Exposição

Ligação física e espiritual ao todo

Galeria A Sala, do Centro de Artes da UFPel, recebe obra de professor da Furg

08 de Maio de 2022 - 11h13 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

Artista convida o público a interagir com a obra  (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Artista convida o público a interagir com a obra (Foto: Carlos Queiroz - DP)

A galeria A Sala, do Centro de Artes UFPel, reabriu esta semana, depois de ter a programação suspensa desde março de 2020 em função da pandemia. Na retomada o espaço apresenta Agô, obra de Felipe Caldas, uma instalação composta por mais 700 quilos de carvão que convida o visitante a uma instigante interação ao mesmo tempo em que o artista questiona a construção das crenças. Visitação de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h, na sala 111, com acesso pela rua Álvaro Chaves, 65.

Agô é uma expressão utilizada em diferentes cultos afro-brasileiros com o objetivo de se pedir permissão, como na frente do quarto de santo. Mas o artista esclarece que a obra não é sobre essas práticas religiosas.

Apesar de não ser um praticante de uma religião afro-brasileira, o artista traz da infância memórias que ficaram impregnadas de quando acompanhava a mãe, esta sim frequentadora centros de culto da Umbanda. "Aquele universo de imagens, as músicas, as danças e cheiros permeiam meu imaginário, a maneira como eu conduzo parte da minha vida e a maneira de perceber as coisas", comenta o artista.

Porém Agô se relaciona com outros trabalhos que o artista desenvolve ao questionar como se constroem as crenças e como elas se ancoram em determinadas materialidades, a exemplo do carvão, utilizado nos ritos de limpeza tanto da casa, quanto do corpo. Nesse caso ele é uma espécie de índice para a crença, uma ancoragem. "O carvão é um elemento muito utilizado em diversas correntes que têm essa dimensão espiritual, não só nas casas de matriz afro-brasileira. Mas como essa crença encontrou uma materialidade?", questiona o artista.

É de questões como essa que surge o interesse do artista neste elemento. "Este é só um ponto de partida para remeter essa ligação com o todo", diz Caldas que também é professor da Furg. Para fortalecer essa teoria o artista apresenta duas frases junto à instalação: "O que está em cima é como o que está em baixo" e "O que está dentro é como o que está fora". É do segundo princípio da hermética que Caldas traça essa relação de correspondência entre o micro e o macro.

"Isto também pode ser refletido como nós pensamos as estruturas políticas. E quando nós pensamos essa relação com a política, que também envolve sistemas de crença, a maioria de nós é carvão para ser queimado", fala Caldas. Para o artista os seres humanos podem ser só meio, uma espécie de combustível para outro indivíduo. "Porém nada disso é consenso, tudo isso é reflexão, fica em aberto", diz.

Essa é a segunda vez que Felipe utiliza o carvão em uma obra de arte, a primeira ocorreu em 2017 na instalação Berço esplêndido, que também continha ossos. De maneira geral o carvão também está presente nos desenhos do artista, mas como elemento principal é a segunda vez. A ideia é que as pessoas andem sobre o carvão e se envolvam com a obra.
"A ideia é dialogar com o trabalho, se sentir estranho ou se despertar uma pergunta o trabalho cumpriu a sua função."

20 anos
No ano passado a galeria A Sala completou 20 anos e retorna às atividades com uma programação especial que vai incluir a publicação de um livro e um exposição comemorativa no final do ano, sob curadoria da professora Neiva Bohns. "Essa galeria é muito importante por não ser apenas um espaço expositivo, mas por ser um espaço formativo e de trocas", fala a coordenadora das atividades da galeria, a professora doutora Laura Cattani.

Dentro das ações pensadas para a galeria foi pensado um programa que abarca vários projetos, entre eles uma pesquisa que vai resgatar histórico da galeria. A professora Laura disse ainda que ela projeta ampliar as ações da galeria de forma a engajar a comunidade fora da Universidade para que a galeria seja realmente esse espaço de conexões. "Ao mesmo tempo de se mostrar a produção local dos professores, dos alunos, também trazer gente de fora para que seja esse espaço de trocas, encontro e diálogo", diz a coordenadora.


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