Lado humano

A opção por cuidar da comunidade

Apenas 1% dos estudantes optam pelo bonito caminho da Medicina da Família e Comunidade

12 de Julho de 2018 - 08h23 Corrigir A + A -
Médico Ari Lemos trabalha na UBS Py Crespo e atua também no programa Mais Médicos (Foto: Jô Folha - DP)

Médico Ari Lemos trabalha na UBS Py Crespo e atua também no programa Mais Médicos (Foto: Jô Folha - DP)

Estudantes tem se interessado pouco em seguir carreira cuidando dos bairros (Foto: Jô Folha - DP)

Estudantes tem se interessado pouco em seguir carreira cuidando dos bairros (Foto: Jô Folha - DP)

Dos dez universitários entrevistados na reportagem a seguir, incluindo alguns não citados, apenas dois responderam de forma afirmativa à possibilidade de atuar com Medicina da Família, trabalhando nas Unidades Básicas de Saúde com foco na atenção primária. Não é particularidade de Pelotas: de acordo com levantamento da Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade, apenas 1,4% dos brasileiros formados em Medicina optam por residência na área. O lado financeiro e a vontade de se especializar em uma área estão entre os argumentos para não aderir ao viés mais social da profissão.

O número é perceptível nos cursos de Pelotas. Na Universidade Católica de Pelotas (UCPel), o último edital para residência médica registrou três inscrições para Medicina da Família e Comunidade, enquanto 35 disputaram as vagas de Cirurgia Geral, 41 optaram por Clínica Geral e 15 pela Ginecologia e Obstetrícia, por exemplo. Na Universidade Federal de Pelotas (UCPel), os últimos editais disponibilizaram 15 vagas cada, mas o interesse foi baixo: em todos, pelo menos dez vagas sobraram no primeiro chamamento.

Um contraponto a esse quadro é o médico Ari Lemos. Hoje com 64 anos, ele trabalha com Medicina da Família desde 1987, quando iniciou a carreira como professor da Universidade Católica de Pelotas e viu chegar à instituição o italiano Giovani Baruffa. Oriundo da África, o estrangeiro iniciou ali o processo que expandiu a atenção básica nos bairros de Pelotas.

Hoje, ele trabalha na UBS Py Crespo e faz parte do programa Mais, Médicos, que leva profissionais para o interior. "O estudante de Medicina critica esse projeto porque costuma estar atento apenas a quem tem visão mercadológica da Medicina. Temos de voltar atenção para bons exemplos de países que a pensem de maneira humanitária", afirma, referindo-se aos médicos cubanos que têm atuado no Brasil.

Lemos destaca que o trabalho era centrado no humanismo e no amor aos mais necessitados, ainda que o retorno financeiro fosse menor. Ele lembra que sofreu resistência dos colegas médicos, que o chamavam de utópico. E de fato ele é, mas no sentido de traçar um ideal e buscá-lo incessantemente. "Nas brincadeiras da área médica, a gente usa bicicleta e os outros o carro do ano. O que nos deixa satisfeitos é a recepção que temos da comunidade, que se sente acolhida. É um prazer imenso iniciar um pré-natal, por exemplo, e acompanhar aquela família em todo o ciclo da vida", diz, enquanto recebe cumprimentos e afagos de funcionários e pacientes.

Pé no barro

São em média cinco estudantes do curso de Medicina da UCPel por turno em cada uma das dez UBSs de Pelotas - acadêmicos de outros cursos da área da saúde também estão inseridos. E eles passam a graduação inteira nelas: no início acompanhando e, aos poucos, sendo parte integrante do corpo que define tratamentos. Esta iniciativa teve início em 2015, quando a universidade passou a assumir o gerenciamento de determinadas unidades - atualmente sete postos são geridos pela instituição. O objetivo é, se possível, plantar a semente da medicina social em quem terá profissão tão nobre. Além de atuarem nas UBSs, os alunos são estimulados a participar da vida e dos problemas das comunidades em que as unidades estão inseridas.

Estudante do primeiro semestre, Camila Griep de Castro diz achar interessante estar, desde o início, em contato com a rotina médica. "É um olhar mais social para a saúde pública. Refletimos sobre o que acontece aqui, trocamos experiências. É a Medicina acontecendo", diz.

A já formanda Thaís Marques avalia a experiência como importante aprendizado no trato com a comunidade, no convívio com os pacientes. Mas, salienta, prefere passar um tempo, "aprender o que deve aprender" e seguir o rumo da especialização em Cirurgia.

Renata Gottinari se formou em 2014 na UFPel e é raro exemplo de quem optou pela Medicina da Família na hora de escolher a residência - até começou a cursar Pediatria, mas a rotina de atender à comunidade a chamou mais forte. "Ir na casa das pessoas, entender os aspectos psicológicos e sociais que a levaram a determinada situação, isso tudo me encantou", comenta. Atualmente, ela atua na UBS Py Crespo e é professora da UCPel.


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