Coronavírus

O drama italiano sob o olhar de um pelotense

Na Itália há dez anos, o goleiro de futsal Diego Decrescenzo conta sua experiência em meio à grave pandemia do coronavírus no país europeu

23 de Março de 2020 - 09h32 Corrigir A + A -
Diego é pelotense e mora na Itália, onde é atleta profissional de futsal  (Foto: Divulgação - DP)

Diego é pelotense e mora na Itália, onde é atleta profissional de futsal (Foto: Divulgação - DP)

O pelotense Diego Decrescenzo, de 28 anos, deixou a cidade de Pelotas para viver o sonho de muitos brasileiros: ser atleta profissional na Europa. Oriundo das categorias de base do Paulista, o goleiro chegou à Itália em 2010. Desde então, defendeu diversas equipes no país que hoje vive um dos piores dramas de sua história: a pandemia de coronavírus.

Atual epicentro da covid-19, a nação europeia registrava, até o fechamento desta edição, 5.476 mortes por complicações causadas pela doença, enquanto no Brasil, o número de mortes era de 25. No entanto, de acordo com dados e pesquisas da Organização Mundial de Saúde, o país apresenta curva de crescimento dos casos muito semelhante à italiana, motivo suficiente para causar apreensão.

“Aqui começou a se falar do vírus em dezembro. O governo achou que não seria tudo isso, que seria fácil de controlar. As pessoas acharam que era coisa da mídia, que não seria nada. Quando tomaram conhecimento da grandeza que era e do que teria que ser feito, já não dava mais. Já estava em todo o país”, conta Diego, atleta do Atletico Nervesa, da região de Vêneto, localizada no nordeste da Itália e terceira mais afetada pelo coronavírus.

Em meio aos primeiros casos, Diego conta que as autoridades italianas tomaram algumas providências primárias com base em números da China, estopim da crise pandêmica global. “A primeira medida foi fechar os eventos com aglomerações, missas, eventos esportivos. Mas muita gente continuou trabalhando. Aqui há muitos mercados na rua, com muita gente, de várias parte do mundo. Depois começaram a fechar os mercados, mas começaram a ter mil casos, dois mil casos”, lembra.

Mesmo com o avanço exponencial do vírus, as autoridades italianas achavam que conseguiriam conter o vírus. Inclusive, passaram a liberar certas atividades e Diego voltou a atuar pelo Atletico Nerversa mesmo em meio à crise e o aumento do número de mortos.”Jogamos com portões fechados. A gente tinha parado de treinar, daí voltamos. Aí na outra semana cancelaram tudo de novo. Subestimaram o poder do vírus”, lamenta.

Alerta ao Brasil

Em dados da Organização Mundial de Saúde, vinte dias após o primeiro paciente testar positivo para coronavírus, o Brasil registrava 428 casos, enquanto na Itália o número de casos confirmados era de apenas três. Entretanto, a diferença pode não ser tão drástica, já que hospitais de Milão assumiram erros em diagnósticos para gripe, o que pode ter alterado significativamente a curva de crescimento da pandemia no país europeu.

Preocupado com as notícias sobre o avanço do coronavírus no Brasil, Diego traçou um paralelo entre os dois países. “A diferença é que o Brasil teve o modelo da Itália do que não fazer. A Itália não teve, foi muito em cima da hora e não souberam tomar decisões. Só daqui a duas semanas eles esperavam ver os resultados das ações que tomaram na semana passada. Eles esperam que o pico mesmo seja daqui duas semanas”, compara.

Os italianos decidiram tomar atitudes mais severas somente após a situação sair do controle. De acordo com Diego, o regime de quarentena foi adotado apenas no dia 9 de março. Desde então, ele divide o período de isolamento social com a namorada Daniele, 27, na cidade de Nervesa Della Battaglia.

“Estamos tendo controle, mas não perdemos toda a nossa liberdade. Até o dia 3 de abril é garantido que isso se mantenha. Não podemos mudar de cidade, por exemplo. O governo colocou uma auto-certificação para deslocamentos. Eu moro em uma cidade e trabalho em outra, então tenho autorização. Se o governo pegar alguém nesse deslocamento sem autorização, a multa é de 200 euros e/ou prisão”, conta.

Quarentena e incerteza no esporte

Em constante contato com os familiares, residentes em Pelotas, Diego diz que embora a situação seja grave, não há necessidade para pânico. “Sempre que saem notícias eles me mandam mensagem. A situação é complicada, tem que se proteger, ficar em casa. Mas não é um mundo pós-apocalíptico. Temos opções de mercado, farmácia. Liberam 25 milhões de euros para investir na saúde e também o trabalho das pessoas que estão em casa e não estão podendo trabalhar”, comenta.

Diego disse ainda que em nenhum momento pensou em retornar ao Brasil, decisão tomada em conjunto com sua namorada Daniele. “Se a gente fosse embora, não sabíamos se poderíamos infectar outras pessoas. O vírus é isso, as pessoas pegam e não sabem. Correr esse risco com nossa família, com pessoas de idade. Não passou pela nossa cabeça isso”, concluiu.

Quanto ao esporte, tudo segue paralisado e Diego não sabe se voltará a atuar com o Atletico Nervesa, que disputa a segunda divisão do futsal italiano. “Dentro do que a gente vem conversando, a gente acha que a temporada seja cancelada. Talvez o futebol de campo não, porque envolve muito dinheiro, mas no futsal a gente imagina isso. Mesmo que liberem, grande parte dos times ficaram sem seus jogadores e provavelmente deem o ano como cancelado”, finaliza.

 


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