História

Um homem que não pode ser esquecido

Líder quilombola do século 19, Manoel Padeiro, referência na luta contra a escravidão, pode ser homenageado com monumento em Pelotas

27 de Junho de 2020 - 12h02 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

Homens e mulheres escravizados lutavam contra um sistema terrivelmente opressor (Reprodução de Rudolf Wendroth - Arquivo do pesquisador Guilherme Almeida)

Homens e mulheres escravizados lutavam contra um sistema terrivelmente opressor (Reprodução de Rudolf Wendroth - Arquivo do pesquisador Guilherme Almeida)

Ainda este ano Pelotas deve render homenagem especial ao líder quilombola do século 19 Manoel Padeiro. A promessa é da prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) ao acatar uma sugestão do vereador Vicente Amaral (PSD). Ainda não se sabe como a história dele será lembrada efetivamente. Poderá ser em forma de busto, escultura ou estátua, como sugeriu o vereador. A ideia é que seja formatado um concurso cultural contemplando o projeto, assim que a pandemia esteja amenizada.

O fato trouxe novamente à tona o nome de Manoel Padeiro, um dos símbolos da luta anti-escravidão em Pelotas em um momento em que se debate com força as consequências dos anos de escravidão de africanos no continente americano e o racismo no Brasil e fora dele. Para o vereador o município que fará 208 anos no dia 7 do próximo mês, ainda não conseguiu valorizar o trabalho dos homens e mulheres negras na construção da cidade. "Pelotas foi construída no suor e na lágrima dos negros. Mas quem foi Manoel Padeiro? Muitos não sabem."

Padeiro deixou seu nome na história da cidade por ter sido líder de um grupo expressivo dentro do movimento quilombola. Ele não foi o precursor dos quilombos na região, mas ações peculiares do seu grupo, que envolviam inteligência e práticas de guerrilha, marcaram o período. Suas façanhas foram lembrados também em 2009, a partir da primeira edição do Festival de Cinema Manuel Padeiro.

Padeiro foi escravo do fazendeiro Boaventura Rodrigues Barcelos (1776-1855), porém não há registros que especificam quando o escravo fugiu do sistema que o mantinha cativo. Mas sua lendária contribuição histórica começou a tomar vulto em 1835, um ano antes já se tinha registro da formação de quilombos na Serra dos Tapes. O nome quilombola provavelmente identificava o seu ofício e existem documentos que o registram como "Manuel Pedreiro".

Em 2013 os pesquisadores Paulo Roberto Staudt Moreira, Caiuá Cardoso Al-Alam e Natália Garcia Pinto lançaram o livro Os calhambolas do General Manoel Padeiro. Mais do que escrever sobre o Padeiro o livro traz à tono dois processos criminais que envolvem o caso do grupo quilombola de Padeiro. Um é específico ao quilombola chamado Mariano e outro era relacionado a Simão Vergara, um africano dono de uma tasca na Boa Vista, acusado de colaborar com os quilombolas.

A Vergara era atribuída a ajuda ao grupo. "Vendendo-lhes gêneros diversos e fornecendo abrigo e informações privilegiadas", descrevem os historiadores no artigo Duzentos mil reis pela cabeça do chefe preto Padeiro e cem mil réis pelas dos demais malfeitores: notas de pesquisa sobre o quilombo do padeiro (Pelotas, 1835).

Simão tinha sido alforriado pelo menos 12 anos antes. Sua tasca ou taberna ficava próximo a algumas das maiores charqueadas do período, na Boa Vista e ele era casado (ou amasiado) com a também africana Tereza Vieira da Cunha, assim descrevem os historiadores. O homem foi preso posteriormente.

Biografia importante

Professor de História da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Caiuá Cardoso Al-Alam, diz que Padeiro já foi relatado de diversas maneiras, algumas, até de uma forma pouco embasada em documentos. Independentemente, ele hoje é uma referência muito importante para os movimentos sociais negros porque dele se extrai uma biografia histórica muito importante para se fazer um contraponto a uma história elitista que resistiu por muito tempo na região. "O Padeiro e outros homens e mulheres escravizados que estiveram nessa experiência (quilombos) são monumentais porque eles enfrentam uma conjuntura altamente repressora", diz o professor.

Liderança e referência principal desse quilombo que levou o seu nome, Padeiro articulou diversas ações, que incluíam a libertação de outros escravos, na Serra dos Tapes e na Boa Vista, região conhecida como das charqueadas, próxima ao arroio Pelotas. Al-Alam chama a atenção para o fato de o quilombo de Padeiro não ter se fixado em um local específico.

Ao longo do tempo o grupo de quilombolas se movimentou principalmente pela Serra dos Tapes. "Eles trabalhavam com a perspectiva da guerrilha. Eles tinham ranchos que eram pequenos lugares em que eles permaneciam em diferentes momentos", relata.

Essa prática era utilizada para ludibriar a polícia e regimentos que tentavam capturar os rebeldes. Essas ações eram articuladas pela Câmara Municipal, governo da Província e elites.
O livro também descreve atividades sócio-culturais nestes ranchos, como o plantio de grãos como o feijão ou de verduras, a exemplo da couve. Esses relatos são feitos por pessoas que se juntaram ao bando. "Como se eles garantissem, em alguns determinados momentos, fazer colheitas, apesar de serem volantes", comenta o professor.
Apesar de viverem em estado de fuga, os quilombolas se valiam de uma rede de apoio, não só de outros negros cativos, mas também de pessoas não-negras. Eles contavam com uma rede de apoio intitulada Campo Negro pelo historiador Flávio Gomes.

Essa rede de relações, de sociabilidade, de ajuda e socorro mútuo passava ao largo dos olhares dos senhores. Eles não conseguiam reprimir isso de fato. "A gente percebe por diversos relatos por diversos relatos de testemunhas nos dois processos criminais que há uma rede colaborativa muito grande. É muito interessante porque o quilombo do Manoel Padeiro é uma história muito complexa, resultado de uma grande articulação de um coletivo de homens e mulheres fugidos que se articulavam em diferentes regiões do que se conhecia antes como Pelotas", conta Al-Alam.

Em 1935 Pelotas é elevada à categoria de cidade, para o professor a atuação de Padeiro chama muito a atenção das elites, a partir deste ano, por temerem revoltas, já que a maioria da população era escravizada, a maioria nas charqueadas e fazendas, mas também no incipiente centro urbano. Em 1834 já há relatos desses aglomerados formados por escravos fugidos na Serra dos Tapes. "E em 35 se efetiva de fato essa experiência mais documentada do Manoel Padeiro."

Para o pesquisador é muito difícil falar dos precursores do movimento, mas o Padeiro está inserido nesse processo de consolidação do que se conhece como Pelotas, da materialização dessa burocracia estatal e da preocupação dos senhores em manter a ordem, para manter a produção. Isto porque a elite fortalece as polícias para se proteger dos rebelados.

Al-Alm lembra que eventos, como a revolta dos Malês, em janeiro de 1835 em Salvador, e de Carrancas (1833) em Minas Gerais assustam as elites e se tornam emblemáticas por causarem alterações no código criminal brasileiro, que previa a pena de morte na forca. A justiça simplifica a execução de trabalhadores escravizados que estivessem envolvidos em rebeliões que matassem senhores, seus familiares ou feitores ou mesmo uma tentativa de assassinato. "Aqui em Pelotas só trabalhadores escravizados foram para forca. A justiça atuou para preservar a ordem do sistema escravista e puniu especificamente trabalhadores escravizados. Daí vem toda essa chaga institucional de atuação do judiciário, da polícia, vem desde essa época."

O grupo de Manoel Padeiro sofreu um grande ataque na Serra dos Tapes, o que causou a morte de alguns e aa dispersão dos quilombolas. É quando surge uma das referências de um desses processos contra Padeiro que é Mariano, preso na ocasião.

E a partir deste ataque que líder desaparece. "Ninguém sabe onde foi parar ", fala o professor. Uma das possibilidades é de que tenha fugido para o Uruguai. Al-Alam lembra que outro historiador, Mário Maestre, sugere que Padeiro possa ter se juntado as tropas da Revolução Farroupilha. "Acho muito difícil por que ele era uma referência negativa para esses senhores de escravizados. E os farroupilhas eram escravizadores, utilizavam-se da mão de obra escrava e inclusive tem toda essa perversidade do massacre de Porongos que mostra essa contradição dos farroupilhas com a escravidão. Eles necessitavam desse trabalho escravizado e não abriram mão de fato."

Resgate e orgulho

A professora doutora Rosemar Gomes Lemos, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), coordenadora do Núcleo de Ações Afirmativas e Diversidade da UFPel e do Museu virtual Afro Brasil Sul, destaca a importância da representação negra estar expressa e acessível aos mais jovens. "Eles não conhecem na grande maioria as contribuições da cultura negra no Rio Grande do Sul."

Ela reforça a necessidade de se conhecer a história e os expoentes afro-brasileiros. Rosemar lembra que o Censo de 2010 aponta uma população por volta de 14% de negros no Rio Grande do Sul, o que ela acredita não corresponder a realidade. "Nós somos muito mais do que isso, mas as pessoas não se autodeclaram negras porque ser negro é sinônimo de sofrer racismo. É preciso que a gente tenha orgulho da nossa cultura, orgulho das contribuições que ocorreram, que a gente tenha referência histórica de engenheiros, de artistas, de arquitetos negros. Que a gente tenha conhecimento sobre tudo aquilo que foi construído nos quilombos na área da Medicina, porque nesses espaços não existiam médicos e as pessoas viviam e vivem por muito tempo, esse movimento deve ser divulgado, deve ser resgatado e registrado para que todas as pessoas possam ter acesso."

Saiba mais

Onde: livro Os calhambolas do General Manoel Padeiro - práticas quilombolas na Serra dos Tapes (RS, Pelotas, 1835), de Paulo Roberto Staudt Moreira, Caiuá Cardoso Al-Alam e Natália Garcia Pinto (editora Oicos)
Onde comprar: à venda no sebo Icária e pela Estante Virtual.


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