Carnaval

O luxo e a criatividade que resistem ao tempo

Mesmo sem a mesma visibilidade de décadas atrás, os concursos de fantasias ainda atraem competidores

22 de Fevereiro de 2020 - 13h27 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

fantasias foto Marcos Oliveira -MattosDiamantinos fez o primeiro evento desta temporada (Foto: Marcos Oliveira - Mattos - Especial - DP)

Aparentemente sem a mesma visibilidade de anos passados, os concursos de fantasias resistem ao tempo e ainda fazem uma grande movimentação no seu entorno. Quem sustenta esse costume, atualmente, são poucos, em geral jovens tituladas de clubes sociais, que dispõem de tempo e dinheiro para investir pesado nos nada leves, mas glamorosos modelos apresentados. Por trás da beleza vista nos desfiles está o trabalho artístico artesanal e também braçal de muitos que ajudam a manter viva uma tradição de Carnaval. Em Pelotas, este ano quatro clubes abriram seus salões para o certame, o mais recente ocorreu no Clube Brilhante, na quinta-feira (27).

O cabeleireiro Júnior Costa Rocha é envolvido com os concursos de fantasias há mais de 30 anos. Ele mesmo, que prepara as meninas e vai com elas ajudar na montagem das fantasias, já desfilou.

Rocha começou motivado por Pompílio de Freitas, famoso estilista e figurinista de escola de samba, que morreu em 2003, aos 50 anos. Na época Rocha morava em Bagé, onde trabalhava no Rainha do Carnaval do Rio Grande do Sul. "Era um concurso tipo miss", conta.

Ele lembra que começou num tempo em que a infraestrutura era muito menor. Hoje os participantes dos concursos são cercados de muito mais profissionais, como coreógrafos, montadores de fantasias e tem até mesmo logística de transporte para as fantasias que desmontam. "Foram se aprimorando mais, quando a gente começou não tinham as rodinhas, que facilitam o movimento delas, por exemplo."

O tamanho da alegoria e os acessórios que compõem a fantasia indicam as categorias. Até o ano passado, os concursos adotavam cinco, porém nesta temporada os clubes aderiram a um novo regulamento, com apenas três categorias: Originalidade, Luxo e Super Luxo. A mudança é para aumentar o número de concorrentes.

A categoria Luxo abrange fantasias compostas de materiais luxuosos, como cristais, canutilhos e pérolas, entre outros materiais, e cascatas com plumas. A Super Luxo necessita de estruturas de ferro para o esplendor, rodas, treliças e dobradiças.

A vice-primeira-dama do Clube Brilhante, Berenice Goebel, explica que o custo para os participantes é alto e para o clube também, que precisa apresentar troféus e decoração apropriada. "Envolve bastante detalhes. Mas para não perder essa tradição, a gente insiste em fazer. E é tão bonito, legal de ver."

"O que a gente nota é que a cada ano está diminuindo o número de participantes", fala o vice-presidente do Brilhante, Marcelo Goebel. No 21º concurso do Brilhante da quinta-feira, participaram 15 concorrentes - em outras épocas seriam bem mais de 20.

O diretor atribui a essa diminuição de popularidade dois fatores: as jovens de hoje não estão mais tão ligadas a tradições como o Carnaval e também aos altos custos de uma produção dessas. "Tu gastas tranquilamente o valor de um carro."

JF1305
Júnior Rocha acompanha Juliana nessa empreitada (Foto: Jô Folha - DP)

O cabeleireiro levanta outra questão, o número de locais para os concursos diminuiu com o fechamento de alguns clubes. Para ele, seria uma consequência da falta de adequação ao Plano de Prevenção Contra Incêndio (PPCI), determinado pelos Bombeiros há sete anos, desde a tragédia da boate Kiss.

O auge dos concursos de fantasias ocorreu na década de 1980, quando eram transmitidos pelas TVs abertas. Na capital dos gaúchos, o mais famoso era o da Sociedade Ginástica de Porto Alegre (Sogipa), onde as fantasias de Pelotas faziam muito sucesso pela sofisticação e por isso abocanhavam na maioria das vezes os primeiros lugares. "Eu acho que Pelotas foi a grande responsável pelo fim, o pessoal de Porto Alegre começou a não participar porque o concurso era lá, mas eles não tinham espaço para eles", diz Rocha.

Atualmente, a Sogipa não faz mais os concursos de fantasias. De acordo com a assessoria do clube, esta atividade foi encerrada na década de 1990, quando o baile municipal de Porto Alegre parou de ser realizado. A Sociedade continuou realizando o baile, mas sem o certame.

Vitrine de profissionais

Rocha comenta que olhando de fora, muitos podem criticar e rotular de fútil quem se envolve neste tipo de concurso. "O que as pessoas esquecem é que tudo isso abre muitas frentes de trabalho." O cabeleireiro se refere à mão de obra de serralheiros, floristas, coreógrafos, estilistas, cabeleireiros, maquiadores e vendedores de produtos próprios para o Carnaval, entre outros profissionais que acabam inseridos no processo. "Até o número de garçons nos clubes triplica", argumenta.

A atividade é ainda considerada uma vitrine para muitos profissionais. "Existem novos talentos chegando que precisam de oportunidades", fala.

Outra preocupação de muitos é quanto às penas utilizadas nas fantasias. O cabeleireiro garante que nenhum animal é sacrificado, o material cai naturalmente e é recolhido pelos criadores e ainda recebe tratamento para ser utilizado, fomentando uma outra cadeia de serviços.

 foto Marcos Oliveira-MattosJuliana conquistou o primeiro lugar no concurso estadual (Foto: Marcos Oliveira - Mattos - Especial - DP)

No Moulin Rouge

Com a fantasia Uma Noite no Moulin Rouge, a rainha do Centro Português, Juliana Ferreira Leite, 17, conquistou o primeiro lugar no concurso estadual de Fantasias do Clube Diamantinos, na categoria Super Luxo adulto e o segundo lugar no certame do Laranjal Praia Clube. A estudante começou a participar de concursos no Carnaval de 2012, quando foi garotinha lusitana. Na época, ela desfilou pela categoria Originalidade. "Quando eu entrei eram muito mais fantasias e elas eram enormes", conta.

Participar da categoria Super Luxo foi uma decisão de Juliana, que queria uma roupa mais leve no corpo e poder carregar nos adereços levados pelo carro. "Eu queria ter o carrinho para ter mais liberdade para dançar", diz.

Quem ajudou a criar a fantasia foi a bordadeira Alice Peters. "Ela foi a mente criativa, que colocou em ação o meu sonho. Sem ela, não seria possível."

A estrutura da alegoria é toda de ferro, sustentada por uma base com roda, que a jovem carrega durante a apresentação. Até mesmo os dois leques que ela porta têm estrutura de ferro. Somente eles devem pesar uns dez quilos.

"Até os canutilhos pesam. Na Luxo e na Super Luxo tudo tem que ser canutilhado, tudo tem que ser com materiais nobres e penas. Não pode ser menos do que isso", fala a jovem. Ao todo, Juliana não sabe precisar o peso da fantasia, mas sabe dizer que ao final de cada apresentação o cansaço e a dor de cabeça sempre aparecem, além das marcas no rosto e na nuca causadas pelos adereços.

A construção da fantasia começou no final do ano passado, e para criar a personagem Juliana contou com a ajuda da coreógrafa Juliana Resem. Além disso, no dia dos concursos a titulada passa cerca de três horas no cabeleireiro fazendo a maquiagem e o cabelo. No caso de Juliana, ela usa três cascatas de cabelo e dois pares de cílios postiços.

Apesar de tudo, Juliana diz que o desafio vale a pena. "A gente sempre espera uma coisa, mas é realmente surpreendente. É muito trabalho, mas no final vale a pena."

O investimento é alto e as tituladas não gostam muito de falar sobre cifras, somente contam que as famílias é que arcam com os custos. Até mesmo a logística do transporte de toda a estrutura tem de ser prevista e contabilizada.

Sem medo

A rainha do Brilhante, Laura Carvalhal de Oliveira, 15, também passa por situação semelhante. Dia 18 de dezembro ela começou a ensaiar a coreografia, também feita por Juliana Resem. "Foi um intensivo nas férias", conta.

JF1383Laura fez preparação física para os desfiles (Foto: Jô Folha - DP)

Por causa do peso da roupa, as meninas sentem necessidade de fazer um preparo físico anterior. Laura teve de ir para a academia e emagreceu durante esse processo. "Tem muita diferença dançar com a roupa e sem a roupa, principalmente com o adereço da cabeça, que é muito pesado", fala a jovem titulada, que conduz uma fantasia da categoria Luxo intitulada Canto do Pescador, criado pela estilista Denise Perez.

Para não cair, colocam uma caixa de grampos nos cabelos de Laura. Essa é a primeira experiência da estudante com o Carnaval, uma epopeia que ela, por vezes, duvidou que teria capacidade de levar adiante.

A jovem confessa que quando era pequena via os concursos com o avô e se imaginava naquele lugar. Porém, agora ficava com frio na barriga ao pensar que seria o centro dos olhares. "Eu pensei que iria ter muita vergonha, mas foi uma coisa que eu superei."

A família de Laura, que tem uma ligação afetiva com o clube, apoiou a filha na decisão de ser rainha e a estrela do Carnaval do Brilhante. A mãe de Laura, Ana Cláudia Carvalhal, sempre achou que a filha iria dar conta da atividade. "Ela sempre gostou de dançar, mas quando chegou na hora da fantasia, ela ficou com um pouco de receio. Acho que ficou com medo, mas foi tranquilo."

Para Laura, o concurso de fantasias é o evento mais marcante durante o reinado. "É uma coisa que eu vou levar para a vida toda."

Além dos desfiles nos clubes, o caminho natural de quem participa dos concursos de fantasias é encarar a passarela do samba. Laura deve participar de outro concurso em Piratini e já recebeu dois convites de entidades carnavalescas de Pelotas. Mas ainda não está definido por qual escola ela vai desfilar.


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados