Obra

Subversão reinventa um clássico nacional

Com participação de pelotense, coletânea de HQs reinterpreta O sítio do pica-pau amarelo através do steampunk

15 de Abril de 2020 - 11h44 Corrigir A + A -
Personagem: em Liberdade para o futuro, Barnabé é protagonista (Foto: Reprodução)

Personagem: em Liberdade para o futuro, Barnabé é protagonista (Foto: Reprodução)

Sandro Andrade assina os desenhos de uma das histórias (Foto: Divulgação - DP)

Sandro Andrade assina os desenhos de uma das histórias (Foto: Divulgação - DP)

Tio Barnabé e Tia Nastácia libertam-se de qualquer submissão e tornam-se protagonistas. Eles são os donos da HQ Liberdade para o futuro, escrita por Felipe Morcelli e ilustrada pelo quadrinista pelotense Sandro Andrade. A criação faz parte de Rancho do corvo dourado, nova adaptação de O Sítio do Pica-pau Amarelo, obra de Monteiro Lobato que entrou em domínio público em 2019 após 70 anos da morte do autor.

O livro conta com oito histórias desenvolvidas por doze artistas. A ideia é construir uma versão steampunk pós-apocalíptica do clássico de Monteiro Lobato, através de uma ótica contemporânea e, sobretudo, inclusiva, numa estratégia de subverter a lógica de zero protagonismo das minorias no texto original, que acaba até mesmo reforçando estereótipos.

A história acompanha Barnabé e Nastácia, únicos sobreviventes do sítio em um Brasil pós-fim. Tropas nazistas tomaram o País e cabe à dupla, a partir de agora, liderar a resistência contra o novo regime estabelecido. “Na HQ, Barnabé assume contornos de um guerreiro implacável de espada em punho e Nastácia é imbatível no uso da besta medieval e outras armas. Não faltam decapitações, evisceração e batalhas em ritmo frenético”, comenta o pelotense. Com traços minimalistas, a narrativa tem ares do clássico Mad Max, ao passar a mensagem através da ação, sem pedantismos literários e com muita agilidade.

A indicação do quadrinista para desenhar o roteiro de Felipe Morcelli foi da própria idealizadora do projeto, a ilustradora e artista Cris Camargo. Um trabalho que tem desafios, principalmente levando em consideração a popularidade de O Sítio do Pica-Pau Amarelo no imaginário pelotense e a vontade de desconstruir todo aquele ambiente quase bucólico criado por Monteiro Lobato.

Na visão de Andrade, a parte mais complicada foi detectar e manter a essência dos personagens para logo na sequência transformá-la por completo em um novo contexto. E o maior prazer, ora, é perceber o encaixe dessas ressignificações. “Dar aos personagens um campo fértil para que eles façam coisas que não fariam na obra original, e mesmo assim mantenham quem são”, prossegue o artista. “No caso de Barnabé e Nastácia, assumem nessa história um protagonismo que nunca tiveram na obra de Lobato, principalmente quando sabemos que o autor tem indícios de simpatia à eugenia e ao racismo documentados historicamente.”

Financiamento coletivo

O rancho do corvo dourado, assim como tem sido tendência no cenário nacional dos quadrinhos, foi viabilizado por financiamento coletivo que arrecadou R$ 11 mil. A estratégia, comenta Andrade, tem tido importância fundamental na publicação independente brasileira. Principalmente por um motivo-chave: a ausência de mercado no País. “Existe um monte de gente talentosa, existe um monte de gente que gosta e consome, mas não existe mercado propriamente dito. Estranho, né? Talvez com essas iniciativas esteja se formando um mercado. Não sei.”

#HQsNaQuarentena

Uma iniciativa de quadrinistas brasileiros disponibilizou grande acervo de forma gratuita para leitura durante o período de isolamento social. O Rancho do Corvo Dourado está também disponível. Para acessar, clique aqui


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