Música

Vivências do feminino

Com foco na contemporaneidade, musicista bageense Clarissa Ferreira apresenta show poético e imagético, amanhã, no A Vapor

11 de Janeiro de 2019 - 10h00 Corrigir A + A -
Violinista representa a nova geração de artistas da música do Rio Grande do Sul (Foto: Livia Pasqual)

Violinista representa a nova geração de artistas da música do Rio Grande do Sul (Foto: Livia Pasqual)

Clarissa Ferreira entende a canção como uma ferramenta de comunicação. Através da música, a violinista, cantora e pesquisadora transmite sua mensagem em composições que relacionam o papel da mulher e as tradições regionais. A jovem natural de Bagé assume a responsabilidade oferecida pela profissão e expressa suas vivências e inquietações no show Pampa de Vênus, que será apresentado neste sábado (12) no A Vapor.

Recentemente, a musicista obteve certa repercussão ao lançar a faixa Manifesto líquido, disponível nas plataformas digitais. A composição critica o machismo presente na cultura gaúcha através de versos como "Opressores oprimindo […]/Tendo prenda como regalo/Suprimento narcísico do peão/Dona de um corpo não seu/Sem discussão".

Esse viés analítico faz parte de sua formação. Clarissa é doutora em Etnomusicologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Antes, teve atuação profissional na música nativista. Hoje se sente mais à vontade para repensar a produção do gênero no que se refere à representação de homens e mulheres, assim como sua relação com a geogafria e cosmologia local.

Passagens por aqui
A pesquisadora desenvolveu vínculo com Pelotas por ter cursado graduação em Música na UFPel, onde foi aluna de Mário Maia, professor que a influenciou a seguir carreira acadêmica na pesquisa e na etnomusicologia, sendo esta a ciência que estuda a música em seu contexto cultural. 

O professor Maia é pai de Laura e Ana, irmãos que gerenciam o estúdio A Vapor. "Tenho acompanhado a série Vapor Sessions e a curadoria do selo [Escápula Records] nas produções locais. É muito bom também fazer parte desse elo da música autoral e independente do sul do país", comenta. 

Em entrevista ao caderno Tudo, Clarissa Ferreira comenta sobre seu estilo artístico, a reflexão presente nas canções e poemas, o show que traz à cidade e os planos para 2019.

Diário Popular - Como se desenvolve o teu processo musical? Seria uma atualização da música regionalista, unindo-a com experimentações?
Clarissa Ferreira - Venho desenvolvendo como projeto artístico o tema do regionalismo sobre uma óptica contemporânea a partir de uma corporalidade feminina, situada ao sul. A linguagem escolhida para essa representação perpassa os ritmos e códigos sonoros ligados à identidade gaúcha unindo-se com sons eletrônicos e pedais de efeito no meu instrumento, o violino, tão simbolicamente ligado à música de concerto, uma tradição secular. Nessa criação também relaciono a antropologia cyborg da pesquisadora norte-americana Donna Haraway, problematizando nossa relação com a tecnologia, muitas vezes a incorporando-as em nossas práticas. Assim, esse projeto se caracteriza pela hibridização de sons acústicos com eletrônicos, colagens sonoras, textos, formando um diálogo entre diferentes linguagens que compõem essa narrativa.

DP - A tua produção possui uma abordagem crítica. Quais temas acabam sendo discutidos nas canções? 
CF - Por pesquisar a cultura regionalista há algum tempo em pesquisas de mestrado e doutorado, acabei construindo alguns entendimentos críticos sobre a construção da identidade gaúcha, vendo como ela, na verdade, foi construída de acordo com alguns entendimentos ideológicos que muitas vezes não representam a todos e todas. Nessas representações identitárias negligenciou-se a presença da mulher, do negro e do indígena, limitando-se muitas vezes somente a representações masculinas relacionada à macheza, ao mito do centauro, e a uma cultura representada por guerras e pela violência. A proposta desse trabalho é uma repatriação desse território presente no imaginário regionalista, a partir da criação de um novo pampa, em vênus, onde seja possível refugiar-se, (re)criando símbolos e mitos.

DP - Por que o show se chama Pampa de Vênus? Como se caracteriza a apresentação?
CF - Pampa de Vênus é o nome do show que busca trazer uma óptica sobre a regionalidade gaúcha a partir do feminino e da contemporaneidade. Nele, além de canções autorais, dialogo com a poeta, e parceira no zine Poesia Xucra, Marília Kosby. Também fazem parte cantos ancestrais do sagrado feminino, temas instrumentais de compositores gaúchos e canções que dialogam com o tema de (re)construção do imaginário gauchesco.

DP - Quais os planos para este ano? Vem um álbum?
CF - Os planos para 2019 são continuar dedicando à pesquisa, ao estudo e continuar desenvolvendo esse projeto artístico, buscando mostrá-lo para outros públicos e dialogar sobre os temas. Há o desejo de uma produção fonográfica para este ano como forma de registrar o que venho desenvolvendo junto os músicos Neuro Junior, Lucas Ramos e a música Tamiris Duarte, parceiros nessa criação.

O quê: show Pampa de Vênus, de Clarissa Ferreira
Quando: sábado (12), às 18h
Onde: A Vapor Estúdio, na avenida Juscelino Kubitschek, 1.368
Ingressos: R$ 20,00 na hora 


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