Patrimônio

Trato meticuloso

Laboratório de Conservação e Restauração da UFPel reúne trabalho em diferentes materiais

18 de Agosto de 2019 - 08h00 Corrigir A + A -
Reparos em pintura ocorrem em um dos espaços do local (Foto: Paulo Rossi - DP)

Reparos em pintura ocorrem em um dos espaços do local (Foto: Paulo Rossi - DP)

Curso trabalha o lado artístico da profissão, mas também aborda a parte química  (Foto: Paulo Rossi - DP)

Curso trabalha o lado artístico da profissão, mas também aborda a parte química (Foto: Paulo Rossi - DP)

Obra em restauro, disponível para visitação do público, no Museu do Doce (Foto: Jô Folha - DP)

Obra em restauro, disponível para visitação do público, no Museu do Doce (Foto: Jô Folha - DP)

Você vê os prédios bem cuidados, as molduras feito novas, as pinturas intactas. E admira bastante que assim estejam, após, por vezes, um século inteiro de existência. E talvez ache interessante saber que, para que se chegue nesse resultado, existe muito trabalho. Uma atividade que demanda sensibilidade, mas também profundo conhecimento técnico. Um ofício no qual Pelotas tem se tornado polo, graças ao curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais da UFPel.

Uma das únicas três graduações na área em universidades públicas no Brasil - as outras ficam no Rio de Janeiro e em Ouro Preto-MG -, o curso tem como foco a formação de profissionais através de três áreas do conhecimento: humanístico, científico e técnico/prático. O Laboratório de Conservação e Restauração de Bens Culturais, localizado no Campus da rua Almirante Barroso, é onde a magia acontece.

O espaço é dividido em principalmente três seções: pinturas, madeira e papel. Existem também locais para atenção às disciplinas optativas de Arqueologia, Metais, Pétreos e Têxtil, por exemplo. Em todos eles, misturam-se trabalhos feitos para o município e da própria UFPel, como o trato com o acervo dos museus da universidade, e particulares.

Uma intervenção que mistura o lado artístico e químico do patrimônio - ao mesmo tempo em que se pensa na beleza e na relevância de um bem cultural, leva-se em consideração qual composto, qual tinta, qual pincel é o mais adequado para se chegar no resultado final esperado: a retratabilidade. "Hoje se fala mais no equilíbrio. O restauro tem de se mostrar, porque não podemos enganar o público, houve uma intervenção, mas também não pode se sobressair à obra", explica a professora Raquel Augustin.

Rio de Janeiro, Ouro Preto e Pelotas. Não é por acaso que estejam nessas cidades as três graduações em conservação e restauração nas universidades públicas brasileiras. São três cidades que convivem e lidam com o patrimônio diariamente. Ter o curso por aqui, então, transforma o município em uma espécie de polo. "Toda a Região Sul nos procura para trabalhos, e também outros municípios gaúchos", comenta, destacando que a UFPel conta também com mestrado e doutorado na área.

Lidar com uma área tão meticulosa tem seus desafios reais, entretanto. A conservação e o restauro de bens culturais demanda a utilizações de materiais consideravelmente caros - uma bisnaga de tinta, embora dure um tanto, pode chegar a custar R$ 1 mil. "Se já era difícil conseguir antes, agora, com os recursos escassos, tem sido pior ainda", lamenta Andréa.

A professora também joga no fato de que o curso é um dos mais variados da UFPel quando se fala em origem dos alunos. É uma mistura de sotaques. Carolina Nagata traz a fala paranaense. Natural de Maringá, ela está a um ano da formatura e trabalhava em uma peça de plástico quando o Diário Popular visitou o laboratório. "A universidade fornece a possibilidade e nós temos que fazer a nossa parte", diz.

Laboratório aberto
Durante um ano, esse trabalho tão particular estará disponível, diariamente, aos olhos de toda a população. Através de Acordo de Cooperação Técnico-Científica entre a UFPel e a Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul, uma estrutura foi montada no Museu do Doce para o restauro de duas obras oriundas do Museu Histórico Farroupilha, em Piratini.

A motivação para a iniciativa tem um fundo técnico. Fuga de Anita Garibaldi a cavalo é de autoria de Darkir Parreiras, tem 2,64 m x 2,20 m. Já Alegoria, sentido e espírito da Revolução Farroupilha foi produzida por Hélios Seelinger com dimensões 3,80 m x 5,70 m. A amplitude das pinturas demandou que o restauro fosse feito longe do campus, com mais espaço pra trabalhar. Precisávamos de uma sala que comportasse um pé direito alto", diz, acrescentando que um carrinho foi acoplado à mesa para facilitar o trabalho na parte central das obras, principalmente da maior.

Mas também existe um fundo social, que é mostrar para a população a meticulosidade da conservação e do restauro, para que a comunidade valorize mais os bens culturais que Pelotas tanto tem. "Essa aproximação é fundamental nesses tempos de cultura deixada de lado. A preservação da nossa história, a apreciação dela, é muito importante. Traz um desenvolvimento para a cidade, através do turismo", comenta a professora Andréa Bachettini.

Trata-se também de oportunidade única para os cinco alunos bolsistas que farão parte do projeto. "É desafiador, pela estrutura a ser montada, ainda mais com a escassez de recursos. Mas é também emocionante a gente ter a chance de fazer esse resgate da história", comenta Ísis Gama, do 6º semestre, oriunda de Salvador-BA. O trabalho funcionará no fim de semana, durante as atividades do Dia do Patrimônio.


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