Pandemia

A medicação que ganhou os holofotes

Ivermectina, antiparasitário comum, mesmo sem o consenso dos órgãos de saúde, é cada vez mais usado contra o novo coronavírus

11 de Julho de 2020 - 08h50 Corrigir A + A -

Por: Jarbas Tomaschewski
jarbas@diariopopular.com.br 

Corrida pelo remédio aumentou nas farmácias (Foto: Marcos Porto - Especial - DP)

Corrida pelo remédio aumentou nas farmácias (Foto: Marcos Porto - Especial - DP)

Doutor Luiz Roberto Real lembra das três fases associadas ao contágio e da importância de agir rapidamente para que o paciente não evolua de uma para outra (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Doutor Luiz Roberto Real lembra das três fases associadas ao contágio e da importância de agir rapidamente para que o paciente não evolua de uma para outra (Foto: Carlos Queiroz - DP)

A prefeitura de Itajaí, em Santa Catarina, estabeleceu o debate mais atual em torno de ações que podem ajudar a combater o novo coronavírus (Covid-19). E a polêmica gira em torno de um nome que, para aqueles que já passaram dos 30, 40 anos, sempre foi bastante popular: Ivermectina.

No município catarinense, a prefeitura decidiu implantar em toda a sua rede de saúde a proposta de tratamento profilático a partir do uso desse antiparasitário que fez parte da infância de muita gente. O argumento do Poder Público para sustentar a ideia é que a medicação apresenta atividade antiviral contra o SARS-CoV-2, causador da Covid-19. A intenção é oferecê-la como tratamento precoce a todos os moradores, para prevenir e atenuar as infecções. “Tem potencial de prevenir e amenizar infecções por coronavírus, além de ser um remédio seguro, que já é amplamente usado”, defende o prefeito de Itajaí, Volnei Morastoni.

Para entender o que está acontecendo, é preciso olhar a linha do tempo que transformou a Ivermectina na sensação do momento e a fez desaparecer das prateleiras das farmácias. Tudo remete a estudos com culturas de células que mostraram ter o remédio algum potencial para combater o novo coronavírus. Um desses trabalhos foi desenvolvido por pesquisadores do Laboratório de Referência de Doenças Infecciosas Vitorianas (VIDRL) e da Universidade Monash, em Melbourne, na Austrália. E aqui se estabeleceu outro debate. Sem pesquisas complementares, ainda não foi possível demonstrar se o tratamento é seguro e eficaz aos humanos. Porém, foi o suficiente para a notícia ganhar o mundo e passar por novas experiências, não necessariamente técnicas. Hoje, cidades do Brasil e de outros países investem na distribuição do antiparasitário.

A ideia, se para muitos parece distante da realidade daquilo que ciência propaga em torno da “cura” da doença que levou à pandemia, não causa tanto estranhamento a outros. Um deles é o médico Luiz Roberto Real, por cerca de quatro décadas professor dos cursos de Medicina e Farmácia da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), autor de livros e com uma vida profissional dedicada a estudos da imunologia (sistemas de defesa). Em conversa com o Diário Popular, Real falou sobre os motivos que fizeram a Ivermectina ganhar os holofotes nos últimos meses. E basicamente, diz, tudo está no poder desse comprimido, indicado contra vermes e parasitas, em estancar uma das fases mais importantes associadas ao SARS-CoV-2: o momento em que ele ataca a célula humana para se multiplicar.

“O vírus, quando entra na célula, o que ele faz? Ele inibe uma determinada proteína, que impede a relação da carga genética dele com a carga genética da célula que ele está parasitando. Essa proteína se chama importina. Impede a importação, a relação da carga genética. Vários vírus inibem a importina, não é característica só do coronavírus. O mecanismo do coronavírus é bloquear as importinas e uma função importante da Ivermectina é impedir isso. Então, esse remédio, que já foi testado, aprovado pelo FDA dos Estados Unidos (no tratamento em infecções parasitárias), é uma droga que hoje está ‘bombando’ na internet, divulgada por uma médica, a ‘mãe’ da ultrassonografia no Brasil, que é a doutora Lucy Kerr.”

De fato, como cita Luiz Roberto Real, a médica mostra-se uma entusiasta da Ivermectina. Em seu site, ela relata o sucesso no tratamento de pacientes e a troca de experiência com um grupo de 570 profissionais, de outros continentes, com os quais se comunica. Ou seja, insere mais ingredientes ao assunto.

Três fases

Ao falar da pandemia, Real lembra das três fases associadas ao contágio e da importância de agir rapidamente para que o paciente não evolua de uma para outra. Fatores extras, destaca, contribuem e são importantes à proteção de cada um - como a idade, a genética e os bons hábitos de saúde -, e ajudam a responder frente aos processos virais, não apenas ao novo coronavírus. A maioria até positiva, mas se torna assintomático (cerca de 80%). “Entre o quarto e o sétimo dia depois que infeccionou é a fase de multiplicação viral, quando o vírus está preso no sistema respiratório”. A segunda fase, segundo ele, é dividida em A e B, quando aparecem a febre, a tosse, a falta de olfato e de paladar, o desarranjo intestinal, um quadro grande de sintomas. É uma etapa importante, porque grande quantidade de substâncias são produzidas e podem atacar outros órgãos e sistemas, como coração, pulmão e rins. “Por isso esses quadros pulmonares graves, que levam a pessoa ao respirador artificial, à UTI (fase três), a ter complicações cardíacas e renais.” Daí, recorda, as imagens que todos passamos a ver, de médicos e enfermeiros aplaudindo quando o paciente recebe alta. Porque, de fato, a pessoa venceu algo muito difícil.

No caso da Ivermectina, afirma, ela parece impedir que o vírus iniba a proteína responsável por barrar a relação da carga genética da célula com o do SARS-CoV-2, a qual ataca para parasitar. “Então, o que tem se hoje? A Ivermectina é aceita no meio científico? Ainda não. Porque ela não demonstrou (resultados) nos testes que se costumam fazer para as avaliações de ser aprovada pela Anvisa”, diz o médico. E essa resposta, complementa, pode vir agora em Itajaí (SC), onde o remédio passou a ser distribuído à população. “Para mostrar uma casuística substancial à comunidade científica brasileira”, projeta.

Em falta

Embora a automedicação seja sempre condenada pelas autoridades médicas, pelo risco que oferece, nas farmácias a população parece apostar no antiparasitário. O Diário Popular pesquisou em estabelecimentos e constatou a grande procura. Em um deles, não havia o produto à venda. O estoque de 60 caixas que chegou na última quarta-feira foi todo vendido, no mesmo dia.

Contraindicações - O que diz a bula

O medicamento é contraindicado ao uso de pacientes alérgicos à Ivermectina ou a alguns dos componentes da fórmula, por pacientes com meningite ou outras afecções do Sistema Nervoso Central. E também é contraindicado a crianças com menos de 15 quilos ou menores de cinco anos de idade. A bula, ainda, indica que a venda deve ser feita sob prescrição médica.

Distribuição em Itajaí

A prefeitura de Itajaí anunciou que, para ampliar o acesso da população ao tratamento com Ivermectina, irá abrir 15 unidades de saúde neste sábado e domingo. O remédio já foi distribuído a mais de 20 mil pessoas (116,8 mil comprimidos).


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