Efeitos da pandemia

Fechados, ainda que liberados

Uma semana após flexibilização de horários autorizada pelo Estado, donos de bares e restaurantes noturnos dizem que novas regras não aliviam crise do setor

19 de Abril de 2021 - 09h29 Corrigir A + A -
Dúvidas. Alguns bares seguem fechados mesmo com a flexibilização (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Dúvidas. Alguns bares seguem fechados mesmo com a flexibilização (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Setor é um dos mais atingidos devido às medidas para estancar a circulação do coronavírus (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Setor é um dos mais atingidos devido às medidas para estancar a circulação do coronavírus (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Há uma semana, um novo decreto editado pela prefeitura, seguindo normas estaduais, flexibilizou a abertura de bares e restaurantes até as 23h com o acesso do público até as 22h. Mesmo afrouxando regras para um dos setores mais atingidos pela pandemia, muitos locais permanecem de portas fechadas, em Pelotas.

É o caso do estabelecimento do André Lapuente, 53. O empresário critica o decreto por impedir a realização de happy hour, termo americano para reunião informal entre colegas de trabalho em um bar ou restaurante. Atividades que puderam voltar a funcionar. “Chega ser incoerente essas determinações. Quem vai a um bar não deixa de fazer um happy hour”, comenta Lapuente.

Proprietário do Papuera Bar, ele conta que está há 40 dias sem abrir o estabelecimento. Para se manter, tentou trabalhar com entregas, mas devido à grande concorrência e aos custos para o funcionamento, alega que o lucro não pagou despesas mínimas. Acabou desistindo e diz que os recursos financeiros “estão no limite”, recorrendo a financiamento através do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe). Seus quatro funcionários foram demitidos e, se a situação não melhorar, o local que funciona há 18 anos pode fechar em definitivo no próximo mês. “Não sabemos mais pra que lado fugir”, finaliza.

A situação é ainda mais complicada para Humberto Carvalho, 39. O proprietário do boteco O Escritório está com o local fechado desde o dia 15 de março do ano passado por causa das determinações de distanciamento e diz que não é possível a reabertura com os horários determinados. “Essa flexibilização não ajuda muito. Meu horário de funcionamento é a partir das 20h, como vou abrir só até as 23h?” Carvalho conta que dispensou todos os funcionários para que os recursos ainda disponíveis fossem usados para o pagamento de contas. Ele considera haver falta de diálogo com a prefeitura. “O decreto é feito por quem não entende o funcionamento dos bares e restaurantes”.

Ambos os empresários dizem ter consciência da pandemia e dos riscos, mas pedem que, através dos protocolos, possam trabalhar por mais tempo.

Situação delicada

Segundo o presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Pelotas, Eduardo Hallal, foi grande o impacto das restrições para o setor. Para tentar manter colaboradores, algumas empresas precisaram aderir aos programas do governo federal para a redução da jornada, dos salários ou a suspensão do contrato de trabalho. “Sabemos que o momento da pandemia é extremamente delicado, UTIs e leitos hospitalares lotados, mas entendemos que os restaurantes e bares não são os responsáveis pela disseminação do vírus. Em nossos estabelecimentos, todos os protocolos são respeitados.”

Em contraponto, a prefeitura, diz que as decisões são tomadas junto ao Comitê de Enfrentamento ao Coronavírus, que possui representantes de diversos segmentos. “A prefeita leva o assunto ao Comitê, que faz amplo debate e todos os participantes fazem as suas considerações. No entanto, a decisão final é sempre da prefeita, que é a gestora pública.”, explica o secretário de Governo e Ações Estratégicas, Fábio Machado.

Sobre a alegação de falta de diálogo, o Executivo diz que sempre quando necessário ouve os representantes, mas que não há autonomia, já que decisão do Supremo Tribunal Federal determina que devem prevalecer determinações do governo estadual. Para ajudar o setor, a prefeitura diz estar realizando ações como ampliação do prazo para certidões negativas, suspensão de execuções fiscais, prorrogação do vencimento de taxas e outras medidas.

Já sobre as happy hours, a prefeitura diz que o Decreto 6.393 determina que os bares funcionem nos moldes dos restaurantes, ou seja, servindo alimentação. A menção a happy hour é feita pelo governo estadual e reproduzida pelo município, que entende o termo como um momento de confraternização entre amigos, que se reúnem para consumir bebida, alcóolica ou não, em um bar. “Trabalhar nos moldes de um restaurante significa atuar servindo alimentação, sem a presença de pessoas em balcões consumindo bebidas, por exemplo”, diz o posicionamento.

Cenário nacional

Pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) aponta que 91% dos estabelecimentos estão enfrentando dificuldades para pagar os salários de abril devido aos fechamentos impostos por determinações municipais e estaduais nos meses de fevereiro e março. Segundo os dados, 73% dos estabelecimentos tiveram que demitir funcionários. O baixo faturamento fez com que 82% das empresas trabalhassem no prejuízo em março. Com o endividamento em alta, 76% estão com algum tipo de pagamento em atraso, principalmente impostos, aluguéis e fornecedores.

 


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