Inflação

Sofrimento ao consumidor: 2021 atingiu a maior inflação em sete anos

Com variação de 10,06%, principais altas de preço foram sentidas nos setores de habitação, transporte e alimentação

11 de Janeiro de 2022 - 20h55 Corrigir A + A -
Dona Sandra Maria sentiu o efeito da inflação de 2021, maior dos últimos anos (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Dona Sandra Maria sentiu o efeito da inflação de 2021, maior dos últimos anos (Foto: Carlos Queiroz - DP)

É difícil encontrar um brasileiro que não tenha se assustado ao pagar contas como a de energia elétrica ou na hora de fazer compras voltadas à alimentação nos últimos 12 meses. A suba nos preços de diversos itens em 2021 tem uma explicação: a inflação oficial do ano passado registrou a maior alta dos últimos sete anos, chegando a 10,06%. O resultado foi sentido no bolso do consumidor e atingiu em cheio famílias de baixa renda, que foram obrigadas a recorrer a doações.

Os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgados na tarde de ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que, embora a desaceleração da inflação em dezembro, esta não impediu que o resultado final estourasse o limite do sistema de metas, que era de 5,25%. O Brasil não registrava uma variação grande deste tipo desde 2015, quando ficou em 10,67%.

Entre os principais vilões estão os combustíveis e a energia elétrica. Itens alimentícios também tiveram efeito negativo sobre o bolso do consumidor. Juntos, os setores de transporte, habitação e alimentação correspondem a 79% do IPCA. Já o maior impacto foi nos combustíveis, com um aumento de 49% sobre valores repassados - a gasolina com acréscimo de 47,49% e o Etanol de 62,23%, seguidos pelo gás de cozinha, com aumento de 36,99%.

Tendo como motivação a escassez hídrica que assolou os principais reservatórios de água do país, a energia elétrica sofreu um aumento de 21,21%. Os problemas na geração de energia levaram à criação de uma nova bandeira, com acréscimo de R$ 14,20 a cada 100 kWh consumidos. Esta entrou em vigor em setembro e deve ser mantida até abril deste ano.

Impacto direto para a dona Sandra Maria Afonso, 61, que teve sua luz cortada recentemente por falta de pagamento. Recebendo benefício assistencial devido a doenças cardíacas, ela destina 90% do dinheiro mensal para a compra de medicamentos voltados ao tratamento no coração, de pressão alta e catarata. "O preço dos remédios, cada vez que vai na farmácia é um valor diferente e maior. Ou tomava remédio ou pagava as duas contas de luz, que chegavam a quase R$ 300,00 juntas", conta. "A gente nota que o rico segue rico, mas aquela chamada classe média está ficando pobre e a gente, que é pobre, está quase na miséria".

A alimentação da idosa também precisou passar por mudanças nos últimos meses. Não tratando-se do cardápio, mas do modo de obter itens básicos. "Tive que pedir ajuda para a Cufa [Central Única das Favelas]. O que restava de dinheiro antes para poder comer, hoje dá meia dúzia de coisa, que não dá para passar o mês".

Itens alimentícios entram na cota de menos impactados pela a variação. Se comparado a 2020, o efeito foi menor, sendo 14,09% e 7,94%, respectivamente. Entretanto, alimentos que marcam presença no dia a dia do consumidor brasileiro tiveram aumento de preço drástico. Com destaque para café (50,24%), mandioca (48,08%) e açúcar refinado (47,87%).

Dona de casa, Simone Duarte, 40, precisa dar de comer a seus quatro filhos. A ajuda para alimentação tem vindo de movimentos sociais, como a Cufa, Poder Público ou da escola das crianças. Atividades de lazer não fazem mais parte do vocabulário desde o aumento de preço de itens básicos e a necessidade de doações, porém o uso de medicamentos controlados, necessários para o tratamento de doenças a qual é portadora, também não ocorre há meses por conta da falta de dinheiro.

"Está tudo muito caro, a gente deixa de comer porque não tem dinheiro, está bem difícil. Por ter obesidade mórbida, recebo medicamento do SUS [Sistema Único de Saúde], mas quando acaba e eu teria que comprar, por não ter dinheiro, sou obrigada a parar de tomar", explica.

Papel de alívio à população

Com a alta nos preços de itens básicos, os pedidos de ajuda aos movimentos sociais não param de crescer. Na Cufa Pelotas, por exemplo, 500 pessoas são atendidas, sendo 150 novos cadastros realizados entre os meses de janeiro a agosto de 2021. Após, a Central precisou encerrar a aceitação de novas famílias, porque tornou-se incapaz de oferecer cestas básicas devido à escassez de doações.

"Certos problemas dentro dos nossos territórios só têm se acentuado. As nossas 'Mães da Favela' fazem malabarismos com seus orçamentos e muitas das vezes desvestem um santo para vestir outro", afirma o coordenador responsável pelo movimento em Pelotas, Sandro Mesquita.

Ele ainda levanta o questionamento de como retomar o desenvolvimento econômico se são as próprias pessoas que não são desenvolvidas em um cenário profissional. "É necessário o fortalecimento da rede de apoio e solidariedade que são os trabalhos sociais existentes em nossas favelas. Mais que alimentos, é preciso capacitações e estrutura mínima para confecção de cursos de geração de trabalho e renda, de empreendedorismo, de qualificação profissional que está dentro dos aspectos do IDH [Índice de Desenvolvimento Humano]", finaliza.


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados