Arte

O feminino como protagonista

Alice Porto e Daniele Borges realizam exposições na Secult

01 de Julho de 2019 - 10h42 Corrigir A + A -
Trabalho de Alice Porto está na sala Inah D´Avila Costa (Foto: Paulo Rossi)

Trabalho de Alice Porto está na sala Inah D´Avila Costa (Foto: Paulo Rossi)

Na sala Antonio Caringi está o trabalho de Daniele Borges (Foto: Jô Folha)

Na sala Antonio Caringi está o trabalho de Daniele Borges (Foto: Jô Folha)

Se é para ocupar o espaço público, que seja com contestação. Até dia 18 de julho, as duas salas de exposição do Centro Cultural Adail Bento Costa estão preenchidas por discussões acerca da representação feminina e a importância da arte questionadora. As artistas Alice Porto e Daniele Borges apresentam, reespectivamente, Dito, não dito e maldito e Mulher [resistência] apesar de tudo. Elas foram contempladas em edital da Secretaria Municipal de Cultura (Secult) para apresentarem os projetos.

Na sala Antonio Caringi está o trabalho de Borges. A exposição é baseada em fotografias produzidas por ela apresentando uma modelo numa com uma máscara de gás em maio a um campo. As imagens datam de 2015, mas são inéditas. "Como o edital prezava pela temática do feminino, achei uma boa oportunidade de utilizá-las. Trago essa ideia de resistência utilizando a imagem como potência. A ideia é transmitir a crueza, a dureza dos nossos tempos, indo contra o negacionismo, as teorias de que esse cenário triste não existe", explica, utilizando-se de teorias do filósofo Georges Didi-Huberman. "Ao falar dos retratos do Holocausto, ele acredita na importância das imagens como importantes para transmissão do conhecimento."

A utilização do nu, junto a máscara de gás, diz Daniele, serve como forma de representar o perigo junto à proteção, em uma forma de bradar contra a banalização do corpo feminino. "Busquei dar a ideia de enfrentamento desse corpo que é ao mesmo tempo frágil, mas também ao mesmo tempo potente", prossegue, salientando que as fotografias são, porém, livres para a interpretação - da liberação desenfreada de agrotóxicos ao feminicídio desenfreado, elas servem para críticas a diversas mazelas de 2019.

Sarcasmo político
À esquerda de quem adentra o Centro Cultural Adail Bento Costa fica a sala Inah D´Avila Costa. Nela está a exposição Dito, não dito e maldito, de Alice Porto. O trabalho surgiu a partir da observação da estética e das estratégias do movimento feminista dentro do espaço público - local que a artista entende como "esse híbrido que se dá desde as ruas até todos os atravessamentos com a internet, em especial as redes sociais (como aponta o filósofo Boris Groys, as redes sociais são a ágora contemporânea)."

Alice conta que observou, em diálogo com outras feministas, os desdobramentos de registros fotográficos feitos por homens nas manifestações do movimento e o papel dessas imagens na construção de uma imagem positiva de si mesmo. "Entendo que há um abismo na diferença entre o que é aceitável na postura de homens e mulheres, o que já é conhecido há muito tempo, porém o que vejo como novidade é que isso dê mesmo no âmbito da própria luta das mulheres por direitos e resistência."

O resultado é uma série de ilustrações feitas a partir de retratos de homens nos atos feministas, com uma importante pitada de sarcasmo. A escolha por tal linguagem, explica Alice, se deu pela possibilidade trazida pelo humor para se abrir um espaço aquilo que não pode ser dito. "É um meio mais maleável de dizer coisas que de outra forma são mal recebidas. Estou tratando da questão da raiva reprimida das mulheres (que é um tema recorrente na arte feminista, mas também anterior a ela), já que não é socialmente permitido que demonstremos insatisfação mesmo com situações absurdas e absolutamente opressivas (como a situação epidêmica de estupros, por exemplo), sob o risco de sermos consideradas loucas, exageradas, etc. Se isso é inevitável, então eu preferido abraçar esse esteriótipo e levar ele um pouco além."

Serviço
O quê: exposições Dito, não dito e maldito, de Alice Porto, e Mulher [resistência] apesar de tudo, de Daniele Borges.
Quando: até 18 de julho
Onde: Centro Cultural Adail Bento Costa (Praça Coronel Pedro Osório, 2)
Entrada franca


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