Fim do ciclo

17 anos depois, uruguaio volta a Pelotas para buscar o filho

Manoel Mansilla deseja cremar Jacson, navegador morto em 2002 na Lagoa dos Patos

01 de Dezembro de 2019 - 07h52 Corrigir A + A -

"Ele tem de ficar onde nasceu. Nosso sentimento é que uma parte nossa está em outro lugar", diz Manoel (E), pai de Jacson (Foto: Paulo Rossi - DP)

Na época do acidente, Jacson tinha 31 anos (Foto: Reprodução)

Na época do acidente, Jacson tinha 31 anos (Foto: Reprodução)

A água precisa concluir seu curso. Dezessete anos depois, o uruguaio Manoel Angel Mansilla voltou para Pelotas para terminar um ciclo: ele quer levar junto de si os restos mortais do filho, Jacson, morto em 2002 na Lagoa dos Patos. Com ajuda da população da cidade, ele está perto de realizar a vontade.

Navegador, Jacson Delon Mansilla estava em uma embarcação, entre Pelotas e São Lourenço do Sul, quando passou mal e morreu, fora do barco. A certidão de óbito apontou necessidade de novos exames, mas o caso acabou sendo considerado morte natural. O uruguaio foi, na sequência, sepultado no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula, sem a presença da família, que não teve condições, à época, de comparecer à cerimônia. Na época, Jacson tinha 31 anos e, de acordo com o pai, era o verdadeiro “nômade”. “Estava sempre viajando, não gostava de permanecer muito tempo no mesmo lugar. Nos visitava com certa frequência, mas logo já partia para uma nova aventura”, conta.

Quase duas décadas depois, a condição financeira melhorou e os Mansilla Rodriguez optaram por vir ao Brasil com o objetivo de fechar o ciclo: levar para o seu país os restos mortais e pertences de Jacson, cremá-lo e espalhar as cinzas pela cidade em que cresceu - Fray Bentos, a 309 quilômetros de Montevidéu. “Somos muito gratos a Pelotas, mas esse não é o lugar dele. Ele tem de ficar onde nasceu. Nosso sentimento é que uma parte nossa está em outro lugar”, comenta Manoel. Ele conta que esperou todo esse tempo para que filhos e netos se desenvolvessem.

Os parentes de Jacson chegaram a Pelotas na segunda-feira e logo foram atrás de pistas, tendo o idioma e a burocracia como os principais empecilhos - mas a ajuda de cada pelotense como aliada. “As pessoas nos foram muito solícitas, nos ofereceram até comida”, comenta. No consulado uruguaio, descobriram que era preciso fazer um recadastro para que os trâmites começassem a ser feitos. Etapa vencida, foram até o Cemitério São Francisco de Paula. Lá, foram informados de que os restos mortais do marinheiro estavam reservados em uma bolsa. Para retirá-la, entretanto, é preciso agora pagar a quantia de R$ 2.050,00. Ao Diário Popular, a administração do local argumentou que a cobrança se deve ao aluguel do jazigo durante os 17 anos.

Para fechar o ciclo

Como não esperava ter de pagar a quantia, Manoel vive agora um problema. A passagem de volta para o Uruguai está comprada para o sábado, então a família corre contra o tempo para conseguir o valor. “Não temos nada, porque focamos em vir até aqui”, comenta. Não mostram preocupação, entretanto. “Se faltar, juntamos entre todos nós e conseguiremos. Queremos encerrar esse ciclo e estar agradecidos pela cidade de Pelotas. Nos sentimos muito abraçados”, completa.


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