Pandemia

Ninguém para dividir a conta

Restaurantes e lancherias noturnos buscam autorização para reabrir e tentar conter onda de demissões

30 de Março de 2021 - 08h30 Corrigir A + A -

Por: Henrique Risse
henrique.risse@diariopopular.com.br 

Espaços que atraíam clientes estão sob restrição durante a pandemia (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Espaços que atraíam clientes estão sob restrição durante a pandemia (Foto: Carlos Queiroz - DP)

A pandemia do coronavírus atingiu as pessoas de diversas formas. Além da saúde física e mental, a nova realidade fez e segue fazendo estragos na economia. Entre todas as categorias afetadas, a dos restaurantes e lancherias com funcionamento exclusivamente à noite é uma que ainda não enxerga perspectiva.

Devido às diversas alterações nos decretos estaduais e municipais, esses empreendimentos vivem um eterno abre e fecha desde março de 2020. Atualmente, as bandeiras preta e vermelha no modelo do Distanciamento Controlado do Rio Grande do Sul proíbem que restaurantes abram depois das 20h.

“A gente entende a gravidade e eu não quero, de jeito nenhum, liberar tudo. Longe de mim achar que está errado. A gente só está pedindo o direito de trabalhar para se manter e manter o emprego dos nossos funcionários. Eu não acredito que uma pessoa sentar em um restaurante para comer e ir embora ao meio-dia não tenha problema, mas às oito da noite tenha. Nós só queremos igualdade, o que vale para um tem que valer para todos”, aponta Shana Dockendorff, gerente de um restaurante na avenida Dom Joaquim, em Pelotas.

Desde o início da pandemia, representantes de alguns destes estabelecimentos se uniram para, em um primeiro momento, entender as medidas restritivas definidas pelo governo. Hoje, porém, o grupo troca ideias e se mobiliza para tentar voltar ao trabalho. Segundo levantamento feito pelos empreendedores, apenas nos restaurantes do grupo, 538 pessoas perderam o emprego devido à crise.

“Restaurantes fechados há um ano, muitas demissões. E tem gente que precisaria demitir pessoas por não ter condições de pagar a folha, só que também não tem condições de arcar com multa rescisória e indenização. Chegou a um ponto que muitos estão totalmente desarmados e não se vê uma luz no fim do túnel. Muitos estão fechando e quem não está fechando ou é porque tem dinheiro, ou porque não tem condições de demitir os funcionários”, lamenta Shana, que precisou dispensar 19 funcionários nos últimos 12 meses.

Reunião com vereadores

Na semana passada, o grupo ligado à gastronomia procurou vereadores em busca de apoio à causa da categoria. Ainda que o Legislativo tenha concordado com muitas das reclamações, a permissão para operar depois das 20h precisa vir do governo do Estado. Os empresários pelotenses defendem que fique permitido abrir restaurantes e lancherias até as 22h, com a saída dos clientes até as 23h. Dono de uma pizzaria, Juscelino Vieira da Cunha afirma que a prioridade no momento é manter as empresas abertas e os empregos dos funcionários.

“Não existe nenhuma empresa que chegue em Pelotas que vá, em 24 horas, abrir o número de vagas de trabalho que nós vamos abrir se conseguirmos trabalhar até as 22h. Não existe empresa que abra 500 vagas sem benefício nenhum, porque a gente não tem benefício nenhum da prefeitura, isenção de taxa como as grandes empresas têm. Com esse horário até as 22h a gente não vai ter um lucro alto, mas pelo menos vamos conseguir manter a empresa e os funcionários trabalhando, que é o mais importante”, defende.

Na conversa com os vereadores, o grupo se propôs a contribuir com a fiscalização denunciando quem atuar fora dos protocolos. “Vamos ser fiscais. Se eu sei que alguém está trabalhando errado, sem distanciamento, permitiram até as 22h e ele está indo até as 23h, está colocando mais gente do que o permitido, eu mesma vou denunciar porque não quero mais ser prejudicada”, garante Shana.

Sindicatos lançam carta aberta

Nesta segunda-feira (29), sindicatos que representam os setores de gastronomia e hospedagem no Rio Grande do Sul divulgaram uma carta aberta em que relatam demissões em massa e fechamentos. No texto, as 13 entidades dizem que a situação destas empresas “ultrapassa todos os limites” e que a categoria também acumula dívidas para cobrir custos e tentar manter as atividades. O documento pede que haja a retomada, diante de protocolos de segurança, da permissão de funcionamento de bares, restaurantes e outros empreendimentos a partir da liberação de espaços públicos e pontos turísticos. “Estamos falando de mais de 25 mil empresas de alimentação e hospedagem, que geram mais de 220 mil empregos diretos e que garantem o sustento de cerca de 880 mil pessoas. São setores que há muito, desde 2016 mais precisamente, já amargavam uma crise econômica aliada a altos custos. Não pensem que este é mais um relato sobre dificuldades. Sobre lamento. É um manifesto em alto e bom som de indignação. E de total esgotamento do setor”, diz a carta. Entre as entidades que integram o manifesto está o Sindicato de Hotéis, Restaurantes Bares e Similares de Pelotas.


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