Na UFPel

Debate sobre o Future-se lota o auditório do Direito

Em três horas de discussões sobre o programa apresentado pelo governo federal, não foi registrada nenhuma manifestação favorável

10 de Setembro de 2019 - 18h54 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Outros dois encontros ainda serão realizados, para preparar a comunidade acadêmica ao plebiscito, que ainda não tem data definida (Foto: Jô Folha - DP)

Outros dois encontros ainda serão realizados, para preparar a comunidade acadêmica ao plebiscito, que ainda não tem data definida (Foto: Jô Folha - DP)

Reitor da Universidade Federal do Paraná, Ricardo Fonseca, e professora do Centro de Artes da UFPel, Fabiane Tejada, foram os debatedores desta segunda-feira (Foto: Jô Folha - DP)

Reitor da Universidade Federal do Paraná, Ricardo Fonseca, e professora do Centro de Artes da UFPel, Fabiane Tejada, foram os debatedores desta segunda-feira (Foto: Jô Folha - DP)

As discussões sobre o Future-se voltam à pauta da Universidade Federal de Pelotas no próximo dia 23, às 15h. Articulações políticas com deputados e contatos diretamente com a comunidade de dentro e de fora da UFPel despontam entre as estratégias para fazer crescer o "Não" ao programa apresentado pelo governo federal em 16 de julho. Em debate de três horas que lotou o auditório da Faculdade de Direito, na noite de segunda-feira (9), nenhuma intervenção dos convidados para integrar a mesa ou da plateia foi favorável à proposta.

Entre os principais argumentos para refutar o Future-se destaque à inconstitucionalidade da medida. Foi uma das posições defendidas pelo reitor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ricardo Marcelo Fonseca. Em fala inicial de 50 minutos, o historiador fez análise da conjuntura nacional e lamentou o contexto de ataque às universidades, à inteligência brasileira, aos direitos e à Constituição. "O artigo 207 prevê dois preceitos fundamentais: a autonomia universitária e a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Tanto uma quanto a outra são vulneradas pelo projeto do Future-se", sustentou.

E, logo, explicou por que: "Quando se tira a gestão administrativa dos polos de decisão da universidade e coloca para as Organizações Sociais ou coloca para o Comitê Gestor dos Fundos de Investimento, que vão decidir o que você pesquisa ou o que você não pesquisa, a autonomia universitária é ferida de morte", afirmou. "Quando você só fala em pesquisa aplicada e ignora a extensão, acabou o tripé de ensino, pesquisa e extensão. O programa é inconstitucional, portanto".

Em discurso contundente, Ricardo Fonseca mencionou mais de uma vez o documento de 45 páginas elaborado pela UFPR para dizer Não à proposta do Ministério da Educação (MEC) e reforçou a importância de o debate ser qualificado. O reitor fez questão de mencionar situações que envolvem malversação do dinheiro público, com casos de corrupção e de nepotismo em Organizações Sociais, principalmente, na área da Saúde no Rio de Janeiro.

Ricardo Fonseca transitou por temas como liberdade de expressão, liberdade de cátedra, cotas e pluralismo nas universidades e argumentou que o Future-se não é proposto agora, ao acaso. Diante da escassez de verbas e depois de uma série de operações da polícia e de órgãos de controle desencadeadas ainda no ano passado, com o intuito de desqualificar o processo de gestão das instituições federais de ensino, o governo criaria um cenário para forçar a adesão - argumenta o reitor.

E faz um chamamento, não só a professores, técnico-administrativos e estudantes: "Este é um momento de resistência. E atenção: a minha conversa aqui não é político-partidária. Quando eu falo que nós precisamos resgatar uma cultura de direitos no nosso país e de respeito à Constituição, eu espero que os setores do Centro, da direita democrática e da esquerda democrática se unam em torno de uma mesma pauta. Este definitivamente é um momento de somar".

Programa deixa muitos pontos sem resposta
A professora do Centro de Artes da UFPel, Fabiane Tejada, fez coro à tese de inconstitucionalidade da proposta apresentada pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL) e lembrou que o Future-se estaria no bojo de um projeto de desmonte do Estado. Ao referir-se ao programa como Fature-se ou Vire-se, a doutora em Educação faz críticas ao modelo de ensino mercantilizado, visto como serviço e não como bem social. "A finalidade educativa recebe uma concepção de gerência empresarial, que cobra resultados", alerta.

A falta de diálogo junto à comunidade científica - para elaborar a proposta - e a ausência de referência à assistência estudantil, à inclusão e aos técnico-administrativos na minuta do projeto de lei que deverá chegar à Câmara dos Deputados também foram destacadas pela ex-pró-reitora de Graduação da UFPel. O fato de as características socioeconômicas em que cada uma das Instituições Federais de Ensino está inserida terem sido desconsideradas pelo governo também foi alvo de crítica, já que um dos compromissos que universidades e institutos devem cumprir, ao lado das comunidades, é buscar a transformação dessas realidades regionais.

"É um momento duro aos militantes da universidade pública, gratuita, laica, de qualidade e socialmente referenciada", enfatizou Fabiane, que também já ocupou a presidência da Associação dos Docentes da UFPel.

Participe!
- Na UFPel (*)
Dia 23, às 15h, no Espaço Aberto do Campus Anglo (ou Campus 2, em caso de chuva)
Debatedores:
- Roberto Leher, ex-reitor da UFRJ (2015-2019) e professor da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação, na linha Políticas e Instituições Educacionais.
- Marcelo Passos, professor adjunto do Departamento de Economia e do Mestrado em Organizações e Mercados/Economia Aplicada do Instituto de Ciências Humanas da UFPel.

Dia 16 de outubro, às 10h, no auditório da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel, no Campus Capão do Leão
Debatedores a confirmar.

(*) A expectativa é de que nos dois encontros a mesa de debatedores possa ter nomes favoráveis ao Future-se. No evento desta segunda-feira, o professor que participaria das discussões, em defesa da adesão ao programa, acabou declinando o convite. Os debates têm o objetivo de preparar a comunidade acadêmica a participar do plebiscito que definirá se a UFPel irá ou não aderir ao Future-se.

- Na UCPel
Nesta sexta-feira, 13, às 18h, na sala 410C
O Diretório Central de Estudantes (DCE) realizará a mesa-redonda O projeto Future-se e a educação brasileira: Um caminho sem volta?. Entre os convidados, o diretor de Universidades Públicas da União Nacional de Estudantes (UNE), Felipe Amaro. "Entender de que forma isso impacta na UCPel enquanto universidade comunitária e, acima de tudo, na educação do nosso país é extremamente importante e necessário", explica a integrante da coordenação geral do DCE, Thayná de Oliveira. As inscrições podem ser feitas no local.

 


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