Aumento

Inflação reflete na manutenção do Restaurante Popular

Por conta do pouco recurso, o local já acumula um déficit orçamentário de aproximadamente R$ 100 mil

23 de Novembro de 2021 - 08h31 Corrigir A + A -

 Carlos Queiroz 530682

Serviço voltado a pessoas em vulnerabilidade social serve 400 refeições por dia (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Nos últimos dois anos, principalmente com o início da pandemia de Covid-19, o Restaurante Popular tem sentido dois aumentos significativos. Um é a suba no preços dos itens alimentícios e o outro a procura pelo serviço, já que a crise sanitária evidenciou ainda mais a desigualdade social que atinge o Brasil. No entanto, o valor pago pelos usuários por cada refeição e o repasse feito pela prefeitura se tornaram insuficientes, e o local já sofre com um déficit de aproximadamente R$ 100 mil.

Diariamente são servidas em média 400 refeições, sendo que aproximadamente 180 são entregues de forma gratuita a pessoas encaminhadas pela rede de assistência social do município. O coordenador técnico da Organização da Sociedade Civil (OSC) Gesto, que compartilha a gestão do restaurante com o Poder Público, Maiquel Fouchy, explica que a quantia paga pelos demais usuários pode chegar a até R$ 2,00, pois alguns chegam ao local com R$ 0,50 ou R$ 1,00 e recebem a refeição mesmo assim. Ele ressalta ainda que não são atendidos apenas moradores de rua, mas também pessoas em situação de vulnerabilidade social.

O contrato firmado com a prefeitura cobre 386 refeições. O excedente e a gratuidade são custeados pela OSC, que se mantém através de doações. O Executivo repassa mensalmente R$ 63 mil à Gesto, segundo Fouchy. As despesas, porém, chegam a um valor próximo de R$ 110 mil. O coordenador conta que, ao todo, o pagamento dos usuários pelas refeições alcança mais ou menos R$ 8 mil, porém no, somatório total, incluindo as despesas, a conta não fecha e o restaurante já acumula um déficit no orçamento de aproximadamente R$ 100 mil. "Ontem nós recebemos um questionamento da prefeitura porque com o recurso que eles repassaram de setembro a gente pagou despesas de agosto e justificamos que devido ao alto número de pessoas que buscam o serviço e ao aumento nos preços dos produtos, e considerando que eles repassam o mesmo valor desde 2017, não dá para fazer mágica", comenta.

Aumento nos preços e na procura

Durante a crise sanitária causada pelo coronavírus a procura pelo Restaurante Popular aumentou 60%, segundo Fouchy. O encaminhamento de pessoas para receber as refeições de forma gratuita também cresceu. O problema é que o preço dos produtos necessários para fazer o almoço também subiu. "O tomate na semana passada a gente chegou pagar R$ 9,00 e nos ofereceram até a R$ 12,00 o quilo. Para se ter uma noção, a gente gasta em torno de R$ 20 mil em proteína animal por mês. Não tem como oferecer um almoço sem garantir os nutrientes necessários, é complicado", ressalta. O coordenador ainda explica que o cardápio é elaborado por nutricionistas.

Mesmo com a procura pelo restaurante já sendo maior, Fouchy acredita que exista demanda para aumentar o número de refeições e que atualmente o local ainda não atende 30% do total de necessitados. "Se a gente parar para pensar, as pessoas que frequentam o Restaurante Popular são pessoas que moram nos arredores do Centro. Mas aqueles que moram nos demais quatro grandes bairros da cidade, Três Vendas, Fragata, Areal, São Gonçalo, como eles chegam aqui? Às vezes a gente encontra aqui pessoas que até tem arroz e feijão, mas não o gás", comenta.

A pandemia também trouxe uma nova necessidade, que é a compra de marmitex de alumínio e de talheres descartáveis, já que atualmente os usuários não comem no local, apenas recebem a refeição devido aos protocolos sanitários. Isso também gera um custo à instituição. No momento, a estrutura do prédio está passando por adequações e a expectativa é de que os almoços possam voltar a ser servidos em seu interior no dia 22 de novembro.

Um serviço necessário

Entre os usuários, não há dúvidas sobre a importância do Restaurante Popular. A aposentada Nara Pavulack, 66, conta que somente com seu benefício não seria possível cobrir as despesas com medicamentos, alimentação, gás, água, luz e aluguel. Outro fator que levou Nara a procurar o serviço, é que, por ser deficiente visual, não consegue cozinhar. "Isso aqui [o Restaurante] é mais que importante, porque o que a gente faz com R$ 2,00 hoje em dia? Nada", aponta a aposentada.

Quem também busca diariamente o serviço no local são as amigas Stephane Domingues e Brenda Duarte, ambas de 19 anos. Acompanhadas dos filhos, as jovens que recebem o almoço de forma gratuita há dois anos dizem que as refeições ajudam muito, principalmente neste momento de pandemia, em que acabaram tendo que ficar em casa para cuidar das crianças. "Se a gente não tivesse a marmita para pegar aqui, não saberíamos o que dar para eles [os filhos] comerem", comenta Stephane. Ela conta ainda que às vezes trabalhava com o marido nas carroças catando material reciclável, mas que agora ele conseguiu uma oportunidade de emprego. No entanto, mesmo assim ainda não é possível cobrir os gastos. Já Brenda, mora com o companheiro e o filho em uma peça nos fundos da casa de sua avó. Ela conta que a estrutura não conta nem com banheiro.

As amigas relatam que para o próximo ano a expectativa é de conseguir colocar os filhos na creche e arrumar um emprego para poderem contribuir nas despesas da casa e conseguirem ter uma vida com um pouco mais de conforto.

O que diz a prefeitura

Em nota, o Poder Público informou que os R$ 64,8 mil pagos mensalmente à OSC Gesto são para o fornecimento de 386 refeições, sendo 89 gratuitamente e o restante para cobrir o custo simbólico de R$ 2,00. Sobre a atualização dos valores repassados, um novo edital para contratar uma Organização para gerenciar o serviços está sendo preparado pelo município, já que o convênio atual está em fase final. A OSC Gesto pode participar do processo, caso se habilite. No contrato está prevista a correção dos valores, além da gratuidade e do preço cobrado pelas refeições.

Como a comunidade pode ajudar

Fouchy explica que, muito além de um espaço que serve refeições, o Restaurante Popular oferece ainda outros serviços a pessoas em vulnerabilidade social, como cursos e outras atividades. Para ajudar a manter todos esses serviços, a comunidade possui duas formas de colaborar. Uma é através de doações e a outra é a destinação de recursos do Imposto de Renda ao Fundo da Criança e do Adolescente, pelo qual o dinheiro fica em Pelotas para ser destinado a projetos sociais, em vez de ir para Brasília.

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