Esperança

À espera de uma família

Encontro Sobre Adoção promete sensibilizar a comunidade nesta quarta, com depoimentos de quem aguarda um lar na Comarca de Pelotas

23 de Maio de 2018 - 10h00 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

criancas
Prontos para trocar amor: Vitória Porto, 12, Vanderlei Cruz, 15, e os irmãos João, 12, Thalia, 14, e  Thalita Monteiro, de oito anos, estão entre as 24 crianças e adolescentes aptos à adoção na Comarca de Pelotas (Fotos: Gabriel Huth)

"Eu queria ter uma nova chance para mostrar como, realmente, sou uma pessoa legal". A declaração acompanhada de olhar firme revela a maturidade de quem, aos 12 anos de idade, já passou mais da metade da vida em abrigo. Sob a tutela do Estado. À espera do aconchego de um colo, que não a expurgue ou devolva ao Poder Público, como já ocorreu. Para que histórias como a da adolescente Vitória Porto possam ganhar desfecho com as cores do amor, o Juizado da Infância e da Juventude de Pelotas promove nesta quarta-feira (23) um Encontro Sobre Adoção.

O evento, aberto ao público, apresentará depoimentos de crianças e jovens que sonham ser, simplesmente, filhos. É mais uma iniciativa a favor da adoção tardia. Mais um esforço para que aqueles rostos que já não trazem os traços da primeira infância possam também ser acolhidos em um núcleo familiar. E, atualmente, são 24 semblantes prontos para dar um sorriso. De alívio.

Para a juíza da Infância e da Juventude, Alessandra Couto de Oliveira, a convicção só cresce: quando se oportuniza o contato com essas crianças e adolescentes reais, eleva-se a possibilidade de final feliz. É o que também quer a campanha desencadeada pelo Tribunal de Justiça, Deixa o amor te surpreender. E tem dado certo: ao quebrar a invisibilidade a que ficavam relegados dentro dos abrigos, sem rosto ou nome revelados, o perfil de aceitação do lado de fora também se torna mais flexível.

Hoje já não são só os pequenos - com um máximo de quatro, cinco anos - que são adotados. A faixa etária, com possibilidades verdadeiras de adoção, saltou para os dez anos de idade - garante Alessandra. As barreiras mais duras de romper ainda aparecem em dois momentos: com a chegada da pré-adolescência e nos casos de irmãos. Daí a importância do encontro de hoje que aposta, mais uma vez, na sensibilização da comunidade.

Eles acreditam e esperam
- Rumo à faculdade de Direito: A adolescente Vitória Porto, 12, está no 5º Ano, mas ao projetar o futuro vai direto ao ponto, como se o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) estivesse próximo: "Quero estudar Direito". Ao voltar ao passado, a moradora do Capão do Leão conta dois episódios que ajudam a entender a vontade de seguir em frente: dos seis irmãos, só ela permaneceu no abrigo. Os seis já foram adotados. E pior: a adoção de Vitória acabou em devolução: "No início, achei que eles gostavam de mim. Depois descobri que não. Eram muito grossos comigo". Fato que não a impede de sonhar: "Eu queria ter uma nova chance para mostrar como, realmente, sou uma pessoa legal".

- Várias aptidões: O jovem Vanderlei Beduhn Cruz, 15, também fala com fluidez quando a pergunta volta-se às diversas formas com que gosta de preencher o tempo. Horas agarrado ao violão, prática de judô, vôlei, futebol, pedaladas... "Gosto de mexer com eletrônica. Quero fazer IF-Sul e quem sabe ser técnico em Informática", enfatiza o estudante do 7º Ano. E garante: acredita, sim, no aconchego de uma família, que possa se transformar em bela roda de violão.

- Espera em família: Thalita Corrêa Monteiro, de oito anos, João, 12, e Thalia, 14, aguardam em família pelo sonho de ter um lar que já não seja o Aquarela, mantido pela prefeitura de Pelotas, onde vivem há um ano e oito meses. Nesta terça-feira, ao conversarem com o Diário Popular, em geral, responderam com um silêncio que também fala. E diz muito, inclusive, o quanto desejam ser acolhidos.

A palavra do Juizado
A juíza da Infância e da Juventude, Alessandra Couto de Oliveira, voltou a defender a necessidade de o sistema fazer a autocrítica que permita, acima de tudo, dar celeridade aos casos. "Temos que esgotar as tentativas de a criança e o adolescente permanecerem na família biológica, mas não ao ponto de inviabilizar uma adoção".

E, para tentar imprimir dinamismo ao trabalho, Alessandra agarra-se aos limites impostos pela própria legislação. Atualmente, o interessado em adotar deve estar habilitado em até 120 dias. Antes não existia prazo. Os períodos de reavaliação da família biológica, para tentar reinserir a criança e o adolescente, também estão mais enxutos. Devem ocorrer de três em três meses - sem um limite de vezes para o procedimento se encerrar. Antes, entretanto, as reavaliações só se davam de seis em seis meses.

E mais: assim que aberto o processo para destituição do Poder Familiar, o Judiciário recebe prazo de até 120 dias para tomada de decisão. É o que estabelece, desde novembro, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). "As crianças não podem perder a infância dentro dos abrigos", reforça a magistrada. E comemora o fato de 21 crianças e jovens terem sido adotados só nestes primeiros meses de 2018 em Pelotas.

Participe!
Encontro Sobre a Adoção
Quando: Nesta quarta-feira, a partir das 18h30min
Onde: Salão do Tribunal do Júri, no Fôro de Pelotas
Evento é aberto ao público

 


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