Adeus

Dia de largar o lápis e homenagear o mestre

Desenhista Renato Canini deixa amigos, familiares e admiradores do seu trabalho

01 de Novembro de 2013 - 06h32 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

'Canini era um homem bom', resumiu a mulher do desenhista (Foto: Carlos Queiroz - DP)

"Canini era um homem bom", resumiu a mulher do desenhista (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Se o despojado Zé Carioca pegasse o pandeiro e convidasse o parceiro Nestor a uma roda de samba, hoje, por certo, seria para render homenagens. Homenagens que familiares, amigos, colegas de jornada e admiradores prestam desde a manhã desta quinta-feira (31) ao desenhista Renato Canini, 77, o pai de Zé Carioca, como ficou nacionalmente conhecido. Mesmo na quarta-feira, quando não se sentia tão bem, adotou o ritual: mergulhou em meio aos papéis, ideias e personagens. À noite, teve um mal súbito e morreu. Levou na bagagem da simplicidade, sua principal marca, o sonho de publicar nova obra, ainda sem nome, mas com tema razoavelmente definido: o transcendental.

> Confira abaixo da matéria a charge do cartunista André Macedo em homenagem à Canini, produzida com exclusividade para o Diário Popular

Visivelmente abalada, a mulher Maria de Lourdes Martins Canini, 78, afirmou, em voz baixa: "Tudo que é bom deve ser alardeado e gritado e Canini era um homem bom. Gentil, delicado e generoso". Foram quase 18 anos de união, a serem completados em 15 de novembro. Dezoito anos anos de fluidez, sem desavenças ou tons de voz alterados. "Era um homem sempre pronto para auxiliar, para encaminhar as pessoas", diz a companheira. A pelotense que, por muitas vezes, correu à lixeira para resgatar criações desprezadas por Canini, não raro, em traços soltos durante a madrugada quando liberava a imaginação ou voltava-se aos retoques.

"Era sobretudo um cristão", reforça Maria de Lourdes. E era justamente ao lado dela que o gaúcho tímido, nascido em Paraí, no norte do Estado, dedicava-se a uma outra paixão: os cuidados com o jardim. De novo, a sensibilidade falava alto.

A trajetória profissional
A carreira de Canini como desenhista teve início em 1957, na revista Cacique, criada pela Secretaria de Educação de Porto Alegre para o público infanto-juvenil. Trabalhou como colaborador para vários veículos de comunicação, como a TV Piratini - ao produzir charges principalmente sobre futebol - e jornais impressos como o Correio do Povo e o Diário de Notícias.

Em meados da década de 1960 mudou-se para São Paulo, contratado para ilustrar a revista Bem-Te-Vi. Logo surgiu a oportunidade de trabalhar na editora Abril, em princípio na revista Recreio. Na redação ele mantinha contato com os desenhistas da Disney no Brasil e não demorou muito para passar a integrar a equipe. Depois de um ano e pouco bateu a vontade de retornar a Porto Alegre e então foi convidado a continuar a fazer desenhos, que poderiam ser enviados por malote.

A proposta foi aceita e a partir daí Canini assumiu a função de dar vida ao Zé Carioca. Até então não havia quem desenhasse o personagem que, sem traços próprios, era feito com base nos desenhos do Pato Donald. Por isso, apesar de ter uma revista com seu nome, Zé Carioca praticamente não protagonizava histórias; aparecia em tirinhas de uma página e raramente figurava nas capas dos gibis. Na revista número 1.015 de abril de 1971 apareceu a primeira história longa do Zé Carioca made in Brazil. Os traços ficaram mais leves e o papagaio perdeu o paletó, a gravata borboleta e o sapato de sola. O personagem ganhou camiseta e chapéu de malandro.

A admiração dos colegas

"Era uma pessoa muito querida. Sempre tranquilo. Era uma pessoa como poucos. Uma das maiores influências a todos nós. É o maior que tinha até ontem (quarta-feira)". 
(Rafael Sicca, cartunista, atualmente radicado em Porto Alegre)

"Ao receber o título de Cidadão Pelotense, em 2005, o Canini disse uma frase que considero que define exatamente quem ele era: 'Eu agradeço a Deus por essas pequenas glorinhas mundanas'. Foi um privilégio ter sido amigo de Canini".
(Rossano Di Concilio, poeta e um dos idealizadores da distinção concedida pela Câmara de Vereadores)

"Ele era uma pessoa tão admirada e artisticamente tão competente que tínhamos necessidade de homenageá-lo, apesar de sabermos que, em função de ele ser tímido, isso tudo era doloroso para ele. Tínhamos uma necessidade quase compulsiva de homenageá-lo".
(André Macedo, chargista)

"Era um artista grande e um amigo especial. Uma pessoa de coração generoso, de muita simplicidade. A mesma síntese que ele levou às figuras e, quanto mais o tempo passou, mais simples e despojado ficou o trabalho dele. Algo muito difícil".
(Santiago, chargista e cartunista)

Um espaço reservado só para ele
Quem quiser prestigiar parte da produção artística de Renato Canini pode visitar a exposição permanente instalada desde o dia 2 de outubro no Laboratório de Acervo Digital (LAD) da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), localizado na entrada do Campus I, pela rua Dom Pedro II.

Ao longo de três anos, enquanto trabalhavam no projeto destinado a resgatar memórias, os professores Fabiane Marroni e Daniel Botelho ouviram Canini repetir a pergunta: "Vai ter também outros artistas, né?", relembrou Botelho, na tarde desta quinta, durante o velório no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula. A dupla, então, ressaltava: o espaço, conhecido como Ponto de Cultura, era - e será - exclusivo ao criador de personagens, como o cangaceiro Zé Candango, o caubói Kactus Kid e o Índio Tibica. "Ele nos deixa um legado que nos permite revisitar a sua essência e nos dá a certeza de que ele está muito vivo na sua obra", reitera o coordenador executivo do LAD.

Em cerimônia de lançamento do Ponto de Cultura, Canini deu mais uma demonstração de humildade, ao fazer uso da palavra: "A ideia da exposição não foi minha. Não teria coragem de me expor. Então, agradeço a cada um dos responsáveis pelo Ponto de Cultura e, principalmente, a minha esposa coruja, Maria de Lourdes, que sempre me deu forças para seguir essa caminhada”.

Para ouvir e homenagear
A FM Cultura, da Fundação Cultural Piratini, presta homenagem a Canini, ao reapresentar o programa As músicas que fizeram sua cabeça. No ano passado, o ilustrador foi homenageado na Feira do Livro de Porto Alegre por seus 55 anos de carreira, ocasião em que conversou com a apresentadora Ivette Brandalise. Na entrevista, Canini falou de sua trajetória, iniciada na cidade de Paraí, do período em que morou no Rio de Janeiro e dos vários personagens de sua galeria.

Entre as músicas que pontuam o programa estão Amazing Grace, com B.J. Thomas, e Canto alegretense, com Os Serranos. O bate-papo vai ao ar neste sábado, às 12h, e tem horário alternativo na quarta-feira, 6 de novembro, às 22h. Basta acessar o site da rádio pública.

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