Cultura

Expectativa de inverno rigoroso alegra produtores de pêssego

Última safra - com temperaturas acima da média, granizo e geada tardia - registrou produtividade bem abaixo do esperado

08 de Junho de 2016 - 07h25 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

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Exatos 74,5% dos persicultores do Estado estão na Zona Sul (Foto: Carlos Queiroz - DP)

A notícia de inverno mais rigoroso transforma-se em entusiasmo entre os produtores de pêssego, já que as horas de frio estão diretamente relacionadas a bons resultados na produção. E há razões de sobra ao otimismo. Em toda a região. Exatos 74,5% dos persicultores do Estado estão na Zona Sul. E mais: a última safra - com temperaturas acima da média, granizo e geada tardia - registrou produtividade bem abaixo do esperado. Em alguns casos, foram menos de dez toneladas por hectare; enquanto a média costuma oscilar entre 12 e 15 toneladas, por hectare.

E a expectativa, claro, volta-se à negociação do preço pago pelo quilo. Um processo que deve começar em breve, em seguida da floração. E, o melhor: as tratativas devem ser pautadas por maturidade de ambas as partes - projeta o presidente do Sindicato das Indústrias de Doces e Conservas (Sindocopel), Paulo Crochemore. “Temos que ter sensibilidade para negociar e definir um valor que fique dentro dos parâmetros também ao consumidor final”, destaca. Na última safra, por exemplo, as discussões começaram com o preço fixado em R$ 1,00 e, conforme o granizo e a geada espalharam perdas, ocorreram dois saltos: para R$ 1,30 e R$ 1,50. “Temos que ter um espírito de parceria”, reitera. Agora é aguardar o debate de 2016-2017.
Potencial

O mercado ainda tem muito a crescer. Não precisa ficar restrito às compotas - que absorvem a maior parte da produção de pêssego amarelo - nem à variedade de mesa. A ressalva também é do presidente do Sindocopel. A polpa concentrada que, processada, se torna suco é um dos tantos usos que a fruta cultivada na região poderia ganhar. Hoje, os sucos de pêssego fabricados no Brasil, em geral, contam com matéria-prima da Argentina e do Chile. Mas, poderia ser diferente.

Daí a importância do surgimento de novos pomares, em diálogo com a Associação de Produtores, claro, que pode se encarregar do meio-de-campo para garimpar novos espaços e vendas. Principalmente se considerado que, até atender o mercado, as árvores precisam desenvolver-se por cerca de três a quatro anos.

Irrigação é alternativa
Se o fenômeno La Niña - que provocará um verão de tempo seco à Zona Sul - transformar-se em estiagem, a irrigação, ainda pouco utilizada na produção de pêssego, deverá ajudar a garantir a qualidade em 60 dos 2.960 hectares de área plantada em Pelotas. É o caso de propriedades, como a de Valério Eli Aldrighi, 36, na Colônia São Manoel, no 8º distrito.

O canguçuense, que veio morar nestas terras ainda criança, decidiu apostar no sistema. Recorreu à Emater para elaboração de projeto, obteve licença da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) e financiamento de R$ 30 mil junto ao Banco do Brasil e já colheu os primeiros resultados. Conseguiu migrar em torno de 40% da produção do tipo 2 para o tipo 1; o que assegurou R$ 0,30 a mais, por quilo, entregue à indústria. Um ganho considerável. “Muitas pessoas acharam que eu me arrisquei demais, mas não tenho ideia de sair da lavoura. Então, achei que valia a pena o investimento.” Serão dez anos para pagar e uma carência que só se encerra em final de 2017.

E agora, a cada safra, Aldrighi não precisa ficar torcendo os dedos para a chuva cair e contribuir ao processo de adubação na reta final, em torno de 15 a 20 dias antes da colheita. “É um risco a menos que a gente corre. É uma força a mais na adubação que a fruta absorve”, enfatiza o produtor, enquanto o pequeno Murilo, de quatro anos, faz questão de estar por perto do pai, para aprender sobre o trato com os pessegueiros e pegar o gosto pela vida no campo.

Em expansão
Desde 2013, mais de cem projetos foram enviados para licenciamento ambiental e outorga de água em Pelotas, contabilizado o plantio de hortaliças, grãos e pastagens - destaca o engenheiro agrônomo da Emater, Rodrigo Prestes. Além do acesso à agua, claro, a disponibilidade de energia elétrica para poder instalar o sistema que vira segurança à má distribuição de chuvas também é fundamental.

Aliada, mas não imprescindível
O pesquisador da Embrapa Clima Temperado, Carlos Reisser Júnior, defende que a região apresenta condições favoráveis ao cultivo de pessegueiros sem irrigação. Os quase cem anos de produção, sem que o sistema - desenvolvido exatamente da mesma maneira - tenha falido, servem como principal argumento.

Para os produtores de pêssego de mesa, entretanto, investir em irrigação é fundamental, já que o retorno com as frutas de tamanho maior é alto - argumenta. Ainda assim, vale o alerta: a irrigação, sozinha, não traz benefícios importantes ao produtor de pêssegos. "Todas as outras práticas recomendadas, como adubação, poda, raleio e controle de pragas e doenças são tão ou mais importantes."

O presidente da Associação de Produtores de Pêssego de Pelotas, Marcos Schiller, segue na mesma linha. E, embora fale na tendência de ampliação da irrigação, não deixa de ressaltar: a escolha das áreas para instalação dos pomares, conforme as características de cada variedade, é essencial. "A troca de experiências e a análise das horas de frio podem ajudar os produtores a explorar melhores resultados". A irrigação ocuparia lugar como técnica complementar.

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