7 a 0 para o Bagé

Goleada sofrida pelo Farroupilha levanta suspeita de manipulação

Atacante Iago Padilha desabafou nas redes sociais nesta segunda e pediu desligamento do clube. Semana passada, DP havia recebido denúncia semelhante

01 de Agosto de 2022 - 18h14 Corrigir A + A -
Iago Padilha (foto, durante partida contra o Riograndense) externou suspeita em publicação nas redes sociais. Sindicato dos Atletas diz já ter tomado conhecimento da denúncia, que será investigada (Foto: Tiago Winter)

Iago Padilha (foto, durante partida contra o Riograndense) externou suspeita em publicação nas redes sociais. Sindicato dos Atletas diz já ter tomado conhecimento da denúncia, que será investigada (Foto: Tiago Winter)

Por Fernando Rascado e Gustavo Pereira
esporte@diariopopular.com.br

Atualizada nesta terça (2) com acréscimo de informações.

A combinação entre duas denúncias feitas por pessoas de dentro do Grêmio Atlético Farroupilha e um placar totalmente atípico levanta suspeitas preocupantes no futebol do Rio Grande do Sul ao longo dos últimos dias. Após a goleada por 7 a 0 sofrida no domingo (31) pelo Fantasma para o Bagé, pela Terceirona Gaúcha, o atacante Iago Padilha fez publicação nas redes sociais em que acusa esquema de manipulação de resultados. Mais tarde, o atleta apareceu em vídeo, ao lado do presidente do clube, em que o dirigente nega a versão veiculada anteriormente.

“É lamentável o que esses caras fizeram lá. Eu tava lá, posso falar. Vender jogo, isso não existe. Já está difícil fazer futebol no interior e os caras vêm de fora para usar para fazer aposta", diz trecho do texto postado pelo jogador, que pediu desligamento do clube.

Desde a semana passada o Diário Popular apura indícios da suposta manipulação de placares depois que outra fonte ligada ao Farroupilha, sob condição de anonimato, afirmou ter sido procurada para participar de esquema. Segundo esta fonte, teria recebido contato com objetivo de combinação de um resultado específico. A proposta teria sido recusada imediatamente.

Placar chama atenção

Até o jogo deste domingo, realizado no estádio Torquato Pontes, em Rio Grande, apenas uma partida do grupo D da Terceirona havia terminado com diferença superior a um gol – a vitória por 2 a 0 do Rio Grande sobre o Riograndense, no dia anterior. Derrotado por 7 a 0 no domingo, o Farroupilha havia sofrido até então apenas quatro gols nos três confrontos anteriores somados.

Em relação à partida imediatamente anterior à goleada, realizada no fim de semana passado, quando o Fantasma perdeu por 2 a 1 para o Riograndense, houve mudanças: saiu o técnico Gregory Macedo e entrou Carlos Alberto Estevão, o Caco, que contratou alguns atletas. Na escalação que entrou em campo contra o Bagé, apenas quatro titulares foram repetidos. Entre eles Iago, autor da denúncia.

“Está na cara”, diz Iago

Nesta segunda (1º), o jogador divulgou em suas redes sociais que estava de saída do clube e, no depoimento, relatou acreditar em manipulação de resultado, mas sem acusar ninguém diretamente.

“Nosso primeiro jogo contra o Rio Grande deu problema no BID [Boletim Informativo Diário, da CBF], fomos com nove jogadores e perdemos só de 1 a 0. Eles suaram para ganhar da gente, hoje eles são líderes da chave. Depois empatamos em 1 a 1 e perdemos por 2 a 1. Todos os jogos da chave foram parelhos, não tem nenhum time muito melhor que outro. Na sexta-feira (29) chegou um pacote de jogadores de empresários, e só na defesa. Trouxeram um goleiro que pesa 200 quilos, que não joga nem no amador da cidade. Treinaram na sexta e foram para o jogo como titulares. Chegou no jogo e 7 a 0. Jogaram todos que eles trouxeram. Está na cara, é nítida a situação que aconteceu”, argumenta o atacante.

Um outro jogador do Farroupilha, que pediu anonimato, confirmou que foi procurado por pessoas que ofereceram dinheiro para entregar resultados. “Me chamaram de canto, me ofereceram, eu falei para eles que não ia fazer. Minha consciência está limpa, não fiz nada de errado, mas infelizmente do time que eles trouxeram e vão trazer, provavelmente vão fazer”, falou.

Treinador cita boicote: “Jamais posso falar algo sem provas”

Procurado pela reportagem, o técnico do Farrapo contra o Bagé, Carlos Alberto Estevão, deu a sua versão sobre o que aconteceu na partida disputada no Torquato Pontes.

“Jamais posso falar algo sem provas, mas tomamos sete. Desde quarta-feira (27) nós perdemos o jogo, quando teve um boicote dos atletas. Temos que analisar as situações que aconteceram. Eu vim para colaborar com o clube. A minha situação é essa, eu não sei se jogador foi comprado ou não. As casas de apostas existem, estão na camiseta dos times de primeira divisão. Então se fazem eu não sei, não consigo provar nada. Se fazem vai faltar cadeia. Se fizeram não foram os meus jogadores e sim os da casa. Veio jogador meu, o goleiro [Jefferson, citado por Iago Padilha] é meu, se olhar os vídeos o goleiro não teve culpa em nenhum gol e ainda defendeu um pênalti. Aí no segundo tempo me enterraram de vez. Mas eu acho que tem que ter um pouco de respeito e de caráter”, afirma Caco.

Iago Padilha confirmou ao DP a ocorrência do boicote citado pelo treinador. O motivo seria que alguns atletas não queriam que Estevão assumisse no lugar de Gregory, e sim que o substituto fosse Fuca, atual técnico do sub-20 e assistente do profissional. Já Caco também assegurou que ficará afastado do comando técnico do time no restante da Terceirona, onde o Farrapo já está eliminado, e que reassume para a disputa da Copa Tarciso Flecha Negra com um grupo totalmente novo.

A situação do Farroupilha

Sem disputar uma competição oficial desde 2019, o Farroupilha voltou à ativa nesta temporada. O projeto iniciou bem. O clube foi campeão da Copa Francisco Novelletto, competição amistosa. Com o técnico Gregory Macedo e um grupo jovem, o Farrapo nutria expectativa de ser candidato a vaga uma na Divisão de Acesso do ano que vem.

Quando a Terceirona começou, no entanto, houve dificuldades. Logo na primeira rodada, o clube não conseguiu registrar os jogadores no BID da CBF e a equipe atuou com apenas nove atletas. Mesmo assim a partida foi disputada, terminando com derrota por 1 a 0 para o Rio Grande.

Na sequência da competição, o Fantasma empatou com o Riograndense fora de casa em 1 a 1. Até que, no dia 24 de julho, contra o mesmo adversário, mas no Nicolau Fico, o Fantasma acabou sendo derrotado por 2 a 1. Partida em que a fonte ouvida pelo DP afirma ter existido tentativa de manipulação do resultado. A testemunha, porém, não soube afirmar se a intenção foi consumada.

Presidente do Farroupilha nega

O presidente Fábio Costa foi procurado pela reportagem, mas até o momento da publicação desta matéria não havia atendido as ligações nem retornado os contatos. À Rádio Universidade, nesta segunda, o dirigente disse que o clube se pronunciará e investigará as denúncias.

No início da noite, via redes sociais, o Farroupilha divulgou vídeo em que Costa, ao lado de Iago Padilha, nega ter havido qualquer manipulação. “Ele foi mal interpretado. Isso não acontece e nunca vai acontecer. A venda de jogo que o Iago falou foi a ‘venda de doação’ dos jogadores que entraram e não renderam 100%”, sustenta o mandatário no pronunciamento.

Este vídeo, no entanto, foi apagado horas depois, sendo "substituído" por outro, em que o advogado e diretor jurídico do Farroupilha, Hermes Rockenbach garante que o clube averiguará a denúncia junto ao Ministério Público e demais órgãos competentes. “O esporte não irá perder”, afirma.

Presidente do Bagé se manifesta

O Bagé foi vencedor do confronto por 7 a 0 e garantiu a classificação com antecipação para as quartas de final da Terceirona. O presidente do Jalde-Negro, Pedro Sabella, afirma não ter conhecimento de esquema para manipulação de placar.

“É triste isso aí, quem trabalha sério como o Bagé trabalha, da forma que estamos trabalhando. Jogamos três partidas fora, pagando as despesas e a gente escutar esse tipo de coisa é triste. Eu não tenho nada de concreto, apenas boatos que se escuta por aí”, diz.

O dirigente faz críticas ao Ministério Público por conta da quantidade de sites de apostas que patrocinam jogadores e campeonatos. E ressalta ter orientado atletas do clube a não apostar em competições que disputam. “Querem apostar em campeonato brasileiro, europeu, tudo bem. Mas apostar na terceira divisão eu não aceito, não. Graças a Deus que ninguém me procurou para fazer qualquer tipo de conchavo. Eu não vou aceitar e vou denunciar, pode ter certeza”, complementa.

Presidente da FGF prega cautela

Já o mandatário da Federação Gaúcha de Futebol, Luciano Hocsman, destaca as práticas de fiscalização da entidade e a importância da atuação dos órgãos responsáveis para possíveis investigações.

“Todas essas situações que chegam dessa forma, por rede social, têm que ser tratadas com toda a cautela. Essa é a principal questão. Até porque em anos anteriores me parece que, quando surgiram algumas coisas assim, aquele que postou acabou não confirmando o que havia escrito. O segundo ponto é que a Federação, de dois a três anos, tem um convênio com a maior empresa de integridade de jogos, que faz o monitoramento de todas as partidas das nossas competições aqui no Rio Grande do Sul. E sempre que há um movimento diferente, quando esse monitoramento possa dar indícios de uma pretensa manipulação, especialmente com alguma denúncia que a gente receba – e isso já aconteceu –, a FGF dá encaminhamento aos órgãos responsáveis”, explica.

Tribunal de Justiça Desportiva (TJD), Ministério Público e Polícia Civil foram as instituições mencionadas por Hocsman. O presidente da FGF ainda lembrou que a entidade não tem poder de investigação, somente encaminha denúncias.

Siapergs também se pronuncia

Ao falar com o DP, o ex-jogador Gabriel Schacht, presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado do Rio Grande do Sul (Siapergs), lamentou esse tipo de ocorrência e enfatizou medidas de combate. A denúncia envolvendo o Farroupilha já chegou ao Siapergs e está sendo apurada.

“Infelizmente é algo que está se tornando recorrente no futebol em âmbito nacional. Temos um canal de denúncia, já recebemos algumas, infelizmente sem prova formal, mas estamos em colaboração com outras entidades (FGF, Polícia Civil e Ministério Público do Trabalho) para prevenir e combater”.


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