Áudiovisual

Uma vida dedicada a arte

Documentário do Paralelo 33, lançado virtualmente, homenageia o artista plástico Valdir Santana Ferreira

08 de Agosto de 2020 - 18h16 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

Dos 86 anos de vida de Valdir Ferreira, 70 deles foram dedicados à arte (Foto: Jô Folha - DP)

Dos 86 anos de vida de Valdir Ferreira, 70 deles foram dedicados à arte (Foto: Jô Folha - DP)

Herberto Mereb conheceu Ferreira através do projeto Quilombos Urbanos (Foto: Jô Folha - DP)

Herberto Mereb conheceu Ferreira através do projeto Quilombos Urbanos (Foto: Jô Folha - DP)

A cidade de Pelotas está entre os temas do artista (Foto: Jô Folha - DP)

A cidade de Pelotas está entre os temas do artista (Foto: Jô Folha - DP)

Lançado último final de semana o documentário O Xangô dos Paralelos homenageia o artista plástico e carnavalesco pelotense Valdir Santana Ferreira. O curta de pouco mais de 17 minutos, desenvolvido pelo Ponto de Cultura Paralelo 33, relembra os 70 anos de dedicação às artes e à cultura popular em Pelotas. O vídeo pode ser visto pelo YouTube na página Paralelo 33 Transformundo.

Este é o quarto documentário produzido pelo Paralelo 33, que integra a Rede RS de Pontos de Cultura, vinculado ao antigo programa Cultura Viva, do Governo Federal. O coordenador, Herberto Peil Mereb, o Betinho , justifica a escolha por Valdir Ferreira ser considerado um dos principais artistas negros de Pelotas, um homem que dedicou a vida ao fazer artístico e ao carnaval, tornando-se uma referência da cultura negra local.

O coordenador conheceu Ferreira a partir do projeto Quilombos Urbanos, que reuniu outros artistas negros, como Zé darci, Paulo Correa, Jonas Fernandes, Laura Barbosa e Edilaine Dutra. Segundo Betinho, o Paralelo 33 tem essa característica de procurar dar visibilidade para artistas que geralmente não têm acesso às mídias convencionais. "Já tínhamos feito um trabalho com o Zé Darci e o seu Valdir é uma pessoa que achamos ser muito importante pra cidade. Especialmente, por ter estudado com o italiano Aldo Locatelli (1915-1962) e com o pelotense Antônio Caringi (1905-1981). Um senhor que passou a vida inteira como artista plástico", diz Betinho.

Segundo Betinho este trabalho desenvolvido pelo ponto de cultura parte da vontade de expor a contribuição do negro na formação cultural dos brasileiros do sul. O grupo ainda atua em outras cidades além de Pelotas. Entre as ações estão um vídeo documento com o gaiteiro Jecão de Pedro Osório.

Ainda este ano o Paralelo 33 deve lançar mais dois vídeo documentários, um sobre o ativista cultural e líder comunitário Mister Pelé, que morreu em novembro de 2017, e outro sobre a dançarina de danças urbanas, Francine Lemos.

O trabalho deve seguir mesmo com o encerramento do convênio com o projeto Cultura Viva este ano. Herberto Mereb ainda não sabe exatamente como o Ponto de Cultura vai ser fomentado, mas a ideia é prosseguir resgatando essas memórias de pessoas importantes para as comunidades da Zona Sul do Estado. "Termina o convênio, mas o ponto de cultura vai continuar. Ele já existia antes e vai continuar existindo depois", fala o coordenador.

Em primeira pessoa

Feliz com o vídeo documentando sua história, Valdir Ferreira conta que a proposta o surpreendeu. "Foi ótimo. Ficou muito bom", fala. No documentário o artista é quem faz o relato da própria trajetória. As gravações ocorreram no ateliê e no parque do Museu da Baronesa no início do mês de março, pouco antes da pandemia de coronavírus atingir Pelotas.

A ideia inicial era promover o lançamento do vídeo com a abertura de uma exposição do artista. Porém com a impossibilidade de realizar um evento a coordenação do ponto de cultura resolveu apresentar só de forma digital, através do Youtube. "A gente não sabe quando isso tudo vai terminar e estamos finalizando o convênio também, então optamos por essas mídias virtuais, inclusive os outros trabalhos vão ter esse lançamento virtual."

O título O Xangô dos Paralelos une o nome do Ponto de Cultura ao trabalho de Ferreira, que no início do curta aparece pintando um Xangô. O orixá mais velho do Candomblé, que busca por justiça, coincidentemente ou não, tem muito a ver com a obra deste artista que é carregada pela busca por justiça social e pelo enfrentamento ao racismo.

Como o mais velho Xangô ainda é considerado o mais sábio. Aos 85 anos o artista plástico, escultor e ex-carnavalesco Valdir Ferreira é uma referência da arte negra no Sul do Estado. E mesmo com toda a idade ele nem pensa e parar de produzir arte. São tantos anos dedicados às artes plásticas que elas hoje são um estímulo para se manter firme.

Ferreira não sabe precisar quando começou o interesse pelo desenho, mas conta que a mãe Maria Santana Ferreira era escultora e fazia ainda biscuits para vender. Foi observando a atividade dela e muitas vezes auxiliando na produção artesanal que ela desenvolvia e que também era fonte de renda da família, que ele começou a desenvolver o próprio dom.

Entretanto a profissão que deu aposentadoria a Ferreira foi mesmo a de fresador e posteriormente de paginador no jornal Diário Popular, onde trabalhou por 36 anos. Foi lá na insalubre gráfica da década de 50 que ele mostrou que tinha talento para o desenho. "Vivia desenhando os meus colegas", conta.

Mas a arte latente só foi desenvolvida mesmo nas aulas da Escola de Belas Artes, onde foi aluno ouvinte porque não tinha a escolaridade exigida, o equivalente ao Ensino Médio. O convite partiu do pintor muralista Aldo Locatelli, responsável pelas pinturas e afrescos da Catedral São Francisco de Paula, em Pelotas, depois de uma reportagem publicada no Diário Popular, feita pelo repórter Osmar Flores, mostrava a arte passada de mãe para filho.

"Foi quando eu e minha mãe fomos convidados para atuar na Belas Artes, como ouvintes." Lá também frequentou a classe do famoso escultor pelotense Antônio Caringi. "Minha mãe foi aluna direta dele", relembra.

Das aulas ficaram os ensinamentos que ele lembra até hoje e o estilo figurativo que o representa. "Já fiz quadros abstratos, mas não adoto, sigo os conselhos do Aldo Locatelli", conta.

Na época, lembra Ferreira, o jovem aspirante artista ficou em choque quando descobriu que nas aulas teria que seguir rígidos métodos de ensino, e reaprender a desenhar. "Tinha desenho anatômico, arquitetônico, seguindo todo o currículo. E eu não gostava muito daquele regime. Eu gostava de desenhar a mão livre. História da Arte eu detestava", fala soltando uma sonora gargalhada.

Escola do Carnaval

Com o tempo, a arte de Valdir Ferreira saiu das telas e das esculturas e foi se materializar nos desfiles carnavalescos. Sua atuação em diferentes entidades. Segundo a biografia levantada pelo Paralelo 33, Ferreira foi presença marcante por mais de 40 anos no Carnaval pelotense.

Atuou na Escola de Samba Estação Primeira do Areal por seis anos aproximadamente. Na General Teles ele conta por volta de três anos, no Simões Lopes Neto com a escola de Samba Academia do Samba mais quatro. A que dedicou mais tempo à Escola de Samba Ramiro Barcelos , foram 25 anos por lá. Além destas participou do Carnaval de outras entidades adultas e mirins. "O Carnaval não é valorizado. A gente aplicava arte no Carnaval, a escola desfilava uma hora e depois podia passar o facão em tudo. Comecei a avaliar detalhes assim e vi que estava desperdiçando meu tempo."

Mas se por um lado o meio não valoriza a arte produzida para os desfiles, por outro o Carnaval não deixa de ser uma grande escola do fazer artístico e artesanal. "Dentro de um barracão tu aprende muito. Tu aprende uma profissão."

Ferreira por exemplo, ganhou duas profissões extras neste período. Por uma necessidade em um carro da Estação Primeira do Areal ele teve de ir a Rio Grande aprender a trabalhar com fibra de vidro. A atividade rendeu trabalho e renda fora do Carnaval por muitos anos. "Não é difícil, mas é muito insalubre."
Matriz africana

Apesar dessa experiência multicriativa do Carnaval, a pintura de Ferreira nunca deixou de obedecer aos princípios ensinados por Locatelli e não abriu mão do figurativo. "Sob encomenda eu já pintei quadros abstratos, mas eu não adoto muito o abstrato."

Apropriado da arte figurativa, Ferreira caracteriza sua obra pela presença das questões raciais inspirado pelas formas e cores africanas, na qual transmuta temos como racismo e pobreza. Seus quadros ainda são caracterizados por forte religiosidade.

Em março deste ano chegou a inaugurar mais uma exposição individual na Bibliotheca Pública Pelotense, mas, novamente, a pandemia interferiu e a BPP teve de ser fechada. Também teve os planos de uma mostra em Camboriú adiados. Agora Valdir espera que as coisas retornem ao antigo fluxo ou próximo disso para voltar a expor. "Quadro guardado não adianta nada, tem que expor", diz.

 


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados