Experimentação

À espera de uma família acolhedora

Programa completa dois anos e busca sensibilizar novos interessados em abrir seus lares a crianças e adolescentes dos abrigos de Pelotas

05 de Abril de 2019 - 11h00 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Unidos. Rosane entre os irmãos Claudir e Patrick (Foto: Gabriel Huth - DP)

Unidos. Rosane entre os irmãos Claudir e Patrick (Foto: Gabriel Huth - DP)

Os resultados podem ser medidos em sorrisos. O programa Família Acolhedora completa dois anos e traz dezenas de histórias com final feliz em Pelotas. Atualmente, 36 crianças e adolescentes estão no aconchego de 21 famílias diferentes. O chamamento, entretanto, é para que mais pessoas abram o coração e a porta de seus lares para receber - por período transitório - meninos e meninas que hoje estão nos abrigos públicos. E não são poucos: 65 crianças e jovens ainda aguardam para ter respeitado um dos direitos previstos na legislação: a convivência familiar.

“São dois anos de experiências positivas e muitos estão tendo contato, pela primeira vez, com um convívio familiar saudável”, ressalta a juíza da Infância e da Juventude, Alessandra Couto de Oliveira. Ao conversar com o Diário Popular, faz questão de ressaltar o quanto a formação de vínculos contribui para o desenvolvimento emocional, cognitivo e motor. Dos bebês aos adolescentes, que têm apresentado melhora no rendimento escolar ao se verem inseridos em novo cotidiano.

Nova vida, após mais de uma década em abrigo
A notícia, em novembro de 2017, chegou como alento. Faltavam apenas três meses para o estudante Claudir fazer 18 anos. Depois de mais de uma década em abrigo, o jovem teria de deixar a instituição. Assombro. Medo. Incerteza. “Ia ser rua”, resume. “Aí ganhei essa grande oportunidade”, festeja.

A dona de casa Rosane Vergara da Silva, 57, já conhecia Patrick, 16, irmão de Claudir. Os encontros ocorriam na Escola Louis Braille, onde o filho caçula João Vítor, de oito anos, também estuda. Iniciava a amizade. Ao conhecer o Família Acolhedora, Rosane não pensou duas vezes: queria ter o Patrick, conversador, por perto. Foi quando descobriu a existência de Claudir que, claro, passou a fazer parte dos planos.

“Para os adolescentes, esse programa é ainda mais importante. Nunca diria que ele teria que ir embora da minha casa porque completou 18 anos. A gente pega amor por eles”, admite. E, assim como fez e faz pelos quatro filhos - dois já casados -, orienta, troca ideias e sonha junto. “Tenho vontade de seguir a carreira de bombeiro”, conta Claudir e esbanja largo riso.

Dois abrigos fechados
Até agora, desde a criação do programa, dois abrigos fecharam as portas: Meninos I e Meninas I. O secretário de Assistência Social, Luiz Eduardo Longaray, comemora os resultados, que trazem benefícios às duas pontas. A gurizada ganha a maior possibilidade: do afeto. A prefeitura ganha a chance de reduzir custos; ainda que o Família Acolhedora destine um salário mínimo por criança ou adolescente que recebe um lar provisório, enquanto aguarda o encaminhamento para adoção ou o retorno à família de origem. “Este é um programa em que só se tem ganhos. Tenho orgulho deste trabalho”, reforça Longaray. Atualmente, o município ainda conta com cinco abrigos, onde vivem 65 meninos e meninas, com rostos, histórias e expectativas únicos.

Os resultados em dois anos
►Ao todo, 79 crianças e adolescentes participam ou participaram do programa
►Desse total, 19 foram encaminhados a famílias adotivas e 14 voltaram para a família de origem
►Outros 10 retornaram para os abrigos, por não se adaptarem
►Atualmente, 36 crianças e jovens estão em famílias acolhedoras
►Hoje, 21 famílias estão habilitadas

Critérios para participar? (*)
►Ter mais de 21 anos, sem restrição de sexo e de estado civil
►Idoneidade moral
►Não ter membros da família que façam uso de drogas
►Não ter intenção de adotar
►Ser morador de Pelotas
(*) As famílias recebem o valor de um salário mínimo, por mês, por criança ou jovem acolhido para auxiliar nas novas despesas

Documentação necessária
►Carteira de identidade
►Certidão de nascimento ou casamento
►Comprovante de residência
►Certidão negativa de antecedentes policiais, criminais e civil
►Atestado de saúde física e mental

Acompanhamento
Depois de habilitadas e de receberem alguma das crianças ou jovens, periodicamente, as famílias passam por visitas de equipes técnicas da Secretaria de Assistência Social, que enviam relatórios ao Juizado da Infância e da Juventude. O programa tem objetivo bem claro: criar uma rede humanizada, enquanto o futuro desses meninos e meninas é avaliado: se serão encaminhados ao seio de família adotiva ou se irão retornar à família de origem.

As exceções
Só há uma situação em que os integrantes da Família Acolhedora poderiam se candidatar à adoção de crianças e adolescentes por quem se afeiçoaram: se o perfil em que eles se enquadram não possuir nenhum pretendente a adotá-los, através do Cadastro Nacional - explica a magistrada.


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