Solidariedade

Da falta de renda à casa própria

Com a ajuda de arrecadações, Tio Golias agora possui um lar próprio e digno

21 de Abril de 2021 - 22h40 Corrigir A + A -
Vendedor de doces no Campus Capão do Leão, perdeu totalmente sua renda com a paralisação das atividades presenciais e agora ganhou moradia digna (foto: Jô Folha) (Foto: Jô Folha - DP)

Vendedor de doces no Campus Capão do Leão, perdeu totalmente sua renda com a paralisação das atividades presenciais e agora ganhou moradia digna (foto: Jô Folha) (Foto: Jô Folha - DP)

Um misto de emoção e alegria. Desta maneira que Vilmar Aldrighi, 68, descreve o sentimento de ter sido contemplado com uma nova moradia, resultado de uma arrecadação que mobilizou a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), comunidade pelotense e chegou até a Europa. Vendedor de doces no Campus Capão do Leão, Tio Golias, como é carinhosamente chamado, perdeu totalmente sua renda com a paralisação das atividades presenciais. Com o intuito de ajudar financeiramente com itens básicos, como alimentação e higiene, a rede de apoio que inicialmente contava com estudantes se expandiu rapidamente, arrecadou R$ 60 mil e deu ao vendedor um novo lar.

Esbanjando gratidão e com um grande sorriso, seu Vilmar esperava a reportagem do Diário Popular juntamente com suas novas companheiras, Pretinha, Bibi e outra amiga canina que ainda não havia recebido nome. Orgulhoso, mostrou a nova moradia, um chalé no Jardim América. A entrega ao novo proprietário foi feita em janeiro e desde março Aldrighi passou a morar no local.

Ao comentar sobre o sentimento de ter gerado uma corrente de apoio, o vendedor de doces não esconde a emoção de, agora, possuir lar próprio e digno. "A gente colhe o que plantamos. Não adianta plantar arroz e pedir feijão. Então se quisermos receber amor e ajuda, temos que tratar as pessoas do mesmo jeito. Acho um pouco por isso que recebi tudo isso em troca, me sinto muito acolhido", conta.

Dentre as grandes mudanças na comparação com sua antiga casa, a proximidade do Restaurante Universitário (RU), onde possui sua barraquinha de doces, é a que o autônomo se mostra mais animado. "Antes, na outra casa, eu pedalava 13 quilômetros para trabalhar. Hoje é um pulo e vou estar ali. Assim, não vou sentir tanta dor", brinca. A fiel escudeira, sua bicicleta, não foi deixada de lado com a mudança para a casa nova e estava estacionada em sua garagem. Durante a maior parte dos anos, ela foi utilizada como meio de locomoção para o Capão do Leão. Com uma caixa de doces na traseira e um isopor de picolé na frente, ele percorria a distância todos os dias até o local de trabalho.

Sem trabalhar desde o início da pandemia, Tio Golias relata que tem contado com doações para sobreviver. Ajuda que chega através de conhecidos e filhos. Enquanto aguarda a aposentadoria, não esconde a expectativa de voltar ao local em que trabalha há quase 17 anos, vender seus doces e reencontrar os estudantes que lhe ajudaram. "A gente espera que tudo volte logo ao normal, quero muito voltar e agradecer a eles que me ajudaram, é o que eu mais quero."

Sucesso na arrecadação

A rede de solidariedade começou com Luana Jacobsen que, assim como Tio Golias, também possuía uma barraquinha no Campus Capão do Leão. Ao se deparar com um pedido de ajuda de seu Vilmar, a autônoma divulgou através de suas redes sociais a busca por um auxílio da comunidade para a arrecadação de alimentos. Foi quando diversas pessoas abraçaram a causa. Caso do agrônomo Renan Kaufmann, formado pela Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel (FAEM/UFPel) e amigo do Tio Golias desde 2009, quando ingressou na Universidade.

Com o sentimento de dever cumprido, Kaufmann não esconde a emoção ao contar como foi se deparar com as condições precárias onde Aldrighi morava. "Vendo a mobilização, juntei com uns amigos um dinheiro, comprei alimentos e fui levar para o seu Vilmar, mas não sabia nem onde ele morava. Quando cheguei lá, a situação da casa dele me deu um choque, sai de lá chorando e compartilhei com alguns colegas e falei para a Luana 'nós vamos construir uma casa para o seu Vilmar, uma casa ou um chalé, alguma coisa, mas dessa forma que está, não há condições de continuar, não tem como'. Então a gente acabou montando toda essa campanha que repercutiu e foi um sucesso", relata.

A gratidão não é expressada apenas por quem recebe, mas daquele que fez parte deste ato de solidariedade e de amor ao próximo. "Tenho para mim é só alegria de ter participado disso tudo. Que um dia meu filho possa saber que eu participei de um ato capaz de ajudar uma pessoa dessa maneira. É uma coisa que só meu trouxe alegria e creio que Deus só tende a recompensar quem faz coisas boas." Entre os relatos do agrônomo, ele conta que durante a campanha, após a publicação da matéria no Diário Popular, uma idosa entrou em contato para engrandecer o ato. "Uma senhora de 80 anos disse que só queria me dar os parabéns por eu ser um anjo, aquilo não sai da minha cabeça até hoje", relembra.

Ao todo, foram arrecadados através da vaquinha on-line R$ 60 mil com a ajuda de mais de 1,5 mil apoiadores. Para a aquisição do terreno foram destinados R$ 25 mil e outros R$ 23 mil destinados à construção do chalé. Com o restante do dinheiro, outras despesas foram pagas, além de atrasos de contas de água e luz que haviam sido deixadas na antiga residência.

 


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