Arte

Exposição evidencia a arte pampeana de Caringi

Curadoria faz recorte regionalista na primeira mostra do escultor na sala que leva o seu nome

14 de Maio de 2022 - 12h05 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

Autoridades e familiares do artista prestigiaram a abertura da exposição (Foto: Rodrigo Chagas  - Especial DP)

Autoridades e familiares do artista prestigiaram a abertura da exposição (Foto: Rodrigo Chagas - Especial DP)

Marcelo Madail, Antonella de Aquino, na curadoria,  e Fernando Schwab, na montagem (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Marcelo Madail, Antonella de Aquino, na curadoria, e Fernando Schwab, na montagem (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Foco no material de uso pessoal do artista (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Foco no material de uso pessoal do artista (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Réplicas em bronze de estátuas estão em exposição (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Réplicas em bronze de estátuas estão em exposição (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Antonio Caringi - O escultor dos pampas inaugurada na manhã desta sexta-feira reabre a sala de exposições da Secretaria de Cultura (Secult) que leva o nome do escultor pelotense, no Casarão 2 da praça Coronel Pedro Osório. O legado do artista é celebrado no mês em que aniversariava. Durante a cerimônia de abertura, a prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) assinou a Lei nº 7.054/22, incluindo no calendário oficial do município este mês, para marcar a data do nascimento, 18 de maio, e também da morte do artista, 30 de maio. "Temos muito orgulho de sermos a terra do Caringi e contem comigo, com o nosso governo, para evidenciar isso, para que gritemos para o mundo que temos orgulho desta obra. Essa exposição marca esse novo movimento de atualização desse extraordinário artista pelotense", disse Paula.

A proposição partiu do vereador Marcos Ferreira, o Marcola (PTB), que também esteve no evento. "Nós somos privilegiados de ter um pelotense como Caringi, que marca a história da nossa cidade com tantas obras, e que também levou para o mundo e difundiu esse legado. Por isso também estamos apresentando um projeto de lei à Câmara, que busca incluir no currículo escolar a história de Caringi, além do projeto para dar o seu nome à Estrada do Engenho", disse o vereador. A abertura da mostra ainda contou com a presença da secretária de Cultura do Estado, Beatriz Araújo, dos secretários municipais de Cultura e de Governo e Ações Estratégicas, respectivamente, Paulo Pedrozo e Fábio Machado, do assessor de Projeto Especiais, Luiz Van der lan, da vice-reitora da Universidade Federal de Pelotas, Úrsula Rosa da Silva, além de filhos e netos de Caringi.

A exposição, que pode ser visitada a partir desta segunda-feira, se origina em uma mostra apresentada na Fenadoce em 2005, em que era celebrada o centenário do escultor. Desta vez a curadoria é de Antonella Caringi de Aquino e Marcelo Hansen Madail, que juntos com o professor Nicola Caringi Lima assinam os textos da mostra. Com montagem de Fernando Schwab e Marcelo Madail e design gráfico de Eloise Schmitz.

Para essa primeira exposição de obras do patrono da sala instalada na Secult, os curadores fizeram um recorte no universo regionalista da obra de Caringi. Marcelo Madail explica que a exposição reedita a mostra anterior, que apresentava vida e obra do artista, mas com outra temática. "Os visitantes vão encontrar aqui obras como, por exemplo, o Sentinela, a Vitória, o Esquilador, o Laçador e o Gaúcho a Cavalo. Estamos apresentando esse viés pampeano", fala o curador.

As obras apresentadas vêm do acervo da família, da Bibliotheca Pública Pelotense e do Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (Malg/UFPel). Além dos bronzes, estudos das obras monumentais, as bancadas da sala ainda exibem homenagens ao artista, objetos pessoais que Caringi usava no trabalho e fotos. A família guarda dezenas de imagens feitas nos ateliês de Caringi, que costumava registrar em fotografias técnicas as obras desenvolvidas. "Ele sabia da importância do registro do seu trabalho", fala Antonella, que é neta do escultor.

Há quatro anos empenhada em tornar cada vez mais conhecido o nome do pelotense por trás das obras monumentais espalhadas em diferentes cidades brasileiras e de fora do país, Antonella de Aquino, percebe que ainda há muito o que ser feito para manter viva essa memória. "São as lembranças da infância no ateliê de Pelotas e a nítida presença do colo e da mão do Caringi avô que que despertam em mim o tamanho da obra monumental deixada como legado", diz sobre o que a motiva.

Desde que começou esse trabalho de fortalecimento da memória do artista, Antonella, incentivada por pessoas como o jornalista Cleiton Rocha e pela marchand Nóris Bargueño, tem desenvolvido diferentes frentes de trabalho que envolvem, entre elas, os direitos autorais e auxílio a pesquisadores, além disso criou uma perfil do artista no Instagram (@escultorantoniocaringi), mas ainda sonha, por exemplo, com um museu virtual que reúna a obra monumental do avô.


Artista obstinado

Para a doutoranda Isabel Halfen Torino, do Programa de Memória Social e Patrimônio Cultural da Universidade Federal de Pelotas, é extremamente importante que esse trabalho de resgate do nome do artista esteja sempre sendo feito. "Pela expressão artística que ele possui ainda é pouco reconhecido. Várias obras dele o pessoal não conhece, veremos que muitas pessoas que vierem aqui vão se surpreender", comenta a pesquisadora.

Isabel está desenvolvendo uma tese dividida em três capítulos: o início da carreira do artista na Escola de Belas Artes de Munique na Alemanha; a obra no Brasil e no Rio Grande do Sul; Caringi em Pelotas. Para a doutoranda esse desconhecimento da autoria é por vezes culpa de quem divulga. "O Caringi pela tem poucos atores sociais lutando pela sua memória. Agora estamos vendo uma mobilização maior, até porque a família está se empenhando bastante para dar visibilidade a essa memória, o que é justo."

Da exposição na Secult Isabel destaca um estudo em bronze intitulado Vitória, que integrou parte uma maquete em gesso de um monumento a Duque de Caxias, que Caringi fez em 1944. Essa obra nunca foi concretizada. Da maquete gigantesca, que aos poucos foi se perdendo, restou uma parte da estátua equestre e que hoje está no Museu Júlio de Castilhos. "Ela foi restaurada recentemente", lembra a pesquisadora.

Na opinião de Isabel essa obra foi um dos monumentos dos quais o artista mais se esmerou para produzir. "Mas lamentavelmente não foi concretizado", comenta a pesquisadora.

Além deste que está sendo exibido existe um outro estudo em bronze da Vitória. Essa estátua seria fixada em um ponto principal à frente do monumento a Duque de Caxias, que segundo Isabel era imenso. "Infelizmente muitos monumentos levam anos, décadas para serem concretizados e muitas vezes não o são. Os motivos são vários e podem ser por questões políticas, ideológicas ou financeiras. Essa deve ter sido uma das maiores frustrações de Caringi, não ver realizado esse monumento."

O próprio Laçador que hoje é símbolo de Porto Alegre e dos gaúchos teve diferentes estudos em bronze até que chegasse a execução final. Um deles inclusive está na mostra. "O próprio Laçador ficou anos em gesso, ele foi produzido em 1954 e ficou até 58 em gesso e não se sabe bem o porquê dessa a história", relata.

A doutoranda relembra que o pelotense era um artista muito obstinado, quando se propunha a representar alguém ou uma história em um monumento. "Ele se estudava muito o personagem, o homenageado e tudo que se relacionava a ele para já apresentar na maquete todas as informações possíveis. As narrativas visuais dos monumentos dele realmente informam", diz.

 

Serviço

O quê: exposição Antonio Caringi _ O escultor dos pampas

Onde: sala Caringi, na sede da Secretaria de Cultura (Secult), na Casa 2 da praça Coronel Pedro Osório

Visitação: de segunda a sexta-feira, das 8h às 14h, até o dia 31 deste mês

Aberto ao público

 


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