Projeto

Dar vez a quem é essencial, mas ignorado

Projeto de Extensão da UCPel visa melhorar o atendimento médico e as condições de trabalho de profissionais da reciclagem

25 de Setembro de 2021 - 15h12 Corrigir A + A -

Por: Vitória Leitzke
vitoria@diariopopular.com.br

Iniciado em março deste ano, o projeto iniciou por conta de uma experiência pessoal de uma aluna do curso de Medicina, explica o coordenador do ReciclAÇÃO, Isaac Rodrigues de Lima (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Iniciado em março deste ano, o projeto iniciou por conta de uma experiência pessoal de uma aluna do curso de Medicina, explica o coordenador do ReciclAÇÃO, Isaac Rodrigues de Lima (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Eles oportunizam à sociedade uma vida mais limpa e a preservação do meio ambiente, porém muitas vezes são esquecidos pela população e por governantes. Entretanto, através do projeto ReciclAÇÃO, de extensão e ligado ao programa Saúde Coletiva, da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), homens e mulheres profissionais da reciclagem estão tendo uma maior visibilidade e a oportunidade de receber melhorias no atendimento médico e nas condições de trabalho.

Iniciado em março deste ano, o projeto iniciou por conta de uma experiência pessoal de uma aluna do curso de Medicina, explica o coordenador do ReciclAÇÃO, Isaac Rodrigues de Lima. "Sua mãe trabalha com catadores na cidade natal, então, em conversas com suas colegas, surgiu a ideia de fazerem um trabalho em Pelotas. Por fim me procuraram para ajudá-las nessa empreitada", comenta.

O primeiro passo foi identificar os trabalhadores na área, com as recicladoras registradas no Sanep e com recicladores avulsos que moram em áreas de coberturas das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da UCPel. "Após esse levantamento, tentaremos ajudá-los em suas demandas, sejam elas em relação à saúde ou a uma outra situação", informa Lima.

De acordo com a aluna e extensionista Dienierrer Baldez, das demandas mais apresentadas estão o risco de acidentes com materiais encontrados junto ao lixo, o preconceito, o fato de a sociedade não ver o trabalho de quem atua em cooperativas como um serviço essencial e o preço baixo para a venda de recicláveis. "Alguns já não consultam há algum tempo na UBS, e esse retorno deles (reconstrução do vínculo da comunidade com a UBS) é muito importante quando pensamos no acesso à saúde, porque a UBS é, e deve ser, o local de saúde mais próximo a cada indivíduo", defende Dienierrer.

"Quando apresentamos o projeto, os funcionários ficaram bem esperançosos quanto à participação, depositando em nós uma forma de acesso à saúde que acabam não tendo por parte das UBSs (que não são da Católica), o acesso facilitado", afirma a aluna, que acrescenta outras ações do grupo: educação quanto ao uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), prevenção de acidentes - ou o que fazer quando houver um -, e atividades com apoio de um personal trainer, que se dispôs a ensinar como carregar o peso e equilibrar as carrocinhas para não haver dano osteomuscular.

Ao todo, foram mapeados 78 trabalhadores de seis recicladoras registradas no Sanep, sendo 65 mulheres, e mais de 30 famílias localizadas pelas UBSs. O mapeamento é permanente, visto o ingresso de novos recicladores nas cooperativas. Entre as principais comorbidades, hipertensão, diabetes e tabagismo foram as mais registradas. "Os que já foram atendidos nas UBSs acharam bom ter uma atenção pra eles, porque normalmente se sentem ignorados", relata Dienierrer, que destaca que das 30 famílias localizadas, 21 já foram triadas.

O coordenador ainda diz que os planos podem ser ampliados. O projeto vem pleiteando, junto à coordenação do curso de Medicina, um espaço para realização de um ambulatório para cuidar desses trabalhadores e seus familiares. Como forte candidato a sede, está o Campus da Saúde da UCPel, no antigo Hospital Olivé Leite. "A ideia foi bem acolhida e acredito que a resposta será positiva", conta.

Se antes era uma hipótese a esperança ser o novo sentimento dos trabalhadores da reciclagem de Pelotas, o coordenador da Cooreciclo, Carlos Pereira, confirma que, de fato, já é. "Eu acho fundamental porque há necessidade. Não temos tempo para cuidar da saúde, muitos dizem que o habitual de qualquer um é procurar quando sentiu, não se trabalha com a questão da prevenção", opina Pereira.

"Hoje [no dia da entrevista] o dia está meio tumultuado, eu estou com cinco lá dentro do Pronto Socorro de Pelotas (PSP). Tiveram um irmão que se acidentou e foram para lá e uma outra que teve uma crise aqui, não sei se infartou, e a gente faz assim... antes de vocês chegarem, a ambulância levou ela, mas são coisas que acontecem", compartilha o coordenador.

"Chegar e sempre ouvir um 'não'"

Na Cooreciclo, dos 19 cooperadores, 17 são mulheres. Uma delas é a Thaís Simões, na cooperativa há oito meses. Ela diz que às vezes não tem facilidade para encontrar atendimento, principalmente ginecológico. "Eu faço porque preciso. Como há histórico de câncer na minha família, eu já sou obrigada a procurar sempre", explica.

"As meninas aqui vão, procuram. Muitas não têm esse recurso, porque é difícil toda vez a gente procurar e não ter médico, está de férias, te encaminham para outro lugar e não tem atendimento. É difícil chegar e sempre ouvir um 'não'. Eu acho que com o projeto isso pode melhorar bastante", celebra.

Mas ainda há muito a melhorar. Principalmente dentro de cada lar e hospital da cidade. O desabafo de Thaís encerra com um apelo: a consciência de cada um sobre o descarte correto do lixo.

"As pessoas não têm consciência do que é um material reciclável. A gente vê cada coisa aqui. Eu descarto tanta coisa para minhas colegas não verem, seringa é o que mais vem, elas se apavoram em como ainda não me furei, porque sempre vem com a pontinha aberta. Vem bastante material que é de apavorar. Fezes humanas e de animal, animais mortos, as pessoas não respeitam", lamenta.

O ReciclAÇÃO

O projeto é composto por 39 alunos dos cursos de Enfermagem, Serviço Social, Direito e Medicina. Após o processo de identificação dos recicladores e de suas demandas, os acadêmicos irão exercer a prática relacionada com seu curso


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