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Murro no mal que habita a Terra

Confira entrevista exclusiva com a banda Surra, que se apresenta no Galpão neste sábado (23)

22 de Novembro de 2019 - 14h32 Corrigir A + A -
Banda santista lançou em 2019 o disco

Banda santista lançou em 2019 o disco "Escorrendo pelo ralo" (Foto: Estevam Romera/Especial DP)

Pelotense Marinas Found se apresenta também na noite (Foto: Helena Oliveira/Especial DP)

Pelotense Marinas Found se apresenta também na noite (Foto: Helena Oliveira/Especial DP)

Se os rumos tomados pelo Brasil causam raiva em muita gente, a banda paulista Surra é o maior reflexo sonoro desse momento. Com um trashpunk qualificadíssimo, o power-trio oriundo de Santos lançou recentemente o disco Escorrendo pelo ralo, verdadeiro suco de 2019, e vem a Pelotas com ele para a terceira edição do Nosco Fest, amanhã, no Galpão. Também se apresentam Inimigo Eu (Esteio) e as locais Marinas Found e She Hoos Go.

A Surra é formada por Leo Medeiros, Guilherme Elias e Victor Miranda. O grupo nasceu em 2012 e desde então já foram mais de 250 shows por todo o Brasil, além de duas turnês europeias e participações em diversos festivais do underground brasileiro. Escorrendo pelo ralo começou a ser composto em 2017 e tem na sonoridade a velocidade já característica aliada a elementos do grindcore e do powerviolence, além de uma tendência ao metal e o ska em determinadas faixas.

A Inimigo Eu é uma banda de hardcore que aborda questões sóciopolíticas e de cunho intelectual do cotidiano. Surgido em 2013, o grupo é atualmente formado por Guilherme Luz, Rodrigo D'Bira, Giovani Costa, Rafael Laureano e Maicon Rodrigues, que fez parte da pelotense Suburban Stereotype. A banda lançou em 2019 o EP Resiliência.

A Marinas Found é das mais ativas bandas do mundo alternativo pelotense. Participante do coletivo Apoie o Movimento Underground (AMU), o grupo formado por Arthur Feltraco, Eduardo Walerko, Pedro Soler e Pietro Strickler tem dois discos lançados. O último, Ansiolítico, saiu este ano.

A She Hoos Go é um power trio de punk feminino criado em 2010. Conta atualmente com Simone Dal Ponte, Daia e Vampy na formação e já tocou em festivais por diversas cidades do Brasil. O último lançamento, de 2016, é intitulado Por La Libertad.

Confira abaixo entrevista exclusiva com a banda Surra

Diário Popular: Qual a importância da música de protesto no Brasil de 2019? Qual é atualmente o principal mal que habita essa terra?

Leo Mesquita: A música, o humor, arte em geral sempre foram ferramentas para veicular informação e opinião. Tudo que a gente faz é política, certo? Até mesmo o 'não fazer nada' diante de tudo que está acontecendo também é uma escolha.
Sempre foi importante. Temos que manifestar nossos protestos e debater ideias em nossos meios e encorajar as pessoas a fazerem o mesmo.
A humanidade evoluiu até esse ponto e hoje organiza a divisão do trabalho em função do lucro e manutenção do sistema capitalista. Qualquer coisa que tente minimamente ir na contra-mão disso é atacado estrategicamente: seja com repressão direta nas ruas, seja economicamente pra desestabilizar outras organizações. Esse sistema respira por aparelhos e os ricos vão levar até as últimas consequências pra nos manter escravizados. Escrevi essa música apontando pra concentração de bens e poder político que esse sistema causa.

Diário Popular: De 2012 para 2019, o que mudou nas dificuldades e facilidades em levar uma banda underground no Brasil?

Guilherme Elias: Acredito que o cenário econômico mudou bastante de 2012 para cá onde a galera no geral está com menos grana para consumir entretenimento de um modo geral. Isso, aliado a popularização de outras opções de entretenimento online "de graça", tem tornado um desafio tirar o público de casa para encher as casas.
Como consequência vimos durante esse período diversas casas fecharem, produtores desistirem de fazer shows e selos pararem de lançar material. A parte boa é que tudo isso é muito cíclico, tanto o público como os espaços vão se renovando e se reinventando. Então tenho convicção que o Underground sempre sobreviverá e será um foco de resistência.

Diário Popular: Como vocês veem o atual cenário da música brasileira? Que outras bandas da atualidade vocês admiram?

Guilherme Elias: Mesmo com todas as dificuldades acredito que estamos vivendo um momento de retomada da música independente no Brasil.
Durante esse ano tivemos o privilégio de participar de diversos festivais que misturaram bandas de diversos estilos que só nos deram mais certeza disso. Destacaria o Francisco el Hombre, Molho Negro e Black Pantera que fizeram os shows mais impressionantes que tive a oportunidade de ver em 2019.

Diário Popular: Ainda que seja do estado de São Paulo, a Surra é uma banda nascida no interior. O que tem de mais interessante em viajar pelo País levando o som e a mensagem de vocês?

Victor Miranda: Acreditamos que é um privilégio poder conhecer tanto o território quanto as pessoas do Brasil inteiro, sendo um país tão grande e com logísticas tão complicadas. Existem coisas que só você estando lá pessoalmente, vivendo aquela realidade com aquelas pessoas, para cair várias fichas no seu cérebro e ter um entendimento melhor do lugar onde a gente vive.
Isso e todas as amizades que fazemos sempre pela estrada. A única tristeza é ficar um tempão distante de pessoas queridas que estão espalhadas pelo país inteiro.

Diário Popular: O Galpão é um ambiente clássico do underground: palco construído com as mãos da cena e banda muito próxima do público. O que tem de mais interessante nesse formato?

Leo Mesquita: Antes de qualquer coisa, posso dizer que sou a pessoa da banda que mais gosta de shows assim, mesmo ja tendo quebrado o dente no microfone 2 vezes com a galera subindo no palco, haha.
E sem querer parecer clichê, mas esse exercício de se organizar pra fazer nossas vontades sem depender de grandes instituições é do caralho! Assim como éramos novos e nos espelhamos em amigos e amigas mais velhos fazendo as coisas com essa atitude, devemos passar isso adiante sempre! Muitos dentro do underground partem pra organizações políticas e tenho certeza que essa porta de entrada é fundamental.

Diário Popular: O que "Escorrendo pelo ralo" trouxe de diferente e igual em relação aos trabalhos anteriores da banda?

Victor Miranda: Acredito que o Escorrendo Pelo Ralo seja a melhor fotografia do momento da banda que poderíamos tirar. É uma junção de tudo que a gente estava curtindo na época da composição das músicas, e as letras acabaram ficando mais maduras e contundentes. A produção, na minha opinião, ficou superior a tudo que fizemos anteriormente, muito por conta de termos gravado todos tocando ao vivo na sala incrível do estúdio Family Mob.
De igual acredito que fica a base das nossas ideias, e a nossa vontade de sempre evoluir, de testar coisas novas dentro do nosso estilo.

Serviço
O quê: Nosco Fest #3
Quando: sábado, às 22h
Onde: Galpão Satolep (José do Patrocínio, 8)
Ingressos: R$ 20 antecipados na Mercado Skateshop e R$ 25 na hora


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