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Estudo mostra que caroço do pêssego pode ter mil e uma utilidades

Uma das frutas mais abundantes da região esconde possibilidades que a indústria pretende explorar

25 de Janeiro de 2015 - 12h40 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

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Duas parcerias firmadas por empresários de Pelotas com a Embrapa e a Universidade de Caxias do Sul (UCS) prometem dar um fim nobre a cerca de cinco mil toneladas de caroços de pêssego por ano. É o equivalente a 75% dos resíduos descartados pela indústria a cada safra na região. Um material que, muitas vezes, é enterrado ou fica exposto no ambiente.

Os usos devem ser variados e a intenção é de que nada seja desperdiçado. Da amêndoa, de dentro do caroço, deve ser extraído um óleo que poderá alimentar a indústria cosmética. O lado de fora, mais duro, será submetido a altas temperaturas em fornos da antiga Cerâmica São Bernardo, no caminho para Canguçu, e se transformará em três matérias primas - carvão, gás combustível e extrato pirolenhoso -, com potencial para virarem uma série de outros produtos.

Nesta última semana, o responsável pelo laboratório de Energia e Bioprocessos da UCS, professor Marcelo Godinho, esteve em Pelotas para estreitar as tratativas, até então feitas por telefone.

A estimativa é de que o convênio dure o mínimo de dois anos, para permitir um estudo de mestrado que indique as características do carvão e quais as principais aplicações que poderia ter após ser ativado, quando ganha porosidade. A gama é ampla.

Conforme os níveis de qualidade, recebe vários usos, como na purificação da água, no tingimento de roupas e na separação de gases. Tudo diretamente relacionado à alta capacidade de absorção.

Entusiasmo
A oportunidade de transformar um problema da indústria em geração de emprego e renda anima os sócios da empresa Bioquim. "Podemos dar um fim a um grande passivo da indústria. Hoje esses caroços ficam abandonados e se transformam em uma questão ambiental", destaca Fábio Pereira de Castro.

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E a participação da Embrapa?
A pesquisadora Ângela Diniz Campos também enfatiza a possibilidade de incorporar outras finalidades à cadeia produtiva do pêssego. "É uma forma de valorizar o processo de sustentabilidade da cadeia", reitera a doutora em Fisiologia Vegetal. Os planos, ainda iniciais, são de dividir o trabalho em duas etapas.

Durante cerca de um ano, a equipe deverá envolver-se na análise das características do extrato pirolenhoso; um tipo de líquido (parecido com um óleo) produzido a partir da condensação da fumaça. Outros dois anos, no mínimo, devem servir à realização de testes e à observação dos efeitos sobre as plantas. Embora o extrato pirolenhoso - derivado da madeira - tenha inúmeros usos ao redor do mundo, para a Embrapa o foco volta-se, claro, ao setor agrícola, em que o subproduto, neste caso do pêssego, poderia servir de insumo.

Descarte, um problema do setor
A indústria não adota medida única de descarte. Uma parte dos caroços, até o ano passado, costumava ser vendida à unidade da empresa Bunge, em Rio Grande, para substituir a lenha. Para serem levados à caldeira, nas próprias indústrias, é necessário investimento em um sistema especial de grelhas - bastante caro. Quem explica é o presidente do Sindicato da Indústria de Doces e Conservas Alimentícias de Pelotas (Sindocopel), Paulo Crochemore, mas prefere não comentar outros tipos de destinos, no ambiente.

Uma parcela pequena também é retirada pelos próprios produtores para o replantio, quando os caroços ainda estão úmidos. "Realmente, é um problema, principalmente, por causa do chorume". Durante a produção são depositados em reservatórios, nas próprias fábricas, onde permanecem enquanto secam. Antes da próxima safra, entretanto, os tanques terão de estar vazios para viabilizar o trabalho.

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Alguns números da indústria na região
* 12 fábricas - entre Pelotas, Morro Redondo, Canguçu e Capão do Leão
* Empregos: em torno de seis mil na safra
* Produção: cerca de 50 milhões de latas


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