Música

Quando a música vai ao encontro da plateia

Projeto Festival na Comunidade chega a 10ª edição fortalecido com mais de 20 apresentações

25 de Janeiro de 2020 - 10h27 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

Na quarta-feira grupo de choro reuniu alunos do Rio de Janeiro, do Estado, da Paraíba, do Uruguai e da Argentina (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Na quarta-feira grupo de choro reuniu alunos do Rio de Janeiro, do Estado, da Paraíba, do Uruguai e da Argentina (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Integrantes da Orquestra Municipal participaram de uma das atividades (Foto: Ronald Mendes - Especial DP)

Integrantes da Orquestra Municipal participaram de uma das atividades (Foto: Ronald Mendes - Especial DP)

Seja no Centro Histórico ou a mais de 20 quilômetros dele, o Festival Internacional Sesc de Música a cada ano se propõe a encurtar distâncias entre músicos e plateia. A aproximação acontece por meio do Festival na Comunidade, um projeto que se tornou querido não só pela organização do evento e dos instrumentistas, mas também pelo público de diferentes bairros e localidades que já esperam por mais uma edição.

"É uma das grandes ações do Festival, poder estender uma apresentação, seja de um grupo já formado ou criado por alunos que aqui estão estudando, para uma plateia que não vai até o Theatro Guarany, o Conservatório ou a Bibliotheca (Pública Pelotense)", fala o gerente de Cultura do Sesc-RS, Sílvio Alves Bento. Para ele, é a forma de o evento se aproximar do cotidiano das pessoas e se fazer presente na cidade além dos pontos tradicionais de espetáculos.

Se para o público é uma oportunidade para assistir pertinho de casa a uma apresentação musical de qualidade e executada por músicos de alto nível, para estes profissionais também não deixa de ser uma aula. O gerente lembra que muitas das apresentações são feitas por grupos formados dentro do festival, dois ou três dias após do começo do evento.

Um desafio a mais para quem vem buscar aprendizado em um lugar, por vezes, milhares de quilômetros de distância da sua origem, e entre pessoas que também podem não falar a sua língua. Na quarta-feira, Alves Bento assistiu ao grupo de Choro que se apresentou no Instituto São Benedito. Entre os integrantes do regional estavam estudantes do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraíba, Argentina e Uruguai. "É a arte integrando", comenta o gerente.

É um desdobramento do que acontece em sala de aula proporcionar aos alunos que num curto espaço de tempo eles possam se agrupar com músicos que estão conhecendo naquela semana e desenvolver um repertório para poder se apresentar à comunidade. "É didático integrativo e fundamentalmente descentralizador da ação da cultura, o que é muito significativo", argumenta o gerente. Além dessa modalidade, a organização do Festival também convidada grupos, bandas ou orquestras com alguns anos de formação.

O professor de choro Elias Barbosa e seis alunos se apresentaram no Instituto São Benedito. O grupo deu nome de Choro Latino para o regional que levou clássicos do gênero e composições contemporâneas para funcionários do Instituto e moradores do em torno.

Barbosa percebe nas apresentações do Festival na Comunidade uma oportunidade de exercitar as habilidades musicais e cumprir o papel social da arte. "Levar a música para a comunidade se emocionar e também trabalhar nossos sentimentos e nossa criatividade como músicos é uma grata oportunidade. A música serve exatamente para as pessoas apreciarem e sentirem".

Carinho

Nesta edição, como em outras, alguns locais se repetem na programação, como a Colônia Santo Antônio, que é o local mais longe a ser alcançado, a Unidade Cuidativa de Pelotas e a Catedral Anglicana do Redentor, entre outros. O gerente explica que distribuição dos concertos pela cidade fica a cargo da Unidade de Pelotas junto com a prefeitura. Eles identificam bairros e locais em que se possa desenvolver a atividade. "Minimamente uma sala, uma estrutura mínima que se possa acolher o projeto", diz Alves Bento.

Mas é impossível não ir a locais tradicionais, como a Colônia Santo Antônio, que já espera o evento. O gerente lembra que em outros anos, depois da apresentação do grupo do Festival, um grupo de coro local se apresentou para eles. Um carinho inesquecível. Este ano eles prometeram outra surpresa, antecipa o gerente.

A coordenadora do projeto, Natália Silva Cardoso, destaca o engajamento das comunidades do Interior que recebem as atrações, como a Comunidade Católica São Miguel e da Colônia Santo Antônio, formadas por agricultores. Diferente da maioria das apresentações, nestes locais os concertos costumam ser à noite, respeitando a rotina de trabalho dos moradores. "Algumas nós incluímos na programação porque os moradores nos procuram pedindo que a gente vá até eles, para que não precisem viajar quilômetros para ver as apresentações", afirma. Os espetáculos são sempre lotados, com público muito atencioso e respeitoso, formado por famílias.

A intenção é ir a outros, mas isso implica em ter espaço físico e um dia disponível na apertada agenda dos músicos. Mas o projeto já esteve em locais abertos como pátio de escolas e até no pátio do Presídio Regional, como aconteceu na edição anterior. "É uma ação do Festival que vejo de extrema importância. É o caráter acessível e democrático da cultura", comenta o gerente.

Outro benefício do projeto é levar arte e cultura a espaços ociosos e por vezes históricos da cidade, que não estão sendo utilizados nesta época. Na quarta-feira, a apresentação do grupo de Choro, no auditório do Instituto São Benedito, abriu as portas do prédio centenário. "Conhecer esse belo espaço, dentro dessa instituição centenária, otimizar o uso desse auditório", diz Alves Bento.


Intervenção em hospitais

Especialmente nesta 10ª edição o Festival da Comunidade tem levado a arte para dentro de entidades ligadas à área da saúde, como o Hospital Beneficência Portuguesa, São Francisco de Paula e Espírita, mais de uma vez nestes 12 dias. São momentos em que a música leva mais do que cultura, ela traz consigo emoção, leveza e alegria para todos.

Na Santa Casa de Misericórdia, a dose de ânimo e conforto para os pacientes, na tarde de terça-feira, ficou por conta de cinco jovens da Orquestra Municipal, acompanhados pela regente Lys Ferreira. Foi a primeira participação dos estudantes, com idades entre dez e 15 anos, no 10º Festival Internacional Sesc de Música.

Eles foram incumbidos de uma missão especial: levar a alegria do Festival aos pacientes, familiares e funcionários da instituição. A timidez inicial dos jovens deu lugar ao entusiasmo à medida que eram recebidos com palmas e olhares emocionados ao passar por corredores e quartos. Logo, os músicos assumiram a responsabilidade de escolher o repertório que executaram com sensibilidade.

"O Festival é para toda a comunidade, e as pessoas que estão internadas aqui também fazem parte da comunidade, não é mesmo? Então, temos de trazer o Festival até elas", afirma Marlon Molina de 15 anos. Jaqueline Meireles está internada e saiu do quarto para fazer um vídeo da jovem orquestra. "Achei lindo, maravilhoso. E sei que o Festival é sempre um grande sucesso. Espero ainda ter alta e acompanhar a programação deste ano, mas de qualquer forma, ele veio até mim, o que já é uma coisa maravilhosa", afirma.

As técnicas em enfermagem Jaqueline Meireles e Eliete Dias agradeceram a presença dos jovens e garantem que a interrupção na rotina é bem-vinda por todos: "Quem não gosta de música? Se para nós já traz uma alegria, imagina para os pacientes", comentam.

Diva Vieira esteve nas nove edições anteriores do Festival e já tinha os ingressos para a décima edição, mas uma queda na véspera do evento levou a uma internação hospitalar e ela lamenta não poder ir aos espetáculos. Surpresa e emocionada com a intervenção musical, conseguiu assim garantir a marca de participação em todos os dez festivais.

A violinista Melissa Rodrigues, de 15 anos, resume a emoção de ter participado do evento: "O mais bonito é a reciprocidade. Nos emocionamos tocando e vendo a reação das pessoas, é um sentimento de gratidão".

Nesta semana o Festival na Comunidade será apresentado em mais espaços públicos, com um elenco diversificado a cada intervenção. Uma experiência tão positiva que os jovens músicos estão ansiosos para repetir. A programação completa do Festival pode ser acessada em www.sesc-rs.com.br/festival/.

Programação

Festival na Comunidade 

Próximas apresentações

Sábado (25)

12h - Sexteto Gaúcho + Dois (Albert Khattar e Fernando Deddos), no Nave

17h - Orquestra de Choro, na Bibliotheca Pública Pelotense

Segunda-feira

19h - Orquestra Estudantil do Areal, na igreja Sagrado Coração de Jesus, Porto


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