reportagens Dossiê lilás, entretanto, a estimativa era de que 589 lâminas fossem reanalisadas. Na época, uma das principais críticas referia-se ao período que geraria o reestudo: de janeiro de 2017 a junho de 2018; intervalo que não coincide com o alerta feito pelos profissionais da UBS Bom Jesus, que seria dos anos de 2015 e 2014.

O Diário Popular não teve acesso aos resultados da perícia das 420 lâminas. O IGP encaminhou ofício para formalizar o término do trabalho ao MP apenas nesta sexta-feira e somente o Ministério Público poderia divulgar os dados.

- Inquérito do MP
A promotora Rosely de Azevedo Lopes, que responde pelas demandas da área da saúde, está em férias e retorna apenas em janeiro. O substituto, promotor Fernando Gerson, explicou que só comentaria o caso se tivesse acesso aos resultados das reanálises.

- Monitoramento atual da qualidade do serviço
É um dos principais pontos exigidos pela Mobilização Pela Vida das Mulheres Pelotenses: que a prefeitura cumpra a portaria federal 3388 e contrate laboratório tipo II, encarregado de monitorar a qualidade do trabalho da empresa responsável pelas análises; no caso, o SEG de Porto Alegre.

Ao ser questionada a respeito, a secretária de Saúde de Pelotas, Roberta Paganini, garantiu que já foi feita a solicitação à 3ª Coordenadoria Regional de Saúde, mas a prefeitura não obteve resposta. "Eu não posso dizer que eles (a 3ª CRS) tenham ou não contratado porque eu não sei", argumentou.

Em julho, o então secretário de Saúde, Leandro Thurow, garantiu que a determinação seria cumprida.

- Entrega dos resultados fora do prazo
O prazo estabelecido no edital segue sendo desrespeitado. O Serviço Especializado de Ginecologia (SEG) S/S de Porto Alegre deveria disponibilizar os resultados dos exames de pré-câncer em um período de sete a dez dias.

A secretária Roberta Paganini afirma que os resultados estariam sendo liberados em um prazo de até 30 dias e atenderiam a portaria preconizada pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca). O contrato, que se estende até o final deste ano, será renovado.


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