Excesso

"É tortura o que aconteceu lá", relata torcedor do Brasil sobre ação da BM na capital

Ao Diário Popular, xavantes dão suas versões sobre abordagem policial do último domingo, que levou um homem ao hospital em estado grave

03 de Maio de 2022 - 19h13 Corrigir A + A -
Segundo testemunhas, ação policial envolveu tapas, chutes, uso de gás de pimenta e imposição a situações desumanas. Comando do 11º BPM, que instaurou inquérito interno, afirma que não foi usado nenhum tipo de armamento (Foto: Reprodução)

Segundo testemunhas, ação policial envolveu tapas, chutes, uso de gás de pimenta e imposição a situações desumanas. Comando do 11º BPM, que instaurou inquérito interno, afirma que não foi usado nenhum tipo de armamento (Foto: Reprodução)

"Um policial chegou e disse que desde 1994 bate na torcida do Brasil e vai continuar batendo".

"Só se escutava aquele pá, pá, pá".

"As pessoas acham que imaginam como foi, pelos relatos. Mas não tem como imaginar. Só quem tava lá sabe".

As frases acima foram ditas à reportagem do Diário Popular por dois torcedores do Brasil que presenciaram e também foram alvos da abordagem da Brigada Militar após o jogo do último domingo (1º), contra o São José, em Porto Alegre. Os relatos são de tortura. Ameaças psicológicas, tapas, chutes, uso de gás de pimenta, imposição a situações desumanas.

Depois da confusão nas arquibancadas do estádio Francisco Noveletto, 12 torcedores xavantes ficaram retidos pela BM. Um deles, Raí Duarte, sofreu as piores consequências. Acabou hospitalizado, passou por duas cirurgias e está em estado grave. Ele ficará sedado, a princípio, até sexta-feira (6). A perfuração no intestino e a hemorragia interna são complicações oriundas dos excessos de alguns policiais na abordagem.

Raí foi retirado por policiais de um dos ônibus de uma das excursões, antes do retorno a Pelotas. Cerca de uma hora mais tarde, chegou ao hospital precisando de socorro imediato. A BM instaurou inquérito para avaliar, internamente, a conduta dos membros do 11º Batalhão que estavam envolvidos nas ações.

"Não foi usada arma de fogo nem munição menos letal, apenas spray de pimenta, que é uma arma para controle civil. Não houve utilização de qualquer tipo de armamento. Com base no relato que foi feito nas mídias sociais e nos vídeos que circulam, foi decidida a instalação do inquérito", disse o tenente-coronel Luis Felipe Neves Moreira.

Veja, a seguir, os fortes relatos. Os dois torcedores, por segurança, preferiram não se identificar.

Relato 1

Vieram dois caras com ele [Raí]. O que cara que tirou ele, chegou, tirou o capacete e disse “cadê tu, valentão?”. O pau pegou. Pensa em apanhar. Eles bateram muito. Bateram em nós também, mas bem menos que nele. Cassetete, gás de pimenta, tapas no rosto. Um chegou e disse que desde 1994 bate na torcida do Brasil e vai continuar batendo. A coisa funciona assim, ninguém vai mudar isso.

Levaram ele para um canto, uma peça, no lado esquerdo ali. Levaram e surraram ele em uma sala. Os colegas trocavam tudo para bater nele. Iam lá outros para bater. Depois deixavam ele tomar um gás e recomeçava. Tudo em um cantinho onde nos encurralaram, no cantinho de cara para o portão. Eu, por exemplo, deitei com a cara no chão, algemado. De vez em quando vinham, pisoteavam. Com o Raí, da última vez, mandaram ele levantar mas não tinha condição nenhuma, e aí arrastaram pelas pernas.

Ele nunca apresentou resistência. Apanhou quieto. Era muita gente batendo. Dali onde nós estávamos, saímos de camburão, fomos para o HPS. Éramos 12. O Raí foi em outra viatura, talvez pelo estado dele, não posso te confirmar, foi sozinho. Chegou lá mal já. Tomara Deus que ele saia. Eu errei, todos nós que estávamos ali fizemos burrada, não era para ter feito. Poderiam dar uns tapas para aprender, como se diz, mas não precisava do excesso, nada disso. Tinham um sangue nos olhos para bater e continuar. Parte psicológica também. Foi punk, e nada justifica.

Relato 2

Posso falar o que eu vi. Mas na verdade ouvi, porque a gente não podia levantar a cabeça. Alguns policiais do 11º Batalhão nos pegaram num canto, próximo da bandeirinha de escanteio. Já chegaram mandando todo mundo virar para a parede. Achei que não aconteceria nada, só registrar uma ocorrência e tchau. Quando a gente virou de costas eles começaram a bater. Só se escutava aquele “pá, pá, pá”. Eu sabia que ia chegar em mim, mas queria que fosse o menos possível. Eles tavam dando sem pena. Aí que começou.

Depois eles algemaram todo mundo e mandaram ficar com a cara no chão. No primeiro momento a gente era 11. Não tínhamos noção de tempo, mas acredito que tenhamos ficado uma meia hora. Eles ameaçavam, dizendo que “lá em Pelotas não puxam as rédeas de vocês, aqui é um inferno”. Todo o tempo a gente não podia olhar pra eles. As pessoas acham que imaginam como foi, pelos relatos. Mas não tem como imaginar. Só quem tava lá sabe. É tortura o que aconteceu lá.

Veio um policial e jogou spray de pimenta na cara de todo mundo. Parecia um extintor, era um jato. Foi de ponta a ponta e depois voltou com aquele jato. Ninguém reagia, ninguém respondia. Nisso chegou o Raí, que eu até então não conhecia. Levaram ele para dentro do estádio e começaram a ameaçar. Deu a entender que o Raí já foi policial, temporário, e pelo fato de ter sido temporário esculacharam ele. O cara que é abordado tem direito a saber por quem foi abordado, e foi isso que ele falou, que queria ver o nome. E aí começaram a chamá-lo de brabão, de machão.

“Vamos conversar em outro lugar”, disseram. Acredito eu que fosse uma sala. Na arquibancada acho que não foi, mas alguma sala próxima atrás do gol defendido pelo goleiro do São José no segundo tempo. Levaram o Raí pra lá e a gente só escutava o barulho. Era “pá, pá, pá, uma atrás da outra”.

Depois dali nos levaram ao hospital. A gente ficou um baita tempo para ser atendido, e quando fomos atendidos o médico nos chamou na sala, acompanhados da polícia, algemados todo o tempo. O médico me fazia perguntas e quem respondia as perguntas era o policial. Três ficaram em observação. Os outros nove, incluindo eu, ficaram ali na frente. Começou a me dar um mal estar. Nos botaram dentro da viatura para ir até a delegacia. Do estádio até o hospital, eram seis pessoas dentro do porta-malas. Ficamos mais de meia hora, dentro da viatura, apertados, sem liberação.

Na hora que a gente estava sentado, eles pediram o RG. Um torcedor só tinha o CPF, e aí tomou um tapa na cara. No final, tomei um tapa no ouvido de um policial e tá me doendo até agora, já faz 48 horas. Quando nos colocaram no porta-malas da viatura, nos obrigaram a ficar gritando “Viva o Choque, viva o Choque”.

Ajude o Raí

  • PIX (CPF): 550.289.420-72 (Marta Moraes Cardoso, mãe de Raí).

Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados