Lobo

Como Colbachini vê o jogo

Em entrevista ao portal Footure, novo técnico do Pelotas fala abertamente sobre futebol e como pretende implementar as ideias na Boca do Lobo

29 de Maio de 2020 - 18h08 Corrigir A + A -

Por: Vinícius Guerreiro
vinicius.guerreiro@diariopopular.com.br

Colbachini falou abertamente das ideias de jogo e sobre o que pretende executar na Boca do Lobo  (Foto: Tales Leal/ECP)

Colbachini falou abertamente das ideias de jogo e sobre o que pretende executar na Boca do Lobo (Foto: Tales Leal/ECP)

Poucos geradores de conteúdo esportivo deixam os entrevistados tão à vontade quanto o Footure. O projeto, que além de produzir conteúdos analíticos e jornalísticos sobre futebol também produz cursos e trabalha com análise de desempenho profissional, entrevistou o novo técnico do Pelotas, Ricardo Colbachini. Durante uma hora, no programa Footure Insider, Colbachinhi esclareceu a própria filosofia do futebol e como pretende implementar essa ideia no Boca do Lobo para o restante da temporada. O Diário Popular fez um recorte dos principais pontos da esclarecedora entrevista do comandante áureo-cerúleo. O material de vídeo você pode acompanhar no canal do Youtube do Footure.

Contexto versus as próprias ideias

“Estar muito atento à diversidade da competição. Tive acesso na Série D para a C com o Juventude e sei o quanto é difícil. Tem que respeitar a competição que nós estamos e a cultura do clube. Gosto das equipes competitivas, que marquem alto e que tentem propor o jogo. Utilizo rondo, trabalhos de posses e conceitos. Primeiro trabalhar micro e depois transferir essas ideias e comportamentos para o espaço maior de jogo”.

“Gosto de sair jogando de pé em pé. Desde o goleiro, construir o jogo apoiado. Ficar com a bola é o jeito que eu acredito que é possível chegar às vitórias, mas quando precisar baixar as linhas, não podemos ter vergonha”.

“Mudança imediata após a perda. Ter bastante gente por dentro para poder roubar essa bola rápido. Se um ou dois demorarem, o adversário sai da pressão e temos que correr 80 metros para trás”.

Atletas corajosos

“É melhor ter um atleta que tenha 70% de acerto no passe, mas que tenha coragem de arriscar, que um que acerte 100% dos toques para o lado ou para trás. O jogador vai ter que correr riscos para que a gente possa construir alguma coisa grande. O atleta precisa estar sempre escaneando o ambiente para ganhar velocidade, ganhar o espaço e executar o passe certo”.

“O que me incomoda muito é o cara errar e não corrigir. Errar o passe e não pressionar para consertar. O companheiro errar e o cara não tentar corrigir o erro. O erro de passe e técnico faz parte do jogo, temos que estar preparados é para consertar o erro. A equipe inteira precisa estar concentrada e preparada para corrigir o erro do colega. Isso é filosofia de equipe”.

Mentalidade

“Quanto o atleta consegue sustentar o esforço, quanto ele é forte para trabalhar para a equipe, quanto ele consegue se doar para o time, quanto ele é solidário? Eu gosto muito de falar isso para as minhas equipes, o quanto a gente é solidário para atacar e para defender. Precisamos estar próximos, o centroavante tem que contagiar os outros. Ele tem que ser o primeiro cara a dar o start na marcação. É importante essa energia do centroavante que vai contagiando a equipe”.

“Têm jogadores que possuem na Série D nível técnico parecido com atletas da Série A, mas precisam trabalhar em si essas situações para chegar no alto nível. Melhorar essa mentalidade, essa busca incansável para adquirir os objetivos dele”.

Sair da zona de conforto

“Isso se estimula nos treinos, fazer que os treinos sejam curtos. Os espaços das atividades vão fazer um rondo, uma posse, com uma intensidade altíssima. Cobrar o máximo deles as ações com intensidade. Não se pode ter um treino muito volumoso, treino lento e depois querer um jogo diferente”.

“Nossa ideia é propor o jogo, mas de forma alguma é deixar de competir. É disputar primeira e segunda bola. Não deixar de ser uma equipe agressiva, pois se você abrir mão dessas situações, vai sofrer e não vai ficar com a bola. Na hora das disputas tem que estar bem organizado para você vencer esses duelos”.

“Mais importante do que querer marcar baixo ou marcar alto, tu tens que conseguir convencer o teu atleta de que aquilo funciona, de que é interessante para o crescimento dele. Primeiro é conseguir ganhar o respeito do atleta e fazer ele comprar a ideia. A partir do momento que o atleta compra a ideia, tu fazes trabalhos conceituais para que ele comece a sentir vantagem em executar aquilo. Ele começa a ver aquilo dando certo, ele vai mudando e quebrando paradigmas que ele tem”.

Identificação dos atletas

“Vamos pegar o zagueiro que está acostumado a jogar próximo do goleiro, o ataque sai para pressionar, a defesa não compacta o jogo e o time fica espaçado. Na cabeça do zagueiro, ele não está tomando bola nas costas, mas tu deixas espaço para o meia flutuar entre linhas. Ele não vai tomar bola nas costas, mas tu começas a mostrar com vídeos, muita análise, sentar com eles e mostrar que o único espaço efetivo que os caras vão ter é nas costas da tua defesa. Pois ali na frente não vai ter espaço para meia e atacante flutuarem. Por isso é importante mostrar os vídeos, mostrar a ideia para que eles gostem de jogar assim. Eles precisam ter convicções. É importante que os atletas se sintam parte. Independe do modelo. 

“Os jogadores têm a liberdade para falar, isso é sempre bem vindo. O atleta precisa participar da construção da ideia de jogo. Não se pode chegar lá e obrigar os atletas a fazerem. Preciso escutar as ideias e refletir para ver se será útil ou não”.

Qualidade técnica e jogo coletivo

“Hoje em dia está cada vez mais difícil tu jogares com um zagueiro que tenha dificuldade no passe, pois quando enfrentarmos equipes que recuam atrás do meio são os volantes e os zagueiros que mais tocam na bola. Então é fundamental que os zagueiros passem bem a bola e que os volantes comecem a construir bem o jogo. A característica de cada posição tem mudado bastante, o jogo está mais espremido e a tomada de decisão virou ainda mais fundamental para o jogo”

“Hoje cada vez menos vai ter jogador que decida o jogo sozinho. Hoje as linhas estão tão próximas, tu driblas um, driblas dois, mas é muito difícil tu passares por três ou quatro adversários. Cada vez a gente vê menos o jogo ser decidido de forma individual. O jogo está caminhando mais para ser decidido de maneira coletiva. Os jogadores têm que pensar juntos e decidir juntos”.


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