Dificuldade

Embalagens estão em falta no mercado pelotense

Escassez de matéria-prima e alta demanda trouxeram transtornos para empresas de todos os portes

15 de Fevereiro de 2021 - 20h20 Corrigir A + A -

Por: Henrique Risse
henrique.risse@diariopopular.com.br 

Ruas precisou apelar a outros materiais e incluiu descontos para os clientes que levam o próprio recipiente (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Ruas precisou apelar a outros materiais e incluiu descontos para os clientes que levam o próprio recipiente (Foto: Carlos Queiroz - DP)

A pandemia causada pelo novo coronavírus gerou reflexos negativos nos mais diversos setores da economia. Inclusive naqueles que ninguém imagina que pudessem sofrer algum tipo de abalo por conta da nova realidade. Um exemplo disso é a indústria das embalagens de papelão, que sofre com a falta de matéria-prima para conseguir atender a demanda.

O impacto começou a aparecer no final do ano passado, com a alta procura por este tipo de recipiente para as encomendas, grande parte pelo gênero alimentício. Mas a causa deste problema começou nos primeiros meses de 2020, como explica o superintendente de vendas da Trombini (empresa que produz papelão ondulado e sacos de papel multifoliados), Gilmar Maffei.

“A indústria do papelão ondulado no Brasil tem uma dependência muito forte das chamadas fibras secundárias, que são originadas pelo reaproveitamento das embalagens descartadas após o uso. Estima-se este mercado em torno de 270.000 toneladas por mês. Este material é coletado, vendido às industrias de papel reciclado e transformado novamente em papel para uso. Uma das primeiras causas que originaram este desajuste na cadeia de abastecimento foi quando, no inicio da pandemia, a coleta foi suspensa por mais de 60 dias e perdeu-se uma grande quantidade deste material que viria depois a ser transformado em papel e, posteriormente, em embalagens”, analisa.

Segundo Maffei, outro fator fundamental para a escassez de embalagens foi o aumento da procura ocasionada por um aumento na demanda. “Já no mês julho começamos a observar no mercado brasileiro um nível de demanda maior por embalagens do que se vinha observando até então. Tanto que o segundo semestre termina com 8,9% de crescimento de consumo de embalagens na comparação com o mesmo período do ano anterior. Estes dois fatos foram os mais importantes na trajetória. Primeiro perdeu-se um volume importante de material e depois entrou-se em um nível de demanda superior ao estimado. Como o sistema já operava com produções próximas da capacidade plena, este crescimento gerou uma busca por embalagens desproporcional à capacidade do sistema. A falta se acentuou impactada pelas vendas de final de ano, onde eventos como Black Friday e Natal contribuem muito para o crescimento, e também pelo fortalecimento do e-commerce, que cresceu muito com a pandemia”, completa.

A expectativa, no entanto, é de que o setor atinja a normalidade no curto prazo. “Estamos iniciando um novo ano, os estoques começam a se ajustar e. com o esperado arrefecimento da demanda. logo o mercado vai retornar a normalidade. Esperamos uma estabilização no curto prazo”, finaliza Gilmar Maffei.

Reflexo nas empresas

A falta de matéria-prima para a produção das caixas trouxe problemas para empresas de todos os portes, como é o caso da Biscoitos Zezé. A empresa pelotense precisou mudar a estratégia de compra para evitar a falta de produtos no estoque. “A gente está tendo bastante dificuldade, alguns itens faltaram no estoque por falta de papelão. Começou a faltar em outubro, mas de dezembro até janeiro tivemos uma complicação ainda maior. Geralmente fazíamos pedidos com 20, 30 dias de antecedência, mas agora temos que nos programar com mínimo de 90 dias. Na última semana fiz um pedido e vão me atender apenas em abril”, diz Liane Cordeiro, do planejamento, controle de produção e compras da Biscoitos Zezé.

Empresas menores, sem condições de fazer grandes pedidos, geralmente recorrem a revendedores deste tipo de material. O problema é que esse intermediário precisa enfrentar um outro problema ocasionado pela escassez do produto: o preço elevado. “Não estão entregando a mercadoria e quando entregam vem com valor abusivo. Fiz um pedido de sacolas de papel em setembro e ainda não veio. Prometeram para fevereiro, mas ainda não enviaram a nota fiscal, ainda não tenho como saber se realmente virá na data. Cada vez que se vai comprar é um preço diferente. Pede por um valor e na hora de enviar aumenta. Fica sem a mercadoria e quando vem, chega com aumento”, conta Leonel Furtado de Oliveira, gerente do Pacopel.

Solução criativa

A situação fica ainda mais agravada para as empresas menores. Sem embalagens adequadas para acondicionar os alimentos, a Fábio Ruas Doces de Pelotas usou a criatividade para superar as dificuldades no fim de 2020. “No final do ano, que tinha docinhos de festa, tivemos que recorrer a embalagens de pizza, que são mais moles, e também a embalagens de isopor. Foi a partir daí que surgiu a ideia de pedir para os clientes levarem seus próprios potes para carregarem os doces. Nós tivemos a ideia e muitos começaram a trazer seus potes de casa. Íamos ter que subir o valor do doce para pagar a caixa, mas com essa alternativa conseguimos manter o preço. Reduzimos o nosso gasto com as caixas para não repassá-lo para o cliente”, comenta Fábio.

A medida emergencial deu tão certo que virou uma promoção e, desde então, a Fábio Ruas Doces de Pelotas estipulou o “dia do cliente”. O comprador leva sua própria embalagem e o doce, que normalmente custa R$ 3,50, sai por R$ 2,50. A promoção acontece às quintas-feiras (na loja da Santa Terezinha) e aos sábados (no Fragata).


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados