Arte

Exposição Presença Negra no Margs é aberta

Trabalho traz a público o debate e a reflexão sobre a presença e a representatividade negra no campo das artes visuais

16 de Maio de 2022 - 18h43 Corrigir A + A -
Trabalhos continuarão expostos até o dia 21 de agosto (Foto: Divulgação - DP)

Trabalhos continuarão expostos até o dia 21 de agosto (Foto: Divulgação - DP)

Ocupando todos os espaços expositivos do 1º andar do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), a mostra Presença Negra no Margs foi inaugurada no fim de semana e permanece em exibição até agosto. A exposição é um grande trabalho coletivo que traz a público o debate e a reflexão sobre a presença e representatividade negra no campo das artes visuais, a partir de uma perspectiva desde o Sul do Brasil.

Com curadoria dos pesquisadores Igor Simões e Izis Abreu e assistência de curadoria de Caroline Ferreira e produção e realização do Margs, a ampla e extensa mostra apresenta mais de 250 obras, de diversas coleções e procedências, reunindo cerca de 70 artistas entre históricos e atuantes.

Entre os atuantes, um grupo de mais de 20 artistas participou recentemente da residência artística intitulada “Resistência artística: INcorporAÇÕES e cruzas poéticas”, uma parceria entre Margs, RS Criativo e Sesc RS. A atividade de formação e aperfeiçoamento, que integrou as ações preparatórias para a exposição, envolveu temas como o conceito de arte afro-brasileira, o funcionamento do sistema das artes e o empreendedorismo, além da formalização, gerenciamento e comunicação do negócio criativo.

Já entre as obras de arte e peças de coleções presentes na exposição, serão exibidos itens de mais de 20 acervos de instituições, museus e coleções particulares, como Margs, Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MAC RS), Casa de Cultura Mário Quintana, Fundação Vera Chaves Barcellos, Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (Malg), este de Pelotas, Escola Municipal de Arte Carlos Alberto de Oliveira, Pinacoteca Aldo Locatelli, Pinacoteca Ruben Berta e Coleção Sartori.

Um dos destaques é Deusa Nimba. A escultura secular da deusa africana teve sua descoberta no Estado revelada em 2018 e pertence ao município de Santo Ângelo. Localizada pelo Núcleo de Estudos em Cultura Afro-brasileira e Indígena (Neabi) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), e identificada em uma pesquisa que durou dois anos, a Deusa Nimba é a primeira a ser encontrada no Brasil e tem ligação com a tradição religiosa cultuada pelas etnias Baga e Nalu, presentes nas repúblicas da Guiné e da Guiné-Bissau desde o século 15 e que chegaram ao Rio Grande do Sul no século 17.

As mais de 250 obras são apresentadas em núcleos a partir do conceito de “poéticas das encruzilhadas”, noção elaborada com base nas proposições teóricas de Luiz Rufino (2019) e que parte da compreensão de que a arte afro-brasileira resulta dos cruzamentos de múltiplos conhecimentos condensados em manifestações poéticas tecidas na trama das experiências transatlânticas.

Os curadores da exposição, Igor Simões, Izis Abreu e Caroline Ferreira, apontam que escolheram trabalhar apenas com produções que vêm de mãos e mentes negras. “Esta é uma posição política que se refere à necessidade de conceber a arte afro-brasileira não como um tema, um estilo ou conteúdos preestabelecidos, e, sim, como a parcela da arte brasileira produzida por sujeitos negros. A insistência em uma história de ascendência europeia serviu para nublar a presença de sujeitos negros em um Estado com forte contingente de pessoas racializadas como negras. O Museu de Arte do Rio Grande do Sul é questionado e, portanto, também se questiona, posto que é o principal museu de nosso Estado”.

De acordo com o diretor-curador do Margs, Francisco Dalcol, o Margs tem se proposto ao compromisso de discutir e refletir sobre os processos de apagamento e invisibilização da produção artística de autoria negra, bem como a implicação histórica de seu papel enquanto instituição museal e pública. “Assim, com o projeto ‘Presença Negra no Margs’, o museu reforça sua atuação frente às exigências e compromissos dos debates contemporâneos, por meio de reflexões críticas, da produção de conhecimento avançado e da instituição de políticas que buscam maior pluralidade, diversidade, inclusão e equidade dentro de um processo histórico hoje seriamente questionado. E em um país em que o racismo estrutural e sistêmico persiste em suas diversas formas de dominação, opressão, segregação e exclusão, o projeto vem também a problematizar o mito da democracia racial no Brasil”, aponta.

Na concepção da secretária da Cultura, Beatriz Araujo, o projeto vai tornar ainda mais relevante o papel histórico e social do Margs, que abrirá suas portas para o olhar de artistas negros, construindo, assim, uma cultura mais inclusiva. “No âmbito da Secretaria de Estado da Cultura, integra um conjunto de ações que temos implementado por meio de nossas instituições, em nosso empenho e compromisso de trabalhar pela busca permanente de maior diversidade e representatividade. Projetos nossos como o Presença Negra no Margs são possíveis e se tornam realidade graças ao irrestrito apoio e investimentos de um governo que desde o início aposta na cultura e na pluralidade como valores de cidadania e de desenvolvimento social e democrático”.


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