Senado

De cada cinco mortes, quatro poderiam ter sido evitadas, diz Pedro Hallal

Epidemiologista e ex-reitor da UFPel participou de depoimento à CPI, no Senado, e sustentou: "a condução da pandemia no Brasil é um fracasso"

24 de Junho de 2021 - 20h33 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Ex-reitor participou de sessão que se estendeu por sete horas  (Foto: Jefferson Rudy - Agência Senado)

Ex-reitor participou de sessão que se estendeu por sete horas (Foto: Jefferson Rudy - Agência Senado)

Além de Pedro Hallal, também falou à CPI  da Pandemia a médica Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional-Brasil (Foto: Jefferon Rudy - Agência Senado)

Além de Pedro Hallal, também falou à CPI da Pandemia a médica Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional-Brasil (Foto: Jefferon Rudy - Agência Senado)

Mais de 400 mil vidas poderiam ter sido preservadas no Brasil. O dado, impactante, foi um dos tantos revelados pelo epidemiologista Pedro Hallal nesta quinta-feira (24), em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, no Senado Federal. Durante sete horas e embasado em resultados e documentos organizados em mais de 500 páginas, o pesquisador também falou em medidas que devem ser urgentemente adotadas. E foi taxativo: "A condução da pandemia no Brasil é um fracasso, na opinião científica".

E detalhe: as 400 mil mortes que poderiam ter sido evitadas no país tomam como base o tamanho da população e não o paralelo com as nações que fizeram o melhor enfretamento da Covid-19 ao redor do globo. O Brasil possui 2,7% dos habitantes, mas concentra 13% dos óbitos registrados no mundo. Portanto, o cálculo é de que de cada cinco pessoas que perderam a batalha para a doença, quatro poderiam ter resistido.

Na quarta-feira, o patamar foi ainda mais trágico: "33% de todas as pessoas que morreram ontem em todo o planeta Terra estavam no Brasil". Os mais de cem mil casos registrados em apenas 24 horas também fizeram disparar o alerta.

Confira os principais trechos do depoimento:

- As medidas urgentes agora: Duas ações simultâneas devem ser prioridade. Vacinação de 1,5 milhão de pessoas por dia e interromper integralmente as atividades, por três semanas, em todo o país. "Precisamos fazer um lockdown de verdade, que nunca fizemos". E destacou: "Precisamos de uma parada rigorosa. Precisamos colocar os números no chão". E ao defender a necessidade de barrar a disseminação do novo coronavírus, enfatizou: "Não existe recuperação econômica sem controle da pandemia".

- O bê-a-bá não cumprido pelo Brasil: A Covid-19 era desconhecida, mas três medidas historicamente utilizadas para controle de doenças infecciosas poderiam ter sido adotadas: testagem, rastreamento e isolamento. "E os nossos indicadores são vexatórios. Não cumprimos o bê-a-bá".

- Presidente da República é o principal responsável: Ainda que tenha mencionado a passagem de quatro ministros no comando da Saúde, Pedro Hallal afirmou várias vezes ao longo dos questionamentos: "Com a maior franqueza, posso dizer que o principal propagador da crise sanitária foi o presidente da República". E fez referência a condutas de Jair Bolsonaro (sem partido) na formação de aglomerações, no desrespeito ao uso de máscaras e no desestímulo à vacinação. "São ações indefensáveis".

- A estimativa de infectados hoje e os riscos da imunidade de rebanho: Os dados oficiais do Ministério da Saúde apontam para mais de 18,1 milhões de pessoas já infectadas pelo coronavírus. A estimativa, entretanto, é de que o número seja de três a quatro vezes maior - informou Pedro Hallal. E se o número de mortes já ultrapassa as 507 mil pessoas, ainda que mais de 50 milhões de brasileiros já tenham se contaminado até agora, quantos outros milhares de cidadãos ainda precisariam ter seus sonhos interrompidos até que se atingisse os 70% de infectados, como o propagado pela imunidade de rebanho? "Com certeza, chegaríamos a mais um dígito no trágico número de mortos".

- Terceira onda pode ser pior? Embora tenha salientado que o Brasil nunca criou uma estabilização do cenário, que pudesse indicar a formação de novas ondas, o epidemiologista lembrou a existência de dois fatores que poderiam tornar a situação ainda mais grave: "Hoje partiríamos de um patamar inicial de mais de duas mil mortes por dia e a circulação de novas variantes". Um outro ponto poderia atenuar o quadro: a vacinação - ponderou. Embora tenha destacado que apenas entre 12% e 13% da população já está imunizada. E para barrar, efetivamente, a circulação do vírus, o ideal é alcançar 70%.

- O boicote à Epicovid19-BR: Pedro Hallal explicou que o estudo nacional que monitorava a evolução da pandemia no Brasil foi suspenso de forma deliberada e tomou conhecimento da decisão do Ministério da Saúde pela imprensa. "Pelo menos 30 universidades poderiam ter dado continuidade ao acompanhamento. Não precisaria ser a UFPel. O que o Ministério não tinha era o direito de privar a população deste monitoramento".

- Novo estudo por R$ 200 milhões: O ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas sugeriu que o assunto seja investigado, já que a pesquisa Prev Cov custará R$ 200 milhões. Já o estudo liderado pela UFPel, realizado em três etapas no ano passado, com testagens em 133 cidades brasileiras, custou R$ 12 milhões.

- Censura e ataques: Pedro Hallal relembrou o fato ocorrido em 2020, quando por determinação do Ministério da Saúde, o slide em que ficava demonstrado que os indígenas possuíam cinco vezes mais chance de contrair o coronavírus foi retirado da exposição que seria feita em Brasília, com os resultados da Epicovid. "Foi o episódio mais bizarro da minha carreira", resumiu. Cerca de dez minutos antes da apresentação, foi informado pelo secretário-executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco, que o material não seria divulgado. No dia seguinte, entretanto, os dados eram de conhecimento nacional, através da imprensa.

Ao ser indagado sobre os ataques sofridos nos últimos meses, foi enfático: "Sou filho da universidade pública, onde fui aluno, sou professor e fui reitor. Não tenho o direito de ficar calado, mas desconstruam cientificamente os argumentos". Pedro Hallal também informou que os casos foram oficialmente registrados e já estão sob investigação das Polícias Federal e Civil.

- Cloroquina e a falsa sensação de segurança: O doutor em Epidemiologia reafirmou inúmeras vezes que não existe nenhuma evidência científica para o uso da cloroquina - tão alardeado pelo presidente Jair Bolsonaro - no combate à Covid-19. E lembrou, ao falar nos perigos do tratamento precoce: "O maior risco é a falsa sensação de segurança. Esse é o equívoco. Não é a prescrição individual de um ou outro remédio. O problema é utilizar medicamentos como a cloroquina como estratégia de saúde pública, como se pudesse salvar alguém".

E ao responder provocação do senador Luís Carlos Heinze (PP-RS) de que haveria documento assinado, a favor do tratamento, por 14 mil médicos, Pedro Hallal rebateu, ao afirmar que o número corresponderia a 3% da comunidade médica de todo o Brasil e, como torcedor rubro-negro, descontraiu: "Esse número é menor do que a força da torcida Xavante, que o senhor conhece".

- Não há nada a comemorar: O pesquisador também foi duro ao defender que não há motivos para celebrar as mais de 16,4 milhões de pessoas que sobreviveram à doença. "É como comemorar o gol, no jogo de 7 a 1 contra a Alemanha", cutucou, ao referir-se à tragédia nacional causada pela Covid-19.

- Não há como retirar máscaras: Quatro razões tornam absolutamente impossível para o Brasil defender a ideia de abandono do Equipamento de Proteção Individual (EPI) obrigatório. "Não preenchemos nenhum dos quatro critérios que seriam necessários para tirar as máscaras, que seriam o número baixo de casos, espaço suficiente na rede hospitalar, os óbitos controlados e a vacinação avançada".

- Como explicar as mortes evitáveis: Não há como afirmar em que medida cada um dos pontos influenciou o número de óbitos no Brasil - explicou Pedro Hallal. Das 400 mil mortes que poderiam ter sido evitadas, a estimativa da UFPel é de que, pelo menos, 95 mil óbitos foram provocados pelo atraso na vacinação; em especial quando o governo federal demorou para fechar os contratos iniciais com a CoronaVac e a Pfizer - como já demonstrado pela própria CPI da Pandemia.

Ao não desencadear as medidas cientificamente indicadas como essenciais para vencer a Covid-19, o Ministério da Saúde assumiu o risco de ter uma pandemia descontrolada como se tem hoje, inclusive quando ainda dissemina o tratamento precoce. E ao se manifestar de maneira mais incisiva sobre quem faz distorções de estudos científicos, cutucou: "Isso é fazer charlatanismo ou ciência por WhatsApp".


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