Obra

Demolição da casa Kraft gera polêmica

Mobilização dos pelotenses desaprova a destruição do imóvel na rua Antônio dos Anjos, que deve dar lugar a uma farmácia

09 de Setembro de 2020 - 22h45 Corrigir A + A -
Trabalho de demolição começou na casa (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Trabalho de demolição começou na casa (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Na imagem, como era a fachada da morada (Foto: Reprodução)

Na imagem, como era a fachada da morada (Foto: Reprodução)

A antiga proprietária, Moema Russomano (Foto: Reprodução)

A antiga proprietária, Moema Russomano (Foto: Reprodução)

Iniciou nesta quarta-feira (9) a demolição da fachada da antiga casa Kraft, situada na rua Antônio dos Anjos, esquina com a rua General Osório, em Pelotas, para dar lugar a uma farmácia. A ação gerou forte mobilização nas redes sociais, com centenas de manifestações contrárias à derrubada. O principal argumento é de que seria possível reciclar a estrutura da casa para instalar o novo empreendimento, sem destruir o prédio já existente. Entretanto, o imóvel é particular e não é inventariado, logo, a prefeitura não pode “protegê-lo” legalmente.

As mobilizações se iniciaram esta semana, fomentadas pelo arquiteto Andrey Schlee, que já atuou na coordenação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e por outros profissionais da área ligados à Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que buscavam impedir a demolição. A principal alegação é de que, além de estar na memória de muitos pelotenses, seria possível reciclar o espaço e dar esta nova finalidade. “Indiscutivelmente, é uma construção de boa qualidade construtiva e possui excelentes acabamentos. É um imóvel de grande gentileza urbana, que contribui para a qualidade da via e que está em boas condições. Não podemos nos calar diante da destruição de uma casa que colabora com a qualidade de vida em Pelotas para que se construam projetos que não tenham a preocupação de respeitar as características do ambiente local”, explicou o arquiteto.

Ela faz parte da memória afetiva de muitos pelotenses, que criaram uma petição para confirmar as manifestações contrárias. Até quarta, cerca de quatro mil pessoas já tinham assinado o documento, contrários à demolição. “É uma casa que faz parte da nossa memória. Mesmo que não esteja inventariada. A casa tem valor imaterial, faz parte da ambiência, da memória das pessoas. Tem muitas edificações que têm valor, mas que ainda não foram inventariadas, porque ele é feito pelas zonas da cidade. Nós queremos mostrar que não precisa demolir o patrimônio, não precisa descaracterizá-lo para que tenha uma nova finalidade e fazer coisas novas. Tem muitos exemplos no Brasil e no mundo de construções que eram antigas e foram revitalizadas para novos usos”, afirmou a arquiteta Letícia Aguilera, uma das profissionais que redigiu a petição.

As manifestações nas redes sociais provocaram manifesto até mesmo da prefeita Paula Mascarenhas (PSDB). Através de seu perfil privado, ela também lamentou a destruição do imóvel, ao destacar que ele faz parte de sua história com Pelotas e ficava no caminho que ela usava para ir até o colégio Assis Brasil, onde estudou. Entretanto, Paula explicou que a prefeitura só pode interferir em imóveis inventariados e que a casa não está elencada no inventário atual, tampouco na relação de imóveis que farão parte da atualização do documento.

A professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPel (Faurb-UFPel), Célia Gonsales, que já atuou na produção destes inventários, afirmou que, há alguns anos, foi feito levantamento com o patrimônio de arquitetura eclética na cidade. Os técnicos optaram por inventariar estes imóveis para, posteriormente, contemplar outros modelos arquitetônicos, como o estilo moderno e de outras zonas da cidade.

“Legalmente, a casa não está na lista de inventário, não está protegida. Isto se deve, pelo conhecimento que temos, porque o inventário desta zona ainda não foi atualizado. Ele tem que ser ampliado para abranger também esta zona”, afirmou.

Concult lança nota

Ainda nesta quarta-feira, o Conselho Municipal de Cultura (Concult) lançou uma nota na qual demonstrou preocupação e contrariedade com as ações. Segundo a manifestação, os atos descaracterizam o patrimônio edificado em Pelotas. Apontou também que os bens construídos constituem elementos de referência na paisagem e na memória coletiva da cidade. Pontuou também que “novos usos para as edificações não devem significar a descaracterização, quanto mais a demolição desses elementos que compõem a paisagem, os laços afetivos e conformam as identidades dos pelotenses.”

Para prevenção

No final da tarde, a prefeitura de Pelotas emitiu nota reiterando que o imóvel em questão não possui proteção legal por não ser tombado, nem fazer parte do Inventário Municipal do Patrimônio Histórico, feito pela Secretaria de Cultura e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPel, em parceria com o Iphan.

O documento informa que técnicos da Secretaria Municipal de Cultura chegaram a sugerir ao proprietário que não houvesse uma demolição, mas uma adaptação da farmácia à edificação. “Infelizmente os valores apontados pela comunidade como a paisagem e o tipo de edificação familiar dessa época ainda não são elementos de proteção na legislação vigente. A partir deste evento, colocaremos em discussão elementos de proteção que ainda não constam na legislação que protege o patrimônio.”

História

A casa foi construída na década de 1950, tendo sido concluída em 1953. Ela pertenceu à família Kraft até 1985, nome pela qual se tornou conhecida. É um dos marcos do crescimento de Pelotas a partir desta década, quando novos loteamentos passaram a ser oferecidos no munícipio. Ao longo da história, recebeu o ex-presidente da República, João Goulart, em visita a Pelotas, e também abrigou o artista pelotense Leopoldo Gotuzzo. Recentemente, ela foi vendida para investidores, que iniciaram o processo de demolição para construir uma farmácia no local.

Concult lança notaAinda ontem, o Conselho Municipal de Cultura (Concult) lançou uma nota na qual demonstrou preocupação e contrariedade com as ações. Segundo a manifestação, os atos descaracterizam o patrimônio edificado em Pelotas. Apontou também que os bens construídos constituem elementos de referência na paisagem e na memória coletiva da cidade. Pontuou também  que “novos usos para as edificações não devem significar a descaracterização, quanto mais a demolição desses elementos que compõem a paisagem, os laços afetivos e conformam as identidades dos pelotenses.” 
Para prevenção No final da tarde, a prefeitura de Pelotas emitiu nota reiterando que o imóvel em questão não possui proteção legal por não ser tombado, nem fazer parte do Inventário Municipal do Patrimônio Histórico, feito pela Secretaria de Cultura e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPel, em parceria com o Iphan.O documento informa que técnicos da Secretaria Municipal de Cultura chegaram a sugerir ao proprietário que não houvesse uma demolição, mas uma adaptação da farmácia à edificação. “Infelizmente os valores apontados pela comunidade como a paisagem e o tipo de edificação familiar dessa época ainda não são elementos de proteção na legislação vigente. A partir deste evento, colocaremos em discussão elementos de proteção que ainda não constam na legislação que protege o patrimônio.”

HistóriaA casa foi construída na década de 1950, tendo sido concluída em 1953. Ela pertenceu à família Kraft até 1985, nome pela qual se tornou conhecida. É um dos marcos do crescimento de Pelotas a partir desta década, quando novos loteamentos passaram a ser oferecidos no munícipio. Ao longo da história, recebeu o ex-presidente da República, João Goulart, em visita a Pelotas, e também abrigou o artista pelotense Leopoldo Gotuzzo. Recentemente, ela foi vendida para investidores, que iniciaram o processo de demolição para construir uma farmácia no local.


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