Pandemia

Centro Covid completa um ano de funcionamento

Uma das primeiras unidades de atendimento exclusivo a casos de coronavírus, estruturada no Estado, tratou, em um ano, cerca de 30 mil pessoas

23 de Abril de 2021 - 17h44 Corrigir A + A -
A Prefeitura, além de executar a obra física, adquiriu respiradores para garantir o atendimento de pacientes graves (foto: Jô Folha) (Foto: Jô Folha - DP)

A Prefeitura, além de executar a obra física, adquiriu respiradores para garantir o atendimento de pacientes graves (foto: Jô Folha) (Foto: Jô Folha - DP)

Uma doença desconhecida. A necessidade de fortalecer a rede de saúde pública. Um prédio novo, pronto para ser usado. Motivos suficientes para que, há um ano, a prefeitura de Pelotas liderasse a estruturação de uma das primeiras unidades de saúde dedicadas ao atendimento de pessoas suspeitas ou confirmadas para a infecção pelo coronavírus no Rio Grande do Sul. O dia 24 de abril de 2020 marcou a abertura do Centro de Atendimento a Síndromes Gripais, conhecido como Centro Covid e, também, o início de um serviço 100% SUS, construído pela ação conjunta entre Poder Público, iniciativa privada e comunidade. De lá pra cá, já foram cerca de 30 mil atendimentos, entre crianças e adultos, não só de Pelotas, mas de toda a zona sul do Estado.

O local precisou passar por reestruturação física em pouco menos de dois meses. Atendidos os protocolos sanitários, como a construção de uma área de desinfecção para os trabalhadores e a instalação de um tanque de oxigênio e um compressor de ar comprimido, o próximo passo foi equipar a estrutura.

Pelotas viveu uma verdadeira "corrente do bem" formada por empresas, hospitais e cidadãos que doaram desde enxovais para os leitos até equipamentos hospitalares. A Prefeitura, além de executar a obra física, adquiriu respiradores para garantir o atendimento de pacientes graves.

"O Centro Covid foi uma das maiores realizações do período de pandemia. Tem uma equipe trabalhando há um ano, ininterruptamente, 24 horas por dia, e foi importantíssimo na vida de milhares de famílias que passaram por lá", afirmou a prefeita Paula Mascarenhas, destacando, ainda, a importância do investimento feito no que seria a UPA Bento, "estrutura qualificada que estava pronta no momento em que foi necessária".

Entre investimentos e custeios, o Centro Covid recebeu, até agora, aproximadamente R$ 8 milhões, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS).

Um desafio desde sempre: a gestão da equipe

A abertura do Centro Covid só foi possível devido a outra força-tarefa que montou a equipe de profissionais. Uma escala de trabalho foi feita entre hospitais e Município, para garantir o atendimento dos pacientes pediátricos. Em novembro do ano passado, a Prefeitura assinou contrato com o Instituto Brasileiro de Saúde, Ensino, Pesquisa e Extensão para o Desenvolvimento Humano (IBSaúde), que passou a responsável pela contratação de parte dos profissionais - como médicos para atendimento adulto, nutricionistas, fisioterapeuta e setor de segurança -, assim como pela administração da unidade, sempre com a cogestão da SMS.

Para a secretária de Saúde, Roberta Paganini, o desafio do início de montar e gerir o grupo de profissionais da saúde se mantém até hoje.

"O mais difícil para esse serviço se estruturar foi compor a equipe e segue sendo. Temos trabalhadores com diversos vínculos - servidores públicos concursados e contratados emergencialmente, trabalhadores cedidos de outros serviços, de outros hospitais, e temos contratados pelo IBSaúde. É muito difícil fazer a gestão de uma equipe, na qual o vínculo empregatício não é o mesmo. A única coisa que torna possível essa gestão é o objetivo comum de atendimento à população", explica.

Primeiro as crianças, depois os adultos

O Centro Covid foi aberto com foco nas crianças, com dez leitos de Enfermaria e cinco leitos de suporte ventilatório - semelhantes a UTIs. Seis meses depois, o serviço foi ampliado e passou a receber pacientes adultos. Hoje, são 42 leitos assim distribuídos:

* Enfermaria adulto - 17 leitos;

* Enfermaria adulto com suporte ventilatório - 6 leitos;

* Emergência adulto com suporte ventilatório - 4 leitos;

* Enfermaria pediátrica - 10 leitos; e,

* Emergência pediátrica com suporte ventilatório - 5 leitos.

Com a palavra, a paciente 

A aposentada Eli Vieira Guerreiro, 77 anos, foi uma das pacientes do Centro Covid. A moradora de Cerrito ainda se recupera da doença, mas a filha Eva Maria Guerreiro Fonte não esquece o atendimento prestado à mãe. Ela destaca o acolhimento à família e o momento em que a idosa começou a demonstrar sinais de melhora.

"Como as notícias eram dadas uma vez por dia, não tinha como ver a mãe. Mas, quando a gente pode fazer uma videochamada, que foi feita pela assistente social, no momento que a mãe nos viu, ela começou a melhorar. O atendimento foi dez. Minha mãe saiu viva, graças a Deus", conta Eva, que ressalta os gestos de carinho dedicados pela equipe à paciente Eli.

O futuro pós-pandemia

De Centro de Atendimento a Síndromes Gripais a Hospital de Pronto Socorro de Pelotas. Esse é o futuro do Centro Covid pós-pandemia. A proposta, que já está na fase de confecção dos projetos arquitetônicos e complementares, é a de construção, no local, de uma unidade com 100 leitos clínicos, cirúrgicos, pediátricos, UTIs adulto e pediátrica, três salas cirúrgicas e leitos de recuperação. O HPS terá capacidade de atendimento regional e macrorregional, com uma cobertura populacional a partir de 501 mil habitantes.

A enfermeira, o Centro Covid e suas histórias

Fernanda Schwartz, 35 anos, é enfermeira há dez anos. A história dela com o Centro Covid surgiu antes da abertura da unidade. Voluntária na ação de monitoramento de passageiros que chegavam no Terminal Rodoviário de Pelotas, soube da abertura do local destinado às síndromes gripais e decidiu fazer parte da nova equipe. Um ano depois, o relato é de uma profissional transformada pela pandemia e pelas histórias de luta pela vida dos pacientes.

"Tenho uma história que mexeu demais comigo. Era uma paciente que se internou, a princípio lúcida, orientada, e eu conversei com ela de manhã. Ela estava descascando uma laranja. Essa cena nunca mais saiu da minha cabeça. À tarde, ela teve uma piora, sendo submetida à intubação e ventilação mecânica e, mais tarde, veio a óbito. Isso me marcou muito, é triste e, por isso, tento explicar sempre porque esse vírus é tão traiçoeiro. Ele é rápido. Tu estás bem de manhã e, à noite, só Deus sabe. Mas, o bom e que tantas outras histórias têm finais felizes, como de um paciente idoso, que chegou bem debilitado, ficou internado quase 20 dias conosco. Era difícil dizer se ele conseguiria se erguer, mas o 'senhorzinho' tinha uma força incrível de viver, e ele saiu. A cena dele indo embora, caminhado, com sorriso atrás da máscara, nos deu uma força para continuar lutando, uma força para seguir ajudando para que os pacientes saiam assim, sorrindo", conta a enfermeira.

Fernanda completa: "O que mudou em mim como pessoa? Enxergamos nos outros as pequenas coisas, um gesto, um sorriso atrás da máscara, ter esperança que as coisas melhorem, que nem tudo está perdido. Eu entrei no Centro Covid e fui trabalhar na Emergência. Lá, a gente trabalha, muitas vezes, sem saber de onde veio o paciente. A gente não sabe de nada, ele só entra lá e temos de ajudá-lo a sair vivo", finaliza.


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