Pandemia

Centro de Epidemiologia da UFPel lidera estudo sobre novo coronavírus

Pesquisa irá apontar respostas como o percentual de infectados e a letalidade da doença no Estado

26 de Março de 2020 - 21h27 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Há uma semana, Pelotas ganhou novo ritmo como precaução para evitar a proliferação do vírus

(Foto: Jô Folha)

Há uma semana, Pelotas ganhou novo ritmo como precaução para evitar a proliferação do vírus (Foto: Jô Folha)

O reitor da UFPel é o coordenador geral do projeto e defende agilidade na divulgação dos dados, que irão contribuir na tomada de decisões do governo gaúcho

(Foto: Divulgação)

O reitor da UFPel é o coordenador geral do projeto e defende agilidade na divulgação dos dados, que irão contribuir na tomada de decisões do governo gaúcho (Foto: Divulgação)

Um estudo liderado pelo Centro de Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) deverá servir de base para tomada de decisões no combate ao novo coronavírus no Rio Grande do Sul. A partir da próxima quinta-feira as equipes estarão nas ruas, com o objetivo de responder três perguntas centrais: o percentual de infectados no Estado, a velocidade com que o vírus tem se espalhado e a letalidade da Covid-19.

Para poder ir em busca dos resultados, os pesquisadores irão dividir o território gaúcho nas mesmas oito regiões intermediárias definidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): Porto Alegre e região metropolitana, Pelotas, Santa Maria, Uruguaiana, Ijuí, Passo Fundo, Caxias e Santa Cruz do Sul/Lajeado. Um total de 18 mil pessoas serão entrevistadas e farão o teste rápido para o coronavírus, independentemente, de possuírem ou não os sintomas da doença.

A definição de quem participará do estudo será aleatória e seguirá recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). "Teremos uma amostra representativa, baseada em critérios científicos, que nos permitirá identificar a evolução do vírus, inclusive com informações de sexo, idade e nível socioeconômico dos infectados", enfatiza o reitor da UFPel e coordenador geral do projeto, Pedro Hallal.

O questionário está em fase final de elaboração. A pesquisa será desenvolvida através de parceria entre Governo do Estado, Universidade Federal de Pelotas e Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). A previsão é de que os dados sejam divulgados à medida que ocorram as saídas de campo, divididas em quatro momentos distintos - veja mais detalhes da metodologia no quadro.

"Faremos uma grande força tarefa. Não podemos demorar para apresentar os resultados. Este é um estudo científico, mas tem também caráter assistencial, já que será essencial para indicar a melhor forma de organização do sistema de saúde", reforça o reitor. A expectativa é de que a pesquisa também possa servir de referência para tomada de decisão em outros estados brasileiros, como em países que têm precisado enfrentar a transmissão rápida - e, por vezes, descontrolada - do coronavírus.
O levantamento começo na próxima quinta-feira e se encerra em 14 de maio.

* Entenda melhor
- As saídas de campo: Serão realizadas em quatro datas diferentes, em um intervalo de 45 dias, para poder analisar a evolução quinzenal da prevalência de infectados no Rio Grande do Sul. O primeiro inquérito - com entrevista e teste rápido - está marcado para 2 de abril. As outras três saídas de campo estão agendadas para 16 e 30 de abril e para 14 de maio.

- Escolha aleatória: Em cada domicílio sorteado para compor a amostra será anotada a lista de moradores e, em novo sorteio, será definido um deles para participar do inquérito populacional. A pessoa deverá assinar termo de consentimento e receberá retorno sobre o resultado do exame. Em caso de teste positivo, o sistema municipal de saúde será notificado para adotar, então, todas as medidas de rastreamento e cuidados necessários.

- Total de participantes: Nas quatro coletas de dados serão entrevistadas 4,5 mil pessoas; 500 em cada uma das sete cidades do interior e mil na capital do Estado e região metropolitana. Ao final dos quatro dias de apuração, 18 mil cidadãos terão participado do estudo.

- Em busca de recursos: O orçamento está fechado: os custos podem chegar a R$ 1 milhão; R$ 900 mil investidos no pagamento das equipes que precisarão ir para as ruas e receberão o valor de 50,00 por questionário e teste rápido aplicado. O sistema é de mutirão. Para agilizar os resultados, em cada uma das empreitadas, todas as 4,5 mil residências serão visitadas em um único dia. É preciso colocar na balança, portanto, os gastos com combustível.

Neste momento, a fase é de contato com representantes da iniciativa privada. Caso os recursos não sejam obtidos, as universidades realizarão o estudo com o apoio de voluntários para as saídas de campo - sustenta o reitor da UFPel. Os kits de teste rápido serão liberados pelo Governo do Estado e itens como álcool gel e máscaras serão disponibilizados através da produção própria da UFPel. "Estamos em busca de apoiadores, mas não deixaremos de realizar o estudo por falta de verba", lembra Pedro Hallal, ao enfatizar que nenhum dos seis pesquisadores será remunerado para se envolver no estudo.

- Esforço conjunto: O trabalho é uma iniciativa do Governo do Estado, através da Secretaria de Saúde e da Vigilância Epidemiológica, em parceria com as instituições de ensino. Pelo Centro de Epidemiologia da UFPel, lideram o estudo os cientistas Cesar Victora, Pedro Hallal, Bernardo Horta, Aluisio Barros e Odir Dellagostin. Pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, a participação fica por conta da própria reitora, Lúcia Pellanda.

Ao longo do desenvolvimento do estudo, a expectativa é de que pesquisadores de outras instituições, como a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a Universidade de Passo Fundo (UPF) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) também engrossem as equipes de análise e interpretação.

* Saiba mais 
Desde a detecção do primeiro caso registrado na China, em final de 2019, o novo coronavírus tem se disseminado rapidamente pelo mundo. Em 30 de janeiro, a OMS classificou a doença como emergência de saúde internacional. Em 11 de março, aumentava o alerta: a Organização Mundial de Saúde passou a identificá-la como pandemia, com 118 mil casos em 114 países.

Apenas duas semanas depois, o total de infectados ultrapassa os 330 mil, espalhados em 196 países e territórios. O número de mortes assusta: já passa de 14 mil. Obter informações que possam contribuir em estratégias de prevenção e combate é fundamental. Daí a importância da pesquisa liderada pela UFPel.

"Não sabemos qual o grau de circulação do vírus da Covid-19, porque grande parte dos casos, em torno de 80% a 85%, têm sintomas leves ou mesmo não apresentam sintomas, embora contribuam para transmissão da doença", ressalta o responsável pela metodologia do estudo, o epidemiologista Aluisio Barros. "Vamos mostrar a real dimensão da Covid-19 no Estado e poder avaliar a trajetória de aumento do número de casos de infecção e óbitos".


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