Aulas

Jovens com deficiência são os mais afetados pelo ensino remoto

Relatos de mães contam a relação sobre os últimos dois anos de adaptação

23 de Agosto de 2021 - 08h29 Corrigir A + A -
Dedicação. Fernanda se esforça para que os filhos mantenham o foco nos estudos (Foto: Jô Folha - DP)

Dedicação. Fernanda se esforça para que os filhos mantenham o foco nos estudos (Foto: Jô Folha - DP)

 

A inclusão de jovens com deficiência no ambiente escolar convencional ganhou novo desafio na pandemia. Minoria nas salas de aula, estes alunos, que têm na integração social com outras crianças seu desenvolvimento cognitivo e físico, se viram silenciados atrás de uma tela de computador. Famílias veem seus pequenos e adolescentes em meio ao fogo cruzado da adaptação ao ensino remoto. Para aqueles que necessitam de situações concretas, didáticas e interativas, as atividades à distância perdem sentido. A falta de acessibilidade dos materiais e das aulas prejudicam o aprendizado. Problemas que, sobretudo na Semana Municipal da Pessoa com Deficiência, ganham ainda mais necessidade discussão.

Mãe de Márcio, portador de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), Eliane Bittencourt conta que o jovem de 16 anos tem se adaptado às videoaulas. Entretanto, possui dificuldades com o material de texto enviado pela escola pública. “Ele é muito de conversar com as pessoas, então as aulas que vêm pelo Google Meet, com vídeo, movimentação ou fala do professor ele até quer fazer. Mas quando isso não acontece, ele não faz. Se nega e pede pelo professor”, relata.

Por ser autista, Márcio possui aulas ministradas por uma professora especial, com uso de imagens e recursos que buscam cativar sua atenção. Quanto a isso, Eliane reafirma sobre a necessidade do cumprimento do Plano Educacional Individual (PEI), com uma estratégia que estabelece um planejamento escolar individualizado, visando as necessidades específicas do aluno. “Cada aluno é um. Tem aluno que consegue fazer atividade pela plataforma, tem aluno que não. As aulas do Márcio, por exemplo, deveriam ser todas com professor falando, aí ele faria todas.”

Passando por dificuldade semelhante, Fernanda Braz é mãe de dois: Paulo Fernando, de 15 anos, e Isabely, de oito. O jovem possui hemiatrofia cerebral que, dentre outras consequências, causa dificuldades de aprendizagem. Desde que foi sancionada a Lei da Inclusão, Paulo estuda em uma escola convencional. Com o filho no 8º ano do Ensino Fundamental, Fernanda relata que, com a pandemia, tem notado grande dificuldade no desenvolvimento do filho e no quesito aprendizagem com a ministração do modelo remoto. “Ele não copia. Para que ele faça isso alguém precisa soletrar para ele. Se der uma atividade ele não vai ler, tu explica ou utiliza gravuras ou ele não entende.”

Com a dificuldade de concentração para uma videoaula, a situação foi agravada pela falta de estrutura, como internet adequada. Por isso, a mãe precisou inovar. Desenhos, feijões para exemplificar contas são algumas das estratégias que usa, mas avalia como insuficientes em algumas ocasiões. “Eu não sei se ele entende, se ele está aprendendo comigo, pois às vezes até eu tenho dificuldade de explicar. Me sinto impotente com o que vai ser dele”, lamenta.

Com déficit de atenção, a irmã também tem enfrentado dificuldades no ensino remoto. “Quando ela estava na escola, tinha o apoio. Nós fizemos uma atividade, ela piscou o olho e esqueceu”, conta Fernanda. Ela ainda afirma que em diversas vezes colegas ajudavam Fernando e Isabely, o que mostra a importância da inclusão.

Fala de ministro repercute

Em entrevista no último dia 9, o ministro da Educação, Milton Ribeiro afirmou que estudantes com deficiência em salas de aula convencionais “atrapalham” outros alunos. Diante da repercussão negativa, tentou justificar na quinta-feira passada: “Temos hoje 1,3 milhão de crianças com deficiência que estudam nas escolas públicas. Desse total, 12% têm um grau de deficiência em que é impossível a convivência”, disse.

De acordo com dados mais recentes do IBGE, das 1,3 milhão de crianças e jovens com deficiência matriculados na educação básica, 13,5% estudam em salas ou locais exclusivos e 86,5% estão integrados a turmas convencionais.

Eliane Bittencourt, que também preside a Associação de Amigos, Mães e Pais de Autistas e Relacionados com Enfoque Holístico (Amparho), comenta que a manifestação do representante do governo federal provocou “profunda tristeza”. “É um absurdo. Ainda mais vindo de um governo, uma pessoa pública. O que atrapalha não é uma pessoa com algum tipo de diferença. É a falta de profissionais, a falta de estrutura, materiais para receber e acompanhar essas crianças”, critica.

PL voltado à inclusão

Desde 2015 o ensino inclusivo é regulamentado por lei. Escolas particulares e públicas devem receber estudantes com deficiência, sendo proibida a limitação de matrícula e exigências adicionais (por exemplo, a cobrança adicional pelas adaptações).

Aprovado terça-feira passada pelo Senado, o projeto de lei 2.201/2021 é visto como novo passo para a inclusão ao prever que crianças e adolescentes com deficiência ou doenças raras tenham prioridade na matrícula em creches, pré-escolas e instituições de ensino Fundamental ou Médio, públicas ou subsidiadas pelo Estado. O texto precisa ser votado na Câmara dos Deputados e, se aprovado, sancionado pelo presidente.

Programação 22ª Semana Municipal da Pessoa com Deficiência

23/08 às 19h30min - Live com participação do presidente da Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para PcD e Pcah no RS, Marcos Lang (Transmissão no Facebook Comped Capão do Leão)

24/08 às 10h - Live Comitê Gestor: Roda de conversa sobre acessibilidade no turismo e lazer em Pelotas (Google Meet)

25/08 às 16h - Desfile Associação de Pais de Down de Pelotas (ApadPel) (Facebook e Instagram da entidade)

26/08 às 11h30min - Inauguração da sala de projetos da Amparho na Sala Ryan Favarin Gulart
às 18h - Projeto Gincana Inclusiva de escolas especiais
às 19h - Live sobre desafios da família da pessoa com deficiência em tempos de pandemia

27/08 às 10h - Audiência pública na Câmara de Vereadores
às 19h - V Ciclo de Oficinas: Desafios e práticas no ensino remoto e híbrido

28/08 - Encerramento com filme e premiação da Gincana Inclusiva (YouTube do Conselho da Pessoa com Deficiência e Altas Habilidades de Pelotas)

* Mais informações podem ser obtidas diretamente através do Conselho


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