Luto

Jô Soares morre aos 84 anos

O ator, diretor e escritor com mais de 60 anos de carreira artística deixa um legado na TV brasileira, no teatro, literatura e cinema

05 de Agosto de 2022 - 18h03 Corrigir A + A -
Jô Soares deixa um grande legado na cultura nacional (Foto: Divulgação - DP)

Jô Soares deixa um grande legado na cultura nacional (Foto: Divulgação - DP)

Ele sempre foi cheio de graça. O humor na ponta da língua, a inteligência aguçada, o raciocínio rápido e o amor pela arte eram suas marcas registradas. Chorava pelas coisas boas, nunca pela tristeza. Vaidoso, chegou a dizer que 'já nasceu querendo seduzir o mundo'. E assim o fez, em mais de 60 anos de carreira, com personagens históricos na TV brasileira, mais de 200 personagens e 14 mil entrevistas. Jô Soares morreu aos 84 anos na madrugada desta sexta-feira. O ator, diretor, escritor e humorista estava internado no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, desde o fim do mês de julho e a causa da morte não foi divulgada. Como ele mesmo dizia, 'a morte é a única coisa que não se pode repetir'.  

Filho único do empresário paraibano Orlando Heitor Soares e da dona de casa Mercedes Leal Soares, José Eugênio Soares nasceu no Rio de Janeiro em 16 de janeiro de 1938. Teve um único filho, Rafael Soares, que era autista e morreu em 2014, aos 50 anos. Rafael era fruto do relacionamento com a atriz Therezinha Millet Austregésilo, com quem Jô Soares foi casado entre 1959 e 1979.

Ainda pequeno, Jô Soares morou no anexo do hotel Copacabana Palace e aos 12 anos mudou-se para a Europa, onde viveu por cinco anos. Estudou na Suíça, aprendeu vários idiomas e queria ser diplomata. Mas a arte falou mais alto. Em 1958 voltou com a família para o Brasil e começou a frequentar aulas de teatro.

Já em 1959, interpretou o papel de um americano na chanchada O Homem do Sputnikde Carlos Manga, estrelada por Oscarito. Mudou-se para São Paulo em 1960 e começou a trabalhar na TV Record escrevendo o Simonetti Show e atuando em programas como o La Reuve Chic, Jô Show, Quadra de Azes, Show do Dia 7 e Você é o detetive. Jô Soares também interpretou o mordomo do seriado A família Trapo com Otello Zeloni, Renata Fronzi, Ronald Golias, Cidinha Campos e Renato Corte Real no elenco. 

A estreia na TV Globo aconteceu em 1970 com Faça Humor, Não Faça Guerra. Três anos depois, atuou como ator e redator ao lado de Max Nunes e Haroldo Barbosa em o Planeta dos Homens. Ganhou destaque com Viva o gordo (1981), época em que criou o bordão Um beijo do Gordo!.  Entre os tipos marcantes que viveu nesta época estão o Reizinho, personagem sempre às voltas com os problemas do reino, uma sátira à situação política do país; o Capitão Gay, super-herói homossexual que usava um uniforme cor de rosa e andava sempre acompanhado de seu ajudante Carlos Sueli (Eliezer Motta); e o Zé da Galera, que ligava para o técnico da seleção brasileira de futebol e pedia "Bota ponta, Telê!". Simultaneamente, apresentava um quadro no Jornal da Globo e, em 1983.  

O escritor
Como jornalista, escreveu para as revistas Manchete e Veja e para os jornais O Globo e Folha de S.Paulo. Em 1983, lançou seu primeiro livro, O astronauta sem regime. Com o romance O Xangô de Baker Street (1995), entrou para a lista dos mais vendidos. O livro, que virou filme em 2001, dirigido por Miguel Faria Jr., já foi traduzido para uma dezena de línguas. Também é autor de O Homem que Matou Getúlio Vargas (1998), Assassinatos na Academia de Letras (2005) e As esganadas (2011). Em 2016, foi eleito para a Academia Paulista de Letras. 

A vida nos palcos
Ao longo da carreira, atuou em montagens importantes como O auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, e Oscar (1961), de Claude Magnier, ao lado de Cacilda Becker e Walmor Chagas. Como diretor assinou as montagens de Soraia, Posto 2 (1960), de Pedro Bloch, Os sete gatinhos (1961), de Nelson Rodrigues e Às favas com os escrúpulos (2007), de Juca de Oliveira, entre outras. 

 Também estrelou espetáculos de humor como Ame um Gordo antes que acabe (1976), Viva o Gordo e Abaixo o Regime! (1978), Um gordoidão no país da inflação (1983), O Gordo ao vivo (1988), Um Gordo em concerto (1994) e Na Mira do Gordo (2007). 

Talk shows
Com vocação para uma boa conversa, o primeiro programa de entrevistas apresentado por Jô Soares foi o Globo Gente(1973). Em 1988, no SBT, criou e apresentou o Jô Soares Onze e Meia, onde ficou por 11 anos.

 No ano 2000, Jô Soares voltou à Globo para o Programa do Jô, acompanhado do garçom Alex e do Sexteto, que, em 2015, virou Quinteto. Pelo sofá passaram personalidades, políticos e figuras anônimas _ nacionais e internacionais. Uma das primeiras entrevistas da estreia do programa foi com o jornalista Roberto Marinho, fundador da TV Globo, gravada nos jardins da sua residência. 

 No dia 16 de dezembro de 2016, Jô Soares se emocionou em seu programa de despedida após 16 anos no ar, em que entrevistou o cartunista Ziraldo. "Que alegria ver tantos amigos queridos aqui na plateia. O programa só durou esse tempo todo graças a essa equipe. Minha vida realmente mudou graças à plateia, sem vocês eu não existo. A todo esse pessoal, meu eterno beijo do Gordo". 

Passagem por Pelotas
Em 29 de agosto de 1997 Pelotas recebeu a turnê do monólogo Um Gordo em concerto, o espetáculo apresentado no Theatro Guarany foi promovido pelo Diário Popular e fez parte das comemorações dos 107 anos do Jornal. À reportagem, que ele recebeu, horas antes de entrar em cena, o humorista falou sobre o que existia de mais interessante para se fazer graça na época: "O humor não depende da situação do país. É claro que, naqueles momentos em que a coisa está administrada de forma pio, o humorista fica facilitado".

A diretora do Guarany, a atriz Andrea Fetter Zambrano, atuou durante três anos ao lado de Jô Soares, no programa Viva o Gordo, na TV Globo. "Era uma pessoa maravilhosa, super generoso com as pessoas, atento, humilde. Ele tinha um sarcasmo e umas tiradas muito interessantes e muitas vezes as pessoas nem se davam conta do que ele estava falando."

Cuidadoso com quem trabalhava com ele, Andrea lembra que uma vez ficou doente e que Jô a levou em seu médico particular. Andrea ainda foi uma das entrevistadas pelo multitalentoso ator no programa Jô Soares Onze e Meia, no SBT, em 1996. "Eu virei fã da pessoa que ele era, quanto ao artista não tem o que dizer. Ele era espirituoso, ele e a equipe toda, que tinha o Francisco Milani, o Flávio Migliacio, a Berta Loran. Gravar com eles era muito especial, enriquecedor." (Ana Cláudia Dias)


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