Economia

Zona Sul gera vagas, mas em ritmo inferior ao RS

Dados apontam que 88,4% dos contratados no Estado são jovens de até 29 anos

25 de Janeiro de 2022 - 19h36 Corrigir A + A -
Taise, 25, conseguiu um emprego durante a pandemia.  (Foto: Jô Folha - DP)

Taise, 25, conseguiu um emprego durante a pandemia. (Foto: Jô Folha - DP)

Por Gabriela Borges
web@diariopopular.com.br

As vagas formais de emprego, fortemente afetadas pela pandemia da Covid-19, estão voltando a surgir no Rio Grande do Sul. Em um levantamento divulgado ontem, o Departamento de Economia e Estatística (DEE) do governo do Estado mostra retomada nas contratações, com ampliação de 6,2% em relação ao ano anterior.

Apesar de todas as regiões gaúchas terem apresentado crescimento entre novembro de 2020 e o mesmo mês de 2021, a Zona Sul foi a que teve o desempenho mais tímido: o número de pessoas em postos de trabalho formal aumentou 4,9%. Bem abaixo do Litoral Norte, que se destacou com alta de 10,7%.

Em 2020, Pelotas teve saldo negativo de 1.860 postos de trabalho. Já em 2021 terminou com 4.051 admissões a mais do que encerramentos de contratos. Os setores com mais desligamentos em 2020 - serviços e comércio - foram os que mais contrataram mão de obra no ano passado, segundo os índices do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Jovens foram os preferidos

O documento divulgado pelo DEE também indica outro fenômeno: as novas vagas formais no Estado têm sido ocupadas majoritariamente por jovens de até 29 anos. O grupo representou 88,4% das contratações no período analisado.

É o exemplo de Taise Santos da Silva, 25, que trabalhava como freelancer antes da pandemia. No início do isolamento ela suspendeu suas atividades por medo de contaminação, mas quando se sentiu segura, em junho de 2021, logo conseguiu se recolocar. Em menos de duas semanas de procura, Taise foi contratada como caixa em uma lotérica no Calçadão de Pelotas. Hoje, com a carteira de trabalho assinada, afirma ter mais tranquilidade, pois têm garantido o seu descanso remunerado, férias e, caso venha a ser demitida, tempo para procurar outra atividade. "Antes, se eu não trabalhava, eu não ganhava", lembra.

Na outra ponta, pessoas acima dos 50 anos encontram dificuldades de se manter ou reingressar no mercado. Tônia Freitas, 60, era diarista fixa e atendia todos os dias até o verão de 2020, mas foi dispensada no início do isolamento social pelas famílias que lhe contratavam. Quase dois anos depois, não tem conseguido preencher sua agenda. "Agora é raríssimo. Às vezes é uma [faxina] por semana, duas, e olhe lá", desabafa. Segundo o DEE, a realidade de Tônia tem sido comum para trabalhadores mais velhos: as contratações da população de 50 a 64 anos reduziram em 5,8%, e de 65 anos ou mais, em 2,8%.

Precariedade

Apesar das empresas gaúchas estarem buscando pessoas mais qualificadas para os cargos (59,3% dos novos contratados têm, no mínimo, o Ensino Médio completo), a formação não trouxe reflexos positivos às condições de trabalho."Vem ocorrendo um aumento na taxa de informalidade desde o 3º trimestre de 2020, o qual teve continuidade no 3º trimestre de 2021. Isso quer dizer que a recuperação do nível de ocupação tem se dado, em alguma medida, baseado em condições mais precárias", explica o pesquisador da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão, Raul Bastos. O salário médio também diminuiu R$ 247 em um ano. No terceiro trimestre de 2021 o valor pago era de R$ 2.730, enquanto no mesmo período de 2020 foi de R$ 2.977.

Os salários inferiores, na avaliação do presidente do Centro das Indústrias de Pelotas (Cipel), Amadeu Fernandes, seriam uma consequência do momento em que as empresas pelotenses buscam se manter em funcionamento. "Com os grandes custos de matérias-primas que têm existido não só no Brasil, mas no mundo inteiro, as empresas estão sendo obrigadas a aumentar seus custos também, e têm alguns setores que são menos competitivos, com menos concorrência, então eles têm que readequar seus custos para poder continuar no mercado e ter competitividade", aponta.

A situação foi ponderada pelo pesquisador Guilherme Xavier Sobrinho, em nota divulgada pelo DEE à imprensa. "O viés etário na expansão do emprego formal merece especial atenção, uma vez que o emprego dos mais jovens se associa a remunerações mais baixas, contratos menos duradouros e engajamento de indivíduos com pouca experiência no exercício de suas funções", avalia.

Falta de indústrias pesa na região

Coordenador do Fgtas/Sine Pelotas, Glauber Burkle confirma que a maior parte das vagas ofertadas na agência são para os setores de comércio e serviços. Ele também aponta o alto índice de empregabilidade na construção civil em Pelotas. "O que nos falta é indústria. A gente vê que regiões mais industrializadas foram as que mais tiveram crescimento de vagas de emprego. Ou região turística, como é o litoral norte", pondera.

A explicação é a mesma dada pelo presidente Cipel. "A região é pouco industrializada e nesse momento de recuperação, o setor que realmente pesa é a indústria. Foi o que aconteceu, a retomada da indústria no Rio Grande do Sul e em outras regiões, menos em Pelotas", coloca.

O baixo desempenho da Região Sul no setor industrial já tem sido percebido em estudos anteriores divulgados pelo DEE. Após o período de crescimento econômico com material de transportes, estruturas de metalurgia e química, com Polo de Rio Grande até 2014, de 2015 a 2017 foram perdidos 32,5% dos empregos na área.

Bons índices na construção civil

Ao longo de 2020, a construção civil foi o único setor que não apresentou quedas nas contratações em Pelotas, obtendo crescimento de 4,84%. A expansão seguiu em 2021, com um aumento de 23,2%, segundo o Caged. Apesar do progresso, o número de pessoas empregadas é reduzido em comparação a outras funções. Em 2021, somente 4,5 mil pelotenses conseguiram ingressar na área, abaixo apenas do setor agropecuário.

A diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Indústrias e Construção Civil Mobiliário de Pelotas (Sticmpel), Gilda Jacobsen, diz que o aumento das vagas não têm trazido melhorias aos trabalhadores. "Com a pandemia, as empresas só tiveram lucro. Mas elas não querem dar aumento. Estão realmente bem defasados os salários". Segundo o Sindicato, os salários de servente e de pedreiro, de R$1616,50 e R$1636,29, respectivamente, não são atualizados desde 2019.


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