Cinema

Milonga Lejana leva memórias da ditadura aos festivais

Gravado na Praia do Hermenegildo o filme faz parte de Fronteriz@s, projeto que reúne cinco curtas-metragens com histórias da fronteira Brasil-Uruguai

27 de Novembro de 2021 - 21h20 Corrigir A + A -
Músico Vicente Pimentero protagonizou a produção (Foto: Daniela Pinheiro - Especial DP)

Músico Vicente Pimentero protagonizou a produção (Foto: Daniela Pinheiro - Especial DP)

Curta tem tom documental ao trazer fatos reais (Foto: Daniela Pinheiro - Especial DP)

Curta tem tom documental ao trazer fatos reais (Foto: Daniela Pinheiro - Especial DP)

Diretor Chico Maximila é natural de Santa Vitória do Palmar (Foto: Divulgação - DP)

Diretor Chico Maximila é natural de Santa Vitória do Palmar (Foto: Divulgação - DP)

Praia do Hermenegildo, fevereiro de 1985. Exilado em um barraco na praia, um uruguaio aguarda os últimos dias da ditadura civil-militar uruguaia para retornar a seu país. Com essa ambientação começa o curta-metragem Milonga Lejana, que integra o filme Fronteriz@s - projeto que reúne diferentes olhares sobre o multiculturalismo do território de integração da fronteira Brasil/Uruguai. O filme é composto por cinco curtas-metragens, gravados em Santa Vitória do Palmar/Chuy (Milonga lejana), Jaguarão/Río Branco (Casa de Rio), Pelotas (Além da fronteira), Bagé (La Sociedad) e Livramento/Rivera (Peregrinus), e já tem extensa agenda de apresentações no Brasil e exterior até 2022.

Lançada no começo do ano, Milonga lejana já deixa sua marca na rota dos festivais e traz ao debate um tema que não pode ser esquecido. A caminhada do curta começou em setembro, quando entrou para a história do tradicional Festival Guarnicê de Cinema ao levar o prêmio de melhor filme da mostra. Criado em 1977, com o nome de Jornada Maranhense de Super 8, é um dos mais antigos festivais de cinema e vídeo do Brasil.

A produção gaúcha ganhou na "Mostra Competitiva Faz todo Sentido", voltada a pessoas com deficiência auditiva. Com apresentações virtuais e presenciais em São Luís (MA), o festival exibiu cerca de 170 filmes em sete dias. Recentemente o curta foi selecionado para "Mostra Brasis" do Sercine - Festival Sergipe de Audiovisual, que terminou neste sábado (27). Criado há uma década por um grupo de estudantes da Universidade Federal de Sergipe, o festival é considerado uma janela para as diversas narrativas audiovisuais vindas de todo o país.

Bastidores da equipe

Rodado em fevereiro, o curta reuniu um grupo de profissionais atuantes na cena do audiovisual regional. O roteiro de Milonga Lejana foi escrito por Alex Vaz, com argumento de criação de Chico Maximila - que divide com Felipe Yurgel a direção do filme. Vicente Botti fez sua estreia como ator no papel do protagonista, que vive exilado na praia do Hermenegildo e acompanha a situação da ditadura uruguaia através de um velho rádio.

É também pelas cartas, entregues por dois moradores locais _ Elon e Eni _ que ele faz contato com seus companheiros além fronteira e aguarda a hora certa de voltar ao seu país. O filme tem a direção de fotografia de Felipe Campal e assistência de Daniela Pinheiro. Direção de arte de Gabriela Lamas, produção de Carolina Clasen, som direto de Dhyan Diano e finalização de áudio e desenho de som, Protásio Júnior.

Um dos diretores do curta, Chico Maximila conta que a ideia de contar cinco histórias partiu do produtor Ricardo Almeida, convidando diretores que tinham relação com essas cidades de fronteira ou que viviam nessas cidades. Maximila, que é natural de Santa Vitória do Palmar, foi convidado para trazer o seu olhar sobre a vida na fronteira. "Mas os diretores e roteiristas tiveram liberdade de trazer informações e histórias que são muito presentes nesses lugares. Para quem vive na fronteira essa linha imaginária não existe, é um território, como diria Aldyr Schlee: 'É uma terra só'", relembra Maximila.

Fronteriz@s traz ficção e documentário, que tratam das semelhanças e as diferenças de cada localidade, entre cada uma dessas cidades fronteiriças e suas vizinhas no outro país. "Perceber a diferença cultural da fronteira para outros lugares é evidente. Mas na época que eu morava lá eu não percebia isso. No momento em que saí de lá eu comecei a ter esse outro olhar, um olhar estrangeiro sobre meu próprio território", fala o diretor.

O diretor ainda não teve a oportunidade de acompanhar nenhuma exibição presencial, que foram poucas até agora, por causa da pandemia. "Com o Fronteriz@s a gente já circulou por muitos lugares nesse Brasil, mas de forma on-line. Inclusive teve uma exibição no México, organizada pela Universidade Autônoma do México", explica.

Apesar da distância o diretor tem percebido uma recepção muito positiva e calorosa em relação ao Milonga... "Inclusive por questões que a gente não deve esquecer, que foram tão trágicas e dolorosas para o país e que até hoje tem sequelas desse período tão horrendo, não só no Brasil, mas em todos os países da América Latina que passaram por essas atrocidades ditatoriais. No presente a gente tem muitas pessoas que fazem alusão a esse período, como se tivesse sido maravilhoso. Então a gente traz à tona esse debate, mostrando o quão difícil foi."

Sobre o filme ter esse caráter tão regional, Maximila comenta que esse detalhe em nada interfere no entendimento da obra, especialmente por ela tocar temas universais, como a solidão. "Por isso o nome Milonga lejana, estar tão próximo do meu país e ao mesmo tão distante, por questões que não permitem atravessar uma linha, para esse sujeito estar com os seus. É um tema que toca a todos independente de onde a gente estiver."

Contexto e referências

Escrito por Alex Vaz, o roteiro teve como base de pesquisa cartas verídicas, que integram o acervo pessoal do fotógrafo Felipe Campal e do pesquisador e doutor em História pela UFPel, Ariel Salvador. Além das cartas - principal elemento narrativo da história, o roteiro também usou reportagens, documentários, músicas, livros e outros filmes ficcionais ou biográficos como referências. O material de pesquisa inclui ainda relatos de interrogatórios, perseguições e alguns aspectos emocionais das cartas de Esteban Campal e Ruben Eriberto Roja. Outra referência para criação da história vem da ficção. A carta assinada pelo personagem Javier, protagonista do livro Andamios, de Mario Benedetti, inspirou livremente o roteirista. A relação do personagem com o rádio é parte importante da narrativa. Foram usados excertos de transmissões de rádio da época, como o célebre discurso do ator, escritor e ativista político uruguaio Alberto Candeau. O chamado "Ato do Obelisco" ou "Rio de la Libertad" ocorreu em novembro de 1983 e marcou o final da ditadura no país.

Safra de apresentações

O projeto Fronteriz@s produziu um longa-metragem composto por cinco episódios de documentário e ficção, abordando singularidades culturais da região de fronteira Brasil-Uruguai, a partir de cinco localidades. O propósito foi o de reconhecer a diversidade cultural existente nesse território de fronteira e promover o diálogo entre diferentes olhares e linguagens de seus diretores e diretoras.

Participaram como diretores e diretoras: Adriana Ferreira (por Bagé), Alexandre Mattos (por Pelotas), Chico Maximila e Felipe Yurgel (por Santa Vitória/Chuy), Fabi Ud (por Livramento/Rivera) e Luiz Alberto Cassol (por Jaguarão/Río Branco). A realização foi da Sociedade Independente Cultural (SIC) de Jaguarão, em parceria com o coletivo Fronteras Culturales, com produção executiva de Magnum Patron Sória e produção geral de Ricardo Almeida. Milhares de pessoas já assistiram ao filme e a agenda de apresentações e rodas de conversa que fazem parte projeto prosseguem por diferentes regiões e países.

O Cine UFPel encerra atividades deste ano com debate on-line sobre Fronteriz@s. O longa estará disponível para apreciadores do cinema pelo link, a partir deste sábado, até o dia do evento. O encontro ocorrerá quinta-feira, dia 2 de dezembro, às 20h, no Youtube do projeto. Além desta, a agenda de participações em dezembro já anuncia o horizonte longevo das produções da fronteira gaúcha.

Serviço:

Agenda Apresentações do filme Fronterizos em dezembro:

02 - Cine UFPel
07 - Prefeitura de Cidade do México
09 - Festival Internacional de Cinema do Caeté (FICCA)
13 - Cine de Fronteira Livramento
14 - FURG - Santa Vitória do Palmar/Chuí
16 - Museu de las Migraciónes e Facultad de Humanidades - Montevidéu/Uruguai
17 - Festival Internacional de Fronteira de Bagé

Redes sociais:
@milongalejana
@ fronterizos_filme.

Trailer de Milonga Lejana no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=cp34blCfXfg

Site do projeto Fronterizos:
https://www.fronterizos.org/quem-somos/

 


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