Efeitos da pandemia

A difícil decisão imposta às mães

Pesquisa do IPO revela que 58% das mulheres com filhos e empregos formais deixaram o trabalho de lado durante a pandemia

29 de Junho de 2020 - 09h26 Corrigir A + A -
Mudança. Raquel é mãe de Larissa, recebe benefício do governo e hoje faz trabalhos informais (Foto: Divulgação - DP)

Mudança. Raquel é mãe de Larissa, recebe benefício do governo e hoje faz trabalhos informais (Foto: Divulgação - DP)

Esperança. Rita é mãe da Marthina e está desempregada 
desde março (Foto: Divulgação - DP)

Esperança. Rita é mãe da Marthina e está desempregada desde março (Foto: Divulgação - DP)

De acordo com o Instituto de Pesquisas e Opinião (IPO), das mães que trabalham fora e tinham filhos em creches antes da pandemia, em Pelotas, mais da metade precisou deixar o emprego formal de lado para cuidar das crianças. 58,8% desse grupo não teve a opção de deixar os filhos com parentes ou babás durante o horário de trabalho e por isso deixaram os empregos de lado. A cientista social e política, Elis Radmann sintetizou os dados do estudo: “A pandemia traz um “novo normal” que exige mais das mulheres”.

Rita Pereira, 34, se enquadra no perfil desse recorte da pesquisa Avaliação do comportamento da população frente à Covid-19 em Pelotas. Ela é a mãe da Marthina, de dois anos, e está desempregada desde março, momento em que as aulas do Instituto de Menores Dom Antônio Zattera foram suspensas. Lá ela é professora de Educação Física para mais de 150 crianças. Sem as atividades que faziam parte da rotina, os dias são preenchidos com os cuidados e a atenção à pequena, sem creche por conta da pandemia. “Comecei a trabalhar com 16 anos e nunca parei, nem quando estava grávida. Essa parada brusca mexe muito com o nosso psicológico”, contou.

A mudança de uma rotina agitada para os dias em casa afetou o lado emocional da professora; aceitar os novos dias não é tarefa fácil, tanto para ela como para Marthina. “O adulto consegue se conformar, as crianças já não entendem a gravidade da situação. Pra ela é pior”, acredita. Fora isso, a falta de um emprego formal é sentida no bolso: atualmente ela aguarda o pagamento da terceira parcela do Auxílio Emergencial do Governo Federal.
Como forma de complementar a renda do mês, a professora tem feito freelas na área da segunda graduação, em Jornalismo. “O mercado em Pelotas há muito está de portas bem fechadas”, ressaltou. Ainda sim, a fé em dias melhores não se esvai: “Tenho esperança que as coisas voltem ao normal e eu volte ao emprego que eu tanto amo. A minha paixão é dar aula”, completou.

Estudar ou cuidar da filha?
Aos 24 anos, a Raquel Bast concilia os bicos no ramo de confecção de uniformes com estudar a distância e cuidar da Larissa, de quatro anos. Em março, a estudante de Serviço Social da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) perdeu o emprego em uma empresa do ramo da costura. Agora ela recebe os R$ 600,00 disponibilizados pelo governo federal, além de fazer alguns trabalhos informais. “São várias necessidades no mês e o dinheiro não basta para cumprir. Conseguir um emprego em Pelotas é difícil, mesmo com experiência”, relatou.

Por conta da pandemia da Covid-19, as aulas estão a distância e, para Raquel, ainda mais complicadas. A pequena é agitada e com as aulas do pré ainda suspensas, sente falta dos colegas. “Quando estou na faculdade, a atenção fica só naquilo. Em casa é mais difícil, a Larissa me vê e quer atenção, quer brincar. Fica impossível ligar o áudio pra participar da aula”, explicou.

Elas são mais exigidas
Para alguns, a pandemia é mais sofrida que para outros, como é o caso das mulheres. A fundadora do Instituto de Pesquisas de Opinião e cientista social e política Elis Radmann lembra do impacto da pandemia da Covid-19 na economia e nas carreiras profissionais de homens e mulheres. “A pandemia irá prejudicar a maior parte dos setores da economia e as carreiras profissionais. As mulheres são mais prejudicadas por ocuparem postos de trabalho em áreas muito afetadas (como comércio)”.

Segundo os dados da pesquisa do IPO, a maior incidência de mulheres que não voltaram a trabalhar tinham os filhos matriculados em creches da rede pública da educação infantil; elas são 60,9% do total, enquanto as mulheres com filhos em creches privadas são 54,5%. A disparidade ocorre também com relação à estabilidade e respaldo familiar, isso porque 9% daquelas com filhos em creches privadas contrataram uma babá, as demais não. Ao todo, 38% das mulheres deixaram os filhos com parentes para seguir trabalhando.

A cientista social e política explica que o momento exige ainda mais das mulheres, por ser a maior responsável pelos cuidados da casa, educação das crianças e zelo das pessoas de grupos de risco. “Temos que ter sensibilidade social para compreender que é um ambiente mais tenso, pois a mulher precisa administrar tudo isso diante de todas as incertezas desse momento. Não é uma tarefa fácil!”, frisa.

 


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