Oportunidade

Do acolhimento à universidade

Com rompimento de vínculos familiares e deficiência intelectual, moradora da Residência Inclusiva é aprovada na UFPel

12 de Janeiro de 2022 - 21h50 Corrigir A + A -
Jovem de 23 anos vai cursar Educação Física a partir de março. (Foto: Rodrigo Chagas - Ascom)

Jovem de 23 anos vai cursar Educação Física a partir de março. (Foto: Rodrigo Chagas - Ascom)

Livros e apostilas foram a base do estudo da Luana Machado de Campos, chamada recentemente para assumir uma vaga no curso de licenciatura em Educação Física da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). As aulas começam em março e ela já está pronta para aprender muito. O que Luana tem de diferente de outros “bixos” de Pelotas?  Ela tem deficiência intelectual e foi abrigada pela prefeitura aos 16 anos, depois da morte dos pais. Ao completar 18, mudou-se para a Residência Inclusiva, um equipamento da rede socioassistencial mantido pelo Poder Público e destinado a pessoas com deficiência e que não possuem suporte familiar.

Aos 23 anos, Luana demonstra maturidade, consegue avaliar as dificuldades que enfrentou quando foi acolhida e em relação aos relacionamentos e à vontade de ir embora, o que não acontece mais. “Vou gostar de estudar, aprender coisas novas, é importante pra mim, pra todo mundo”, afirma a estudante.

Além da equipe do município, outros moradores da casa também contribuíram para a mudança de comportamento da jovem. Ela fala com carinho e detalhes sobre os conselhos que recebeu do amigo André (nome fictício), que atualmente está em processo de reinserção familiar - uma das metas do serviço, sempre que possível. “Ele dizia: Luana, não é assim”, lembra a jovem. Ela explica as mais variadas orientações recebidas, desde como funcionam as questões burocráticas para a chegada e saída da casa, até sobre não interferir na vida dos outros para evitar brigas.

O titular da Secretaria de Assistência Social (SAS), José Olavo Passos, ressalta que histórias como a da Luana “servem de estímulo para que a gente sempre acredite e invista na capacidade de superação do ser humano.” A afirmação de Passos é reforçada pelo psicólogo da Residência, Helton Luiz Godinho Bederode, que avalia que o trabalho se torna gratificante e cumpre o seu papel quando é alcançada a reinserção social. “O desacolhimento institucional, em andamento, do André e o ingresso da Luana na universidade são grandes vitórias que nos incentivam a seguir”, aponta.

A persistência como diferencial

Luana, agora universitária, realizou a prova do Enem duas vezes. Foi chamada com as notas do primeiro teste, em 2020. Os estudos para esse exame aconteceram com o apoio dos educadores e da equipe técnica da Residência Inclusiva, que a ajudaram na organização e ofereceram livros e apostilas. Até receber o resultado positivo, ela não relaxou e seguiu estudando.

Quando a casa recebeu um computador para uso dos moradores, em 2021, Luana começou a assistir aos vídeos de aulas preparatórias e a fazer simulados. A escolha do curso não foi fácil, precisou de ajuda da equipe, pois Luana se interessou por todas as opções apresentadas. Agora, já matriculada, faz planos para depois de formada: pretende começar a trabalhar com crianças pequenas e depois com adultos.

Sonhos que saem do papel

O sonho de ter um notebook apenas seu foi realizado no último Natal, presente de uma voluntária. Até o fim das férias o equipamento será utilizado para assistir a filmes e ouvir música, os programas preferidos dela. Após o início das aulas, Luana o utilizará para os muitos trabalhos que virão com a faculdade.


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