Agronegócio

Com maior área já cultivada na região, soja poderá injetar R$ 3,5 bilhões na economia

Estimativa é de que mais de 1,3 milhão de toneladas sejam colhidas na Zona Sul; receio dos produtores é com prognóstico de escassez de chuvas

27 de Novembro de 2021 - 09h39 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Rentabilidade alta, em função dos preços indexados pelo dólar valorizado, está entre os principais atrativos (Foto: Jô Folha)

Rentabilidade alta, em função dos preços indexados pelo dólar valorizado, está entre os principais atrativos (Foto: Jô Folha)

Direto do assentamento. Família de Eliseu Tavares, em Pedras Altas, apostará na soja pelo sétimo ano seguido (Foto: Divulgação)

Direto do assentamento. Família de Eliseu Tavares, em Pedras Altas, apostará na soja pelo sétimo ano seguido (Foto: Divulgação)

Chuvas regulares, principalmente nos meses de janeiro e fevereiro,  são fundamentais para o desenvolvimento da lavoura (Foto: Jô Folha)

Chuvas regulares, principalmente nos meses de janeiro e fevereiro, são fundamentais para o desenvolvimento da lavoura (Foto: Jô Folha)

No interior de Pelotas. Eder Buss decidiu retomar a produção de grãos, mas não abandonará o leite (Foto: Jô Folha)

No interior de Pelotas. Eder Buss decidiu retomar a produção de grãos, mas não abandonará o leite (Foto: Jô Folha)

Além das terras na Colônia Py Crespo, Buss já semeou a soja em área arrendada em São Lourenço do Sul (Foto: Jô Folha)

Além das terras na Colônia Py Crespo, Buss já semeou a soja em área arrendada em São Lourenço do Sul (Foto: Jô Folha)

Área plantada na região será 9% maior do que na última safra (Foto: Jô Folha)

Área plantada na região será 9% maior do que na última safra (Foto: Jô Folha)

Mais uma vez, a perspectiva é de alta. A safra de soja deve atingir a maior área já cultivada na região: 470.418 hectares. Será um aumento de 9%, se comparado ao período 2020/2021. Com a expectativa de colher mais de 1,3 milhão de toneladas, quase R$ 3,5 bilhões poderão ser injetados na Zona Sul. Ou ainda mais. Os cálculos da Emater levam em conta a comercialização do saco de 60 quilos a R$ 150,00, mas há a possibilidade de chegar a R$ 170,00.

A torcida, daqui para frente, é com relação ao clima. Prognósticos meteorológicos apontam que os próximos meses estarão sob os efeitos do La Niña, fenômeno que reduz a ocorrência de chuvas no Sul do Brasil. Para o desenvolvimento da soja, entretanto, principalmente em janeiro e fevereiro, precipitações regulares e em boas quantidades são fundamentais para resultados positivos - ou até históricos na região.

"Em algumas localidades, de solos mais rasos e arenosos, os produtores já começam a sentir a falta de chuvas mais constantes", afirma o engenheiro agrônomo da Emater, Evair Ehlert. Até o momento, 52% das áreas já estão semeadas.

Rentabilidade e mecanização são atrativos

A oportunidade de fechar negócios e comercializar a produção indexada pelo dólar - que tem mantido a cotação acima dos R$ 5,60 - é uma das principais explicações para o interesse em alta, ainda que os custos de produção também estejam elevados. Nesse sentido, têm ocorrido dois movimentos nos últimos anos.

Terras que não vinham sendo utilizadas passaram a ser aproveitadas para a soja. "São áreas todas já consolidadas, que foram manuseadas pelo homem: campos sujos, áreas de capoeira e de pousio", ressalta o engenheiro agrônomo. "É a possibilidade que o pessoal tem para expandir".

Em outros casos, os produtores estão abandonando a fruticultura, a atividade leiteira e o tabaco. E o preço não é o único atrativo para a migração. O cultivo de soja é 100% mecanizado. E com a população rural envelhecida e o trabalho braçal pesado, a transferência para a produção dos grãos torna-se convidativa, apesar da necessidade de investimentos.

E mais: com a mecanização, as novas gerações ganham interesse em permanecer no campo. "É a atividade onde mais encontramos jovens rurais, pois envolve mecanização, eletrônica e inteligência artificial também", conta Ehlert, acostumado a percorrer os 22 municípios da região.

Lavouras espalham-se também pela agricultura familiar

Engana-se quem pensa que o plantio da soja limita-se à agricultura empresarial. Na Zona Sul, em municípios como Pedras Altas - que é, justamente, o de menor população de toda a região - produtores vinculados à agricultura familiar também dedicam-se ao cultivo. No assentamento Regina, no 3º distrito, por exemplo, mais de 85% das famílias têm apostado as fichas na soja.

É o que Eliseu Tavares, 37, o Zezé, irá fazer pelo sétimo ano seguido. E não se arrepende. Juntou-se a outros oito assentados para unir forças - e terras - e, além dos lotes de cada um, ele também tem arrendado áreas no entorno. Na safra 2021/2022, entre 300 e 340 hectares devem ser semeados. "Sonho com uma média de 40 sacos por hectare. Dá pra pagar todos os custos, a prestação [de maquinários], sobra uma reservinha e tô grandão", descontrai.

Quando chegou ao assentamento Regina, há 17 anos, "só tinha o campo". Nos primeiros tempos, ele e a mulher Michele Tavares, 32, tiravam a renda dos gados de leite e de corte. Nos últimos anos, a produção dos animais é apenas para consumo familiar e o sustento vem 100% da soja, comercializada a cooperativas da região.

"Nunca me apavorei com trabalho. Meus pais sempre foram empregados em granja e eu aprendi a sempre começar de novo", ressalta. E é com esta determinação que Zezé começou com máquinas de segunda mão, buscou financiamentos e, agora, com equipamentos eletrônicos, modernos, realiza inclusive prestação de serviços. "É mais uma renda e uma forma de eu baratear meu custo", ressalta. E entre visitar o passado, projetar o futuro e repassar os ensinamentos ao filho Estevam Eduardo Tavares, 14, ele reforça: "Temos uma granjinha, que pra mim é tudo. Acho muito lindo o meu lugar".

Agricultura e pecuária, lado a lado

Depois de mais de 20 anos de intervalo, Eder Buss, 42, decidiu voltar a investir na soja. Ao todo, 80 hectares já estão cultivados; 30 na propriedade na Colônia Py Crespo, no 3º distrito de Pelotas, e 50 em terras arrendadas no interior de São Lourenço do Sul. Para desencontrar os períodos de colheita, duas variedades foram cultivadas. Até o momento, as chuvas ainda não fazem falta.

"A gente resolveu dar mais do que um passo. Demos um pulinho", resume o produtor. A família desembolsou verba própria e também pegou financiamento para comprar colheitadeira e outros equipamentos. A produção de leite, já tradicional entre os Buss, irá se manter. Atualmente, são cerca de cem animais em ordenha, com uma média de 1,8 mil a dois mil litros por dia.

Conforme os resultados com a safra de soja, eles irão avaliar se dão mais uma recuada com o leite a aumentam a área destinada aos grãos ou o contrário. "Começamos num euforismo, mas hoje já estamos com o freio de mão mais puxado", ressalta. E o motivo são os elevados custos de produção. "A gente é um apostador. Ora a gente ganha, ora a gente perde". A expectativa é de que entre março e abril de 2022, com o balanço da safra, Eder Buss possa decidir como ficarão os negócios. "O melhor seria poder continuar ampliando as duas áreas", torce o produtor.

Saiba mais

- Cenário favorável, mas custo em alta: Os custos da safra nas alturas reforçam a importância de estratégias para tentar reduzir despesas. Com o salto nos preços dos fertilizantes, de defensivos químicos e do óleo diesel, produtores já avaliam a hipótese de realizar aquisições de insumos em conjunto, com negociações diretas com empresas em Rio Grande. A contratação de frete, também de forma coletiva, busca obter valores melhores.

- Risco de estiagem existe - Informações da MetSul Meteorologia indicam que o trimestre de dezembro a janeiro de 2022 terá 92% de probabilidade de atuação do fenômeno La Niña, caracterizado pelo resfriamento das águas superficiais da faixa equatorial do Oceano Pacífico. Com isso, o verão no Rio Grande do Sul que, naturalmente, já costuma ter chuvas mais falhadas, associadas ao calor intenso, poderá ser marcado por deficiência hídrica.

"Com o La Niña instalado, configurado, essa irregularidade se agrava e o cenário é favorável a estiagens regionalizadas", alerta a meteorologista Estael Sias. Na produção de milho, por exemplo, a escassez de chuvas já começa a ser percebida e pode impactar a safra. "As lavouras de soja também poderão ter prejuízos, se a chuva de janeiro falhar", afirma.

- Para melhorar rendimento: Uma estratégia que pode ajudar a ampliar a produtividade é aumentar a matéria orgânica, principalmente, nos solos arenosos, através do plantio direto, com formação de boa palhada, mantida na hora do cultivo. "Em seguida, saindo a soja, o produtor deve semear imediatamente milheto ou sorgo para formar mais palha", ensina o engenheiro agrônomo da Emater. A matéria orgânica ajuda no armazenamento de água e na retenção de adubos, que deixam de ser levados pelas águas das chuvas. "A matéria orgânica deixa os solos mais leves, soltos, aerados, permitindo o enraizamento lateral e em profundidade. E a planta com mais raiz produz mais e sofre menos com as estiagens".

Foco na rotação de culturas

O professor da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel da Universidade Federal de Pelotas (FAEM-UFPel), Gabrielito Menezes, destaca a importância da rotação de culturas. Ao oscilar arroz e soja, por exemplo, há benefícios das questões ambientais, com redução da necessidade de correção do solo e minimização de pragas agrícolas, devido à quebra do ciclo - argumenta.

"Com a introdução da soja, principalmente na Metade Sul, mais pobre, tivemos melhoria dos três pilares: econômico, ambiental e social", afirma o professor de Economia Rural. "Antigamente esta parte do Estado dedicava-se só ao arroz e à pecuária". O coordenador do Laboratório de Economia Regional ainda lembra que as propriedades devem contar com acompanhamento e orientações de engenheiro agrônomo para melhorar técnicas de manejo e reduzir impactos ambientais.

Confira alguns números:

* As expectativas em todo o Estado:
- Plantio: 6.328.092 hectares
- Produção estimada: 19.940.407 toneladas

* O avanço da área cultivada na Zona Sul:
- Safra 2000/2001: 21.148 hectares
- Safra 2010/2011: 87.050 hectares
- Safra 2020/2021: 428.108 hectares

* Safra 2021/2022: 
- Área: 470.418 hectares
- Estimativa de colheita: 1.386.004 toneladas
- Produtores na região: 2.597           

* O crescimento de área semeada ocorre tanto na agricultura familiar como na agricultura empresarial. A ampliação também se dá tanto em áreas em rotação com arroz irrigado como nas áreas de relevo ondulado e fortemente ondulado, como em áreas coloniais e de pecuária.

* 35% do total da área cultivada está situada em zona de várzea, em rotação com o arroz irrigado

* Destino da produção: 95% da exportação vai direto para China

 

 


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados