Arte e história

Pelotas se despede de Therezinha Röhrig

Cantora erudita de 94 anos, que fez carreira nacional e internacional, morreu na madrugada deste domingo de causas naturais

10 de Outubro de 2021 - 12h21 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Solista dedicou-se à música de câmara e de concerto (Foto: Divulgação - DP)

Solista dedicou-se à música de câmara e de concerto (Foto: Divulgação - DP)

Therezinha (à direita) ao lado de Conchita Badía e Montserrat Caballé, ao vencer o Concurso Internacional de Canto Francisco Viñas (Foto: Divulgação - DP)

Therezinha (à direita) ao lado de Conchita Badía e Montserrat Caballé, ao vencer o Concurso Internacional de Canto Francisco Viñas (Foto: Divulgação - DP)

Os amantes de música erudita estão de luto. Morreu na madrugada deste domingo (10), a soprano Therezinha Röhrig, aos 94 anos. A professora aposentada da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) estava internada na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) da Beneficência Portuguesa e faleceu em decorrência de causas naturais. O velório ocorrerá das 14h às 16h30min, no vestíbulo da ala antiga da Santa Casa de Misericórdia, com entrada pela praça Piratinino de Almeida. O sepultamento será às 17h no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula, no Fragata.

Therezinha Röhrig entrou para história do canto erudito, não só de Pelotas. Jovem, no início da década de 1960, ela ganhou destaque nacional e cruzou fronteiras. Fez carreira internacional. Ao vencer concursos artísticos no Rio de Janeiro, sob os olhos atentos da soprano espanhola Conchita Badía, a pelotense ganhou bolsa para participar de um dos primeiros cursos: o Música en Compostela, na Espanha. E agarrou a oportunidade com força.

Por lá, durante cerca de três anos, passou a estudar em caráter particular com Conchita Badía, em Barcelona, e recebeu ensinamentos de outros nomes consagrados da música, como Montserrat Caballé. Foi também em solo espanhol que Therezinha Röhrig conquistou a principal distinção da carreira, ao vencer a 1ª edição do Concurso Internacional de Canto Francisco Viñas.

De volta ao Brasil, a soprano chegou a realizar turnês a convite do Itamaraty. Em uma dessas incursões, rodou por países da América do Sul, como Argentina, Chile e Uruguai, onde contou com o acompanhamento do pianista de peso Eduardo Gilardoni. Em sua trajetória, a soprano se dedicou ao repertório camerístico e de concerto, ao invés das óperas, que costumam ser mais badaladas pelas intérpretes.

Diante do destaque, Therezinha é então convidada a compor o corpo de professores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Memórias podem virar livro

Documentos, fotos do início da carreira, programas dos concertos e mais de 90 páginas de entrevistas devem alimentar um livro sobre a vida e a trajetória de Therezinha Röhrig. É a intenção do professor do Centro de Artes, Jonas Klug, que atualmente está afastado para o doutorado. Durante o mestrado, em 2004, o alvo da pesquisa já foi aquela menina determinada que, aos 16 anos de idade, passou a estudar no Conservatório de Música de Pelotas para depois ganhar os palcos do Brasil e do mundo.

“Therezinha Röhrig foi uma das mais extraordinárias figuras que eu tive o privilégio de conviver no meio musical”, destaca Klug. “Ela encarava a arte como um dom divino e uma missão, com a consciência – que só os grandes adquirem – de ter dedicado a vida a algo infinitamente maior que ela própria”, resume o barítono.

A pelotense, que levou a voz como recado ao mundo, também foi aluna do pintor italiano Aldo Locatelli, na Escola de Belas Artes, e chegou a ser retratada por ele, como anjos, em dois pontos da Catedral Metropolitana de São Francisco de Paula.

Therezinha Röhrig não foi casada nem teve filhos. Mas deixa, neste domingo, 10 de outubro de 2021, milhares de admiradores. Familiares, amigos, alunos, plateia. Um público que a seguirá aplaudindo. De pé.

Reconhecimento

“É uma grande perda para a cultura de Pelotas. Ela deixa um legado de luz e arte no coração de todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ela como professora e artista”.
Prefeita Paula Mascarenhas

“Foi com muita tristeza que recebi a notícia do falecimento da professora Therezinha Röhrig, importante nome do canto erudito de Pelotas e região. Além de profícua carreira internacional, quando levou o nome de nossa cidade com grandeza por onde se apresentou, ficarão para sempre as lembranças dos concertos anuais beneficentes que promovia no Theatro Sete de Abril, em prol da Santa Casa de Misericórdia. Seu legado de amor à educação e à cultura deve servir de inspiração para as gerações futuras.”
Secretária de Estado da Cultura, Beatriz Araujo

"Foi Therezinha que me 'intimou' a ingressar no curso de Canto quando um dia me perguntou o que eu estava esperando. Não sei bem, mas depois disso abandonei o curso de Biologia, prestei vestibular para o curso de música e me joguei de corpo e alma na arte do canto.
Foram anos intensos. 'La Röhrig' sabia como ninguém realizar grandes espetáculos contemplando a todos os seus alunos. Tinha espaço para todos, desde os mais iniciantes até os já mais tarimbados. Sob sua batuta encarávamos um Theatro Sete de Abril lotado e o palco do Conservatório sem nem pensar muito no que isto representava. Ainda hoje consigo ouvir o som da sua voz, seus ensinamentos, seus conselhos e suas broncas".
- Ex-aluna e ex-diretora do Conservatório de Música, Leonora Oxley Rodrigues

"Sem dúvida, Therezinha Röhrig foi uma grande referência para os cantores de Pelotas, uma líder e fomentadora do canto e da arte. Foram muitas centenas de aulas, concertos, recitais e eventos que ajudaram Pelotas a continuar a ser o que ela é: a Atenas do Rio Grande. Obrigado mestre La Röhrig, por dividir tua arte, tua voz e teu ensino com todos. A mestre se perpetuará em todos nós. Viverás para sempre em todos teus alunos".
- Maestro Sérgio Sisto

 


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