Luto

Pelotas perde Adão Monquelat

Livreiro, pesquisador e historiador que morreu na noite de quarta-feira deixa importante contribuição sobre a história de Pelotas

23 de Setembro de 2021 - 18h59 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

Dedicou os últimos anos a trazer à tona histórias de Pelotas que passavam ao largo das casas grandes e da elite (Foto: Nauro Júnior) (Foto: Divulgação - DP)

Dedicou os últimos anos a trazer à tona histórias de Pelotas que passavam ao largo das casas grandes e da elite (Foto: Nauro Júnior) (Foto: Divulgação - DP)

Morreu nesta quarta-feira (22) o livreiro, pesquisador e escritor Adão Fernando Monquelat, vítima de infarto, pouco antes das 21h. O pelotense de 74 anos foi velado na manhã desta quinta (23), na Capela do Memorial Pelotas, Cemitério Parque no Capão do Leão, onde ocorreu o sepultamento. Monquelat era casado, tinha um filho de primeiro matrimônio, dois enteados e um casal de netos.

Monquelat era muito conhecido por pesquisadores, estudantes e leitores da comunidade pelotense e de fora dela pelo trabalho que desenvolvia na livraria e sebo Monquelat - anteriormente chamada de Lobo da Costa - há 40 anos. Mas seu legado vai além do resgate de preciosidades literárias, nos últimos anos se tornou referência em história de Pelotas.

O endereço da rua General Telles, 558, não foi o primeiro do sebo. A antiga livraria Lobo da Costa nasceu em 1981 na rua Dom Pedro II, entre Santa Cruz e Barroso, quando Monquelat voltou a morar em Pelotas, depois de dez anos fora. Pablo Monquelat, filho do escritor, acredita que a mudança de endereço ocorreu entre os anos de 1991/1992.

Livreiro experiente e cuidadoso, foi uma inspiração e um apoio para quem começava nesse negócio, como Alexandre de Menezes Sá Brito, proprietário do Sebo Icária da rua Tiradentes. Em 2004 eles se conheceram e Monquelat viu potencial no trabalho de Brito.

Nunca o encarou como concorrente e dizia ao iniciante que havia espaço no mercado, além de indicar clientes e obras a serem adquiridas. "Foi importante porque eu não acreditava que havia espaço para mais um. Me incentivou a botar mais energia no projeto, foi fundamental para eu não desistir naquele começo."

Pelotas dos excluídos

Cada canto do pequeno espaço da loja da Telles era coberto por livros, revistas e HQs. Obras de diferentes autores, estilos e para diferentes públicos. Um espaço democrático para a leitura e onde Monquelat trabalhou para ajudar a desmistificar enigmas da história e a acabar com os "folclores", como ele dizia, da terra natal. Um deles foi o de que o charqueador português Pinto Martins teria sido o pioneiro na indústria do charque em Pelotas. Uma inverdade, segundo o pesquisador, que comprovou o fato.

Historiador nato, dedicou os últimos anos a trazer à tona histórias de Pelotas que passavam ao largo das casas grandes e da elite. Queria resgatar as trajetórias dos mais pobres, dos negros escravos e ex-escravos que ajudaram a construir uma cidade não só com trabalho, mas com a cultura. "Ele fez o doce, mas não o comeu, serviu o licor e não tomou. Não teve condições de se tornar personagem da história tradicional", falou para o Diário Popular na época do lançamento do livro Pelotas dos excluídos (subsídios para uma história do cotidiano), de 2014.

E das suas mãos saíram outras tantas obras, algumas em parceria, algumas em voo solo e outras na qual não assinou mas que foi peça fundamental ao atuar como pesquisador. As principais fontes de pesquisa eram as hemerotecas das Bibliotheca Pública Pelotense e Biblioteca Rio-grandense, em Rio Grande. Para quem quer conhecer sua obra há ainda o blog Pelotas de Ontem, como testemunha e repositório de tantas histórias bem-contadas.

"Dia triste"

Pegos de surpresa com a triste notícia, amigos e admiradores do trabalho de Monquelat manifestaram pesar pelas redes sociais ao longo do dia. Ao Diário Popular, sobre a morte do historiador, a secretária de Estado da Cultura, Beatriz Araujo, disse: "Estou muito triste com a partida deste amigo querido. Pelotas e a cultura do município ficam mais pobres com o passamento de Adão Monquelat, pesquisador e livreiro reconhecido por sua trajetória. Enaltecemos o legado intelectual e de amor à história da nossa cidade".

O jornalista e escritor Klécio Santos, que contou com a ajuda de Monquelat em projetos, também disse à reportagem se sentir arrasado com a notícia da perda do amigo e parceiro. "Fico feliz de ter escrito sobre ele e o encontrado no lançamento do livro ainda antes da pandemia", falou. A obra a que se refere é Mais perfeito que o paraíso - E outros desatinos de Pelotas, coletânea com diferentes autores que traz O garimpeiro de livros que reescreveu a história, que o Diário Popular reproduz, editado, nesta edição.

"Ele era um historiador atento, muito disciplinado e fiel a dados e fatos, que fazia com que colocassem ele num lugar de antagonismo, por ter reescrito muitas histórias mal contadas. A contribuição dele na história das charqueadas é inestimável", comentou o jornalista Roberto Ribeiro, amigo do livreiro. "Quando falei em antagonismo me referi em relação à história oficial, não que ele tenha buscado isso mas o rigor de historicista o acabou por vezes antagonizando com a história oficial. Essa contribuição, repito, me parece enorme."

Como escritor, Monquelat também escreveu romances, tinha uma verve a la Charles Bukowski. Para o jornalista Pelotas perde mais que um escritor e livreiro, perde um personagem, uma figura ímpar que vai deixar um vazio na história da sua amada Princesa do Sul. "É um dia triste para Pelotas."

 


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